Em meio à crise no abastecimento de água que afeta diferentes pontos de Belo Horizonte e da região metropolitana, criminosos estão se aproveitando da alta demanda por caminhões-pipa para aplicar golpes. No Bairro Buritis, Região Oeste da capital, síndicos relatam que falsos fornecedores anunciam o serviço pela internet, recebem o pagamento antecipado e desaparecem sem entregar uma gota d'água.
A síndica profissional Camila de Oliveira Gonçalves, que administra 19 condomínios, afirma ter visto diversos relatos da fraude nos grupos de síndicos do bairro desde o domingo (30/8). Segundo ela, os golpistas apresentam os serviços como se fossem de empresas reais, com logotipo, mensagens e atendimento pelo WhatsApp.
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O golpe, de acordo com Camila, funciona como uma contratação convencional. O morador ou responsável pelo condomínio encontra o anúncio, entra em contato com o suposto fornecedor e recebe informações sobre capacidade, preço e forma de pagamento. Depois, é solicitado um pagamento antecipado, geralmente por Pix. O caminhão, porém, nunca chega.
A situação se torna ainda mais propícia para a fraude diante da dificuldade de encontrar veículos disponíveis. Com os reservatórios dos condomínios esvaziados e a procura elevada, moradores acabam recorrendo rapidamente aos contatos encontrados na internet.
"Eles estão se aproveitando da alta demanda", relata.
Golpistas anunciam caminhão-pipa por R$ 600
A síndica afirma que também encontrou ofertas com valores muito abaixo do preço praticado antes da crise. Segundo ela, houve anúncios de caminhões-pipa por até R$ 600. Antes do agravamento da falta de água, o serviço costumava custar entre R$ 800 e R$ 1 mil, conforme os valores observados por ela.
"Como a demanda está muito alta, as pessoas estão desesperadas atrás de água e acabam procurando qualquer contato que aparece", explica.
Em um dos condomínios administrados por Camila, uma moradora contratou um suposto prestador e fez um pagamento antecipado de aproximadamente R$ 1,2 mil. A água não foi entregue. Houve uma tentativa de recuperar o valor por meio do banco, mas apenas R$ 11,25 foram devolvidos. O caso também foi registrado em boletim de ocorrência.
Em outro caso, uma moradora encontrou pela internet uma empresa que dizia ser de Betim, na Grande BH, e contratou o fornecimento de 20 mil litros de água. Segundo Camila, os contatos utilizados pelos suspeitos tinham DDDs de outros estados. Ela também afirma que a conta utilizada para receber o dinheiro estava vinculada a São Paulo.
"Às vezes, a pessoa chama pelo WhatsApp e a empresa tem a logo, a mensagem, tudo certinho. O pagamento é feito de forma antecipada e o caminhão nunca chega", conta.
Ainda de acordo com a síndica, sempre que alguém pergunta sobre a contratação de caminhões-pipa, ela alerta imediatamente sobre os golpes, "evitamos muitos", relata.
A dificuldade para encontrar caminhões-pipa disponíveis continua alta nesta quarta-feira (2/9). Embora o abastecimento tenha começado a retornar de forma intermitente em algumas áreas, condomínios localizados nas partes mais altas ainda enfrentam falta d'água, conforme Camila. A localização dificulta a chegada da água a esses imóveis, mantendo a demanda por abastecimento emergencial.
"A água começou a voltar de forma intermitente desde ontem (terça-feira, 1º/9), mas vai e volta. Os condomínios da parte alta estão sem água desde o dia 19."
Camila afirma que, em seis anos administrando condomínios, nunca havia enfrentado uma situação semelhante. No Vale do Sereno, foram necessários cerca de dez caminhões-pipa, cada um com capacidade para 20 mil litros. Em outros condomínios que administra, foram contratados mais quatro veículos.
"Ontem (terça-feira) eu consegui receber um caminhão, mas hoje está muito difícil contratar. As pessoas estão procurando muito e os fornecedores não estão conseguindo atender todo mundo."
Rompimento de adutora
A crise na Região Oeste começou após o rompimento de uma adutora de grande porte em 19 de agosto, na Rua Xapuri, no Bairro Nova Granada. A tubulação passava sob uma edificação que acabou danificada pelo vazamento.
O problema provocou danos estruturais no imóvel, incluindo a destruição de um cômodo e a abertura de uma cratera na via. Durante a avaliação, a Defesa Civil identificou processo erosivo na base da construção, com exposição das fundações, e o imóvel precisou ser totalmente interditado.
Como a adutora passava sob a edificação, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) não conseguiu fazer o reparo convencional e isolou o trecho danificado, alterando a configuração da rede. A mudança reduziu a vazão e provocou oscilações de pressão, principalmente nas áreas mais altas dos bairros Buritis, Estoril e Nova Suíça. Para normalizar o sistema, a companhia iniciou, na segunda-feira (31/8), a implantação de um novo traçado da adutora, com previsão de conclusão até o fim desta semana.
Normalização nesta quinta
A companhia informou que o abastecimento já foi normalizado em grande parte da área afetada. Ainda há, porém, intermitências nos bairros Havaí, Flávio Marques Lisboa e em parte do Buritis.
A previsão é que o restabelecimento completo do sistema ocorra de forma gradual nesta quinta-feira (3/9).
Para atender os pontos que ainda enfrentam dificuldades, a companhia informou que mantém mais de 20 caminhões-pipa em operação, com prioridade para hospitais, unidades de saúde, creches e escolas.
A Copasa também afirma estar injetando água em reservatórios do Buritis para reforçar o abastecimento das residências da região. O horário de atendimento emergencial por caminhões-pipa foi ampliado até as 22h.
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A companhia também informou que está fazendo um mapeamento junto às escolas da região para identificar aquelas que ainda enfrentam dificuldades no abastecimento e reforçar o atendimento emergencial.
