Os veículos pegaram fogo após a colisão: o filho do caminhoneiro e uma passageira do ônibus morreram carbonizados

CBMMG/Divulgação
Descontrolada em uma longa curva do segmento mais violento da BR-040, em Esmeraldas, na Grande BH, a carreta graneleira sai da pista duplicada, atravessa o gramado e a canaleta do canteiro central, atinge um carro que trafegava no lado oposto da via e bate de frente contra um ônibus com 27 passageiros. Os dois veículos se incendeiam. Duas pessoas morrem e 23 ficam feridas. O tráfego é interrompido por mais de 6 horas e uma fila de veículos congestiona 13 quilômetros da via no sentido sul (Capim Branco). Mais um capítulo trágico da história de violência que se consolida nas rodovias federais de Minas Gerais, estado com maior número de sinistros, mortes e feridos neste primeiro semestre de 2026.


O desastre de ontem, no limite entre Esmeraldas e Capim Branco, no sentido Belo Horizonte, ocorreu às 5h de ontem e matou uma passageira do ônibus da empresa Pássaro Verde, que viajava de Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, para a capital mineira, e o filho do caminhoneiro. Os corpos dos dois foram carbonizados. Entre os feridos estão uma criança, com idade aparente de 8 anos, e um bebê, de 1. O ônibus estava a 40 quilômetros do destino, observou a empresa, em nota. Os feridos foram encaminhados para o Hospital Municipal Monsenhor Flávio D’Amato, em Sete Lagoas. Segundo a concessionária do trecho, a Via Cristais, a faixa no sentido sul (BH) foi liberada às 11h43, mas até as 13h o trânsito seguia lento.Até a liberação, foi implantada mão dupla no sentido norte (Sete Lagoas).


De acordo com levantamento feito pela reportagem do Estado de Minas sobre estatísticas de ocorrências da Polícia Rodoviária Federal (PRF), a BR-381 em Minas Gerais já figura como a estrada federal que mais matou nos estados, entre janeiro e julho de 2026. Foram 1.347 sinistros, nos quais 87 pessoas perderam a vida e 1.633 ficaram feridas.


A BR-040, palco do acidente de ontem, está entre as mais críticas do país, a quarta mais mortal entre os trechos de estados, com 73 óbitos em 850 sinistros que ainda deixaram 1.019 feridos. A BR-277, no Paraná, foi a segunda que mais matou no período, com 80 óbitos em 1.075 acidentes e 1.209 feridos. Seguida da BR-116, na Bahia, que fechou o período com 75 óbitos em 489 sinistros e 662 feridos.


Fazendo um comparativo entre o primeiro semestre de 2026 e o mesmo período de 2025, o segmento onde as duas pessoas morreram e 23 se feriram ontem, em Esmeraldas, é o mais violento da BR-040 em Minas Gerais. Segundo os dados da PRF, a BR-040, entre BH e Paracatu (direção BH a Brasília), registrou 43 mortes, o que representa 59% das vítimas da estrada como um todo no estado.

Se comparado o primeiro semestre de 2026 com o mesmo período de 2025, as mortes nesse trecho, que passa por Esmeraldas, subiram de 34 para 43, um crescimento de 26,4%.Na via, que é duplicada até Sete Lagoas, o número de sinistros também foi maior, com 486 ocorrências registradas pelos policiais rodoviários federais, assim como o de feridos, com 578. Enquanto isso, o trecho BH-RJ, de Nova Lima a Simão Pereira, na divisão com o território fluminense, registrou 364 sinistros, com 30 mortes e 441 feridos no mesmo período.


FALHAS COMPORTAMENTAIS

O segmento do acidente em Esmeraldas está situado integralmente em área rural com variações de aclive e declive. Em horários fora dos picos da manhã e da tarde, a localização propicia o desenvolvimento de altas velocidades.


As falhas comportamentais são a causa primária da maioria das ocorrências registradas ali desde 2022. Foram anotados pela PRF episódios de reação tardia, condutor dormindo ao volante, velocidade incompatível e ingestão de álcool. O sinistro de maior gravidade apontado nos levantamentos até junho ocorreu em plena noite por trânsito na contramão, resultando em uma colisão frontal com um óbito.


