Programa Muralha BH transforma câmeras em rede de inteligência contra o crime, em parceria com a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal; 22 prisões já foram feitas na capital
Câmera instalada na Rua Niquelina, um dos corredores de trânsito mais importantes do Bairro Santa efigênia, na região leste de BH crédito: Jair Amaral/EM/D.A Press
Uma câmera registra um rosto em Belo Horizonte. A imagem é processada e confrontada com informações de segurança de outros bancos de imagem. Ocorrendo correspondência com alguém procurado pela Justiça, o alerta passa por validação técnica e chega às equipes responsáveis pela abordagem e eventual captura. Vale dizer: com o Programa Muralha BH, o que antes era apenas uma imagem em uma central de monitoramento passa a integrar uma poderosa cadeia de inteligência capaz de produzir efeitos concretos.
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E os resultados já estão acontecendo: desde a formalização da integração das câmeras da Prefeitura de Belo Horizonte com a plataforma de reconhecimento facial da Polícia Federal, 22 pessoas foram localizadas e presas com apoio do Muralha BH. Entre elas está uma pessoa com mandado de prisão por estupro de vulnerável.
Também foram realizadas quatro prisões por tráfico de drogas, quatro por furto, duas por roubo e casos envolvendo lesão corporal, porte ilegal de arma, receptação de produtos roubados e ameaça. O sistema garantiu, ainda, a recaptura de uma pessoa que cumpria pena no regime semiaberto e não havia retornado à unidade prisional, além da localização de pessoas com mandados de prisão por atraso no pagamento de pensão alimentícia.
Os números mostram as transformações em curso na segurança pública da capital, a partir da criação do Muralha BH. O objetivo do programa é criar e consolidar uma grande rede integrada de monitoramento, combinando câmeras, inteligência artificial, reconhecimento facial, leitura automática de placas e cruzamento de informações com bancos de dados de diferentes instituições da área da segurança pública.
Na verdade, mais que apenas instalar equipamentos, a aposta está justamente na capacidade de fazer com que esses órgãos e os dados colhidos por eles conversem entre si.
Na parceria com a Polícia Federal, as câmeras municipais são conectadas à plataforma disponibilizada pela instituição. Quando o sistema identifica uma possível correspondência facial, o alerta é submetido à validação por profissionais da PF antes de qualquer procedimento operacional.
A tecnologia, portanto, não determina automaticamente uma prisão. A análise e a decisão permanecem nas mãos de profissionais especializados. Segundo o secretário municipal de Segurança e Prevenção, Márcio Lobato, esse procedimento evita que um eventual falso positivo provoque automaticamente uma abordagem eventualmente seguida de prisão.
Sala de operações do cop-bh, que se tornou uma central permanente de gestão urbana Marcos Vieira /EM/D.A Press
Uma rede de monitoramento
Considerado pela Prefeitura o maior programa de tecnologia com inteligência artificial aplicada à segurança pública já desenvolvido em Minas Gerais, o Muralha BH planeja instalar mais de 10 mil câmeras em pontos estratégicos da cidade, além da integração de equipamentos já existentes.
O monitoramento alcançará praças, parques, escolas municipais, centros de saúde, vias de grande circulação, corredores urbanos, acessos ao Anel Rodoviário e divisas de Belo Horizonte com municípios vizinhos.
A estratégia é criar um cinturão eletrônico capaz de auxiliar tanto na localização de pessoas procuradas quanto na identificação de veículos envolvidos em crimes. É nesse segundo eixo que entra a parceria da PBH com a Polícia Rodoviária Federal (PRF). A integração permite ao município acessar informações do Alerta Brasil – sistema nacional utilizado pela PRF. Quando uma câmera identifica a placa de um veículo com registro de furto ou roubo, inclusive de outros estados, o cruzamento de dados pode gerar um alerta para as forças de segurança.
O compartilhamento amplia também o acesso a informações de bases como Renavam, Renach e Banco Nacional de Mandados de Prisão. Rodovias e acessos que atravessam Belo Horizonte passam, dessa maneira, a fazer parte da rede, aumentando a capacidade de identificar veículos e deslocamentos relacionados a ocorrências policiais.
COP-BH é o cérebro da estrutura
A expansão tecnológica se apoia em uma estrutura que vem sendo construída em Belo Horizonte: o Centro Integrado de Operações de Belo Horizonte (COP-BH) deixou de ser uma estrutura destinada apenas aos grandes eventos e tornou-se uma central permanente de gestão urbana.
O COP-BH funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, reunindo diferentes instituições em sua Sala de Controle Integrado, englobando segurança, mobilidade, fiscalização, defesa civil e atendimento de emergência, compartilhando informações e coordenando ações corretivas.
A estrutura tecnológica vem acompanhada de reforço humano – um exemplo é a Guarda Civil Municipal, que dispõe de 2.469 agentes e atua em patrulhamentos, trânsito, escolas, unidades de saúde, áreas comerciais, espaços públicos e transporte coletivo. Além do atual contingente, mais de 500 excedentes de concursos foram convocados para formação, ampliando o efetivo disponível para a cidade.
Tecnologia amplia integração
O Muralha BH também evidencia uma mudança na participação dos municípios na segurança pública. Embora as responsabilidades sejam compartilhadas por diferentes esferas de governo, as cidades concentram estruturas decisivas para prevenção e resposta: guardas municipais, sistemas de câmeras, iluminação, fiscalização, gestão do espaço urbano e informações produzidas diariamente.
Em Belo Horizonte, a estratégia tem sido conectar essa capacidade às estruