Patrimônio mundial: como a Unesco fez do Peruaçu uma janela para o planeta
Após um ano, declaração do conjunto do Norte de Minas como Patrimônio Natural Mundial fez turismo disparar, infraestrutura aumentar e impôs novos desafios
Grutas do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu chamam
a atenção pela beleza e pela proporção, que o titulo concedido pela Unesco tornou conhecidas mundo afora - (crédito: Leonardo Giounco/divulgação)
crédito: Leonardo Giounco/divulgação
O conjunto de sítios arqueológicos do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, localizado entre os municípios de Januária, Itacarambi e São João das Missões, no Norte de Minas, ganhou a vitrine do planeta com o reconhecimento como Patrimônio Natural Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Um ano após a concessão do título, completado no último dia 13 de julho, a visitação disparou, mais roteiros turísticos foram criados, a infraestrutura e a preparação dos receptivos teve incremento e o salto no interesse pela reserva repercutiu na procura por outros atrativos do entorno. Mas, com a maior demanda, apareceram também novos desafios para acolher toda essa procura.
Durante o ano de 2025, o Vale do Peruaçu recebeu 23.082 visitantes, um crescimento de 58,15% em relação às 14.600 visitas registradas em 2024. A expectativa é que, neste ano, mais de 30 mil pessoas visitem os atrativos da área, que conta com mais de 200 cavernas catalogadas, sítios arqueológicos com vestígios humanos de até 12 mil anos, pinturas rupestres e uma biodiversidade que reúne espécies típicas da Mata Atlântica, do Cerrado e da Caatinga, em reserva administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Os números são revelados pela gestora do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, Dayanne Sirqueira. Ela ressalta que o reconhecimento da Unesco deu nova visibilidade ao acervo de grutas e cavernas, com repercussões em toda a região. “Percebemos um efeito especialmente na visibilidade, com reflexos no aumento da visitação. Podemos dizer que isso afeta não somente os municípios abrangidos pela reserva, mas toda a região, que passa a enxergar o parque como uma oportunidade de desenvolvimento”, avalia Dayanne.
Na mesma linha, o espeleólogo Leonardo Giunco, integrante do Conselho Consultivo do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, considera que a titulação colocou o lugar em evidência no cenário mundial. “Em apenas um ano, o Peruaçu consolidou-se como uma vitrine internacional, ampliando significativamente sua visibilidade e despertando o interesse de turistas, operadores e agências de viagens do Brasil e do exterior”, relata.
Segundo ele, diversas agências de turismo passaram a incluir o Peruaçu em seus roteiros, o que resultou em um aumento expressivo da demanda por visitas ao parque. “Hoje, em muitos dias, especialmente durante férias escolares e feriados prolongados, atingimos a capacidade máxima diária de visitantes. Em determinados períodos, quem deseja conhecer o parque precisa fazer agendamento com até dois meses de antecedência”, observa.
Leonardo Giunco destaca ainda que a titulação do Peruaçu fomentou o interesse pelo conhecimento de outras belezas regionais. “Hoje, o visitante que chega para conhecer o Peruaçu acaba permanecendo mais tempo na região e descobrindo outros atrativos, como passeios pelo Rio São Francisco, as praias de água doce que surgem entre julho e outubro e engenhos tradicionais de produção de cachaça, casas de farinha, além de outras unidades de conservação, como os parques estaduais Grande Sertão Veredas e Veredas do Peruaçu, o Refúgio Estadual de Vida Silvestre do Rio Pandeiros e a Serra das Araras”, descreve.
Turista em uma das 200 estruturas espeleológicas da unidade de conservação, que em determinados períodos tem atingido a capacidade máxima diária de visitação
Leonardo Giounco/divulgação
Gargalos no caminho
O integrante do Conselho Consultivo do Peruaçu salienta que, apesar dos avanços, alguns gargalos ainda precisam ser sanados para impulsionar de vez o turismo na área. “O principal deles é a estrada de acesso ao parque. São aproximadamente 12 quilômetros de estrada de terra e cascalho, que apresentam problemas tanto no período seco quanto no chuvoso.”
Segundo ele, com o acesso sem pavimentação, durante a seca a poeira incomoda os visitantes, afeta a qualidade de vida de comunidades vizinhas e “ainda se deposita sobre diversos sítios arqueológicos existentes ao longo do trajeto”. Durante o período chuvoso, por outro lado, a estrada sofre com lama, buracos e processos erosivos. “Por isso, considero prioritário que o governo federal invista no calçamento ou em uma solução definitiva para esse trecho. Trata-se da única via de acesso ao principal patrimônio natural mundial reconhecido pela Unesco em Minas Gerais, e sua melhoria beneficiará o turismo, as comunidades locais e a conservação ambiental”, afirma.
O espeleólogo avalia que a gestão do parque vem desempenhando um trabalho importante na conservação e na organização das visitas ao local, mas entende que algumas intervenções precisam ser feitas, como a retomada das visitas às segundas-feiras e o reforço da equipe de funcionários. “O título de Patrimônio Natural da Humanidade trouxe uma responsabilidade ainda maior para o Brasil. Agora, é fundamental que os investimentos em infraestrutura, pessoal e gestão acompanhem esse novo patamar de reconhecimento internacional, garantindo uma visitação de qualidade, segura e ambientalmente sustentável, ao mesmo tempo em que fortalecem o desenvolvimento econômico das comunidades do entorno”, considera Leonardo Giunco.
A gestora da unidade assegura que o parque dispõe de ampla infraestrutura nas áreas abertas à visitação, implantada em 2017. E afirma que, atualmente, esse conjunto passa por reformas, especialmente nos decks e mirantes, para substituição de estruturas que sofreram o desgaste do tempo. Dayanne Sirqueira lembra que houve ampliação da equipe gestora do Peruaçu e anuncia que estão projetadas melhorias na estrutura de visitação a serem implantadas em breve, como novas trilhas, novos atrativos e atividades, entre elas a observação de aves e o astroturismo (observação do céu em período noturno).