Episódios de chuva e acúmulo de água sobre a pista atuam como agravantes críticos na via, provocando episódios de aquaplanagem, colisões laterais e tombamentos em retas. Há uma concentração expressiva de acidentes por perda de controle do veículo — englobando saídas de pista, capotamento e tombamentos (estes últimos também associados a avarias mecânicas e desatenção), que somaram cinco pessoas feridas.


Já a estrada mais mortal do Brasil no período, a BR-381, matou mais no segmento da Rodovia Fernão Dias, entre Contagem e Extrema. Foram 968 sinistros com 47 óbitos e 1.120 feridas. No comparativo com o mesmo período do ano passado, os sinistros na Fernão Dias aumentaram 0,9%, as mortes subiram 14,6% e o quantitativo de feridos teve alta de 1,9%.


O segmento entre Belo Horizonte e Governador Valadares – que é conhecido como a Rodovia da Morte entre BH e João Monlevade – registrou 379 acidentes, nos quais 40 pessoas perderam a vida e outras 513 ficaram feridas. Ao se comparar os registros de primeiro semestre deste ano com igual período de 2025, a via registrou 19,5% mais acidentes, as mortes subiram 21,2% e o quantitativo de pessoas feridas se ampliou em 10,5%.


O levantamento do EM mostra também que a BR-262 foi mais mortal de Betim ao Triângulo Mineiro, com 28 óbitos, do que no sentido João Monlevade a Martins Soares (MG-ES), onde 11 pessoas perderam suas vidas. O trecho também foi o mais violento em termos de sinistros, com 345 ocorrências contra 127 do segmento que faz a ligação com o Espírito Santo, tendo também registrado mais feridos, com 390 a 152, respectivamente.


VIOLÊNCIA POR QUILÔMETRO

Antes da batida entre a carreta graneleira e o ônibus de Minas Novas, o Km 491, onde ocorreu o desastre, não era um dos mais violentos. Ampliando a análise dos dados da PRF para o ano de retomada após a pandemia do novo coronavírus, em 2022, o registro era de oito sinistros, uma morte e cinco pessoas feridas. O que posicionava o trecho como o 306 º em acidentes e o 212° em mortes.


O segmento de mil metros da BR-040 onde mais batidas, atropelamentos e acidentes ocorreram foi o Km 517, em Ribeirão das Neves, também um município da Grande BH. Ali foram registrados 137 sinistros, com dois mortos e 155 feridos. Já o mais mortal da BR-040 foi o Km 614, no município histórico de Congonhas, na Região Central de Minas, com 34 ocorrências, que resultaram em nove mortes e 42 feridos.


O mesmo mapeamento, de 2022 a 2026, também destaca quais os pontos de mais sinistros e mortes da BR-381, que é a campeã em óbitos do Brasil em 2026. Os piores índices ficam na Região Metropolitana de Belo Horizonte, todos eles na Rodovia Fernão Dias. O Km 484, no município de Betim, foi o que mais sinistros registrou, com 181 ocorrências, quatro óbitos e 201 feridos no período. Já o Km 525, em Brumadinho, na Serra de Igarapé, registra o maior número de mortes. Foram 16, num universo de 60 sinistros com 99 feridos.


ESTADO LIDERA SINISTROS

De forma geral, os sinistros, mortes e feridos nas rodovias federais se reduziram no Brasil e na maioria dos estados, incluindo Minas Gerais, no comparativo entre o primeiro semestre de 2025 e os seis primeiros meses de 2026, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), compilados pela reportagem do Estado de Minas.


Em todo Brasil, foram 3,4% menos sinistros, com as ocorrências caindo de 34.779 para 33.572. As mortes foram reduzidas em 2,3%, de 2.889 para 2.822, enquanto o quantitativo de pessoas feridas caiu 3,4%, de 40.105 registros para 38.737.


O estado mais violento do Brasil foi Minas Gerais, com 4.261 sinistros nas rodovias federais, entre janeiro e junho de 2026. Mas houve recuo. O número representa queda de 4,3% nos registros ante os 4.456 do mesmo período de 2025. As mortes se retraíram 6,6%, de 389 para 363, enquanto os feridos diminuíram 4,3%, de 5.564 para 5.325.


Os registros de sinistros recuaram em 17 estados, com destaque para Roraima, com queda de 29,7% dos acidentes. Também apresentaram redução: Alagoas (-8,92%), Amapá (-10,81%), Bahia (-3,73%), Ceará (-26,52%), Distrito Federal (-1,04%), Espírito Santo (-16,52%), Mato Grosso (-5,95%), Mato Grosso do Sul (-3,9%), Paraíba (-18,12%), Piauí (-4,42%), Rio de Janeiro (-3,03%), Rio Grande do Norte (-12,58%), Rio Grande do Sul (-11,45%), São Paulo (-10,31%) e Sergipe (-5,02%).


Por outro lado, 10 unidades da Federação tiveram aumento de sinistros no mesmo período, com a piora mais acentuada ocorrendo em Rondônia, com incremento de 25,2% dos acidentes no comparativo. Também apresentaram aumento de sinistros os estados do Acre (15,7%), Amazonas (10,61%), Goiás (3,21%), Maranhão (13,88%), Pará (4,07%), Paraná (0,55%), Pernambuco (9.14%), Santa Catarina (1,2%) e Tocantins (10,49%).


Em termos de mortes nas estradas federais, 16 estados apresentaram quedas de índices no período, sendo a maior no Acre, onde a redução foi de 33,3%. Também reduziram os óbitos nas rodovias os estados de Alagoas (-14,58%), Amapá (-25%), Bahia (-2,82%), Ceará (-14,29%), Espírito Santo (-2,53%), Mato Grosso do Sul (-8,0%), Pará (-14,89%), Paraíba (-8,7%), Paraná (-10,93%), Piauí (-1,18%), Rio Grande do Norte (-5,66%), Roraima (-18,18%), Santa Catarina (-15,22%), São Paulo (-9,9%) e Minas (_6,6%).


Sergipe e Distrito Federal repetiram os seus índices de óbitos e por isso mantiveram estabilidade no levantamento. Já outros nove estados apresentaram mais mortes, sendo o pior índice o do Amazonas, onde os óbitos se ampliaram em 70%. Também experimentaram maior violência com crescimento de óbitos os estados de Goiás (14,69%), Maranhão (0,93%), Mato Grosso (7,55%), Pernambuco (11,04%), Rio de Janeiro (5,06%), Rio Grande do Sul (15,49%), Rondônia (25,0%) e Tocantins (22,73%).


MALHA GRANDE E PERIGOSA

A concentração da maior malha viária federal em Minas Gerais tem sido um dos motivos mais fortes para que o estado seja o campeão em sinistros, mortes e feridos, ano após ano, semestre após semestre. No comparativo do primeiro semestre de 2025 com os seis primeiros meses de 2026, apenas a rodovia BR-381 apresentou elevação de sinistros, em 5,56%. A BR-265 e a BR-267 mantiveram variação zero, com o mesmo quantitativo de acidentes nos dois períodos.


Por outro lado, 12 rodovias mineiras apresentaram redução de sinistros, com destaque para a BR-459 (-34,55%) e para a BR-354 (-31,91%). Também reduziram as ocorrências as rodovias BR-040 (-9,86%), BR-050 (-1,37%), BR-116 (-1,4%), BR-146 (-23,33%), BR-153 (-15,79%), BR-251 (-19,51%), BR-262 (-8,53%), BR-356 (-7,14%), BR-364 (-4,55%) e BR-365 (-8,68%).


Já o volume de pessoas mortas aumentou em quatro rodovias mineiras, com destaque para a BR-364 (500%) - aumento de um para seis óbitos, que resultou em grande variação - e para a BR-267 (60%). Também ampliaram as mortes as rodovias BR-050 (7,14%) e BR-381 (17,57%). As rodovias BR-040 e BR-354 não variaram no período.

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A segurança aumentou em sete rodovias mineiras com redução de sinistros, com destaque para e a BR-459 (-77,78%). Também reduziram os óbitos as rodovias BR-116 (-3,7%), BR-153 (-53,85%), BR-251 (-14,71%), BR-262 (-35,0%), BR-356 (-50,0%) e BR-365 (-4,35%). (Com informações de Ana Luiza Soares e Quéren Hapuque)

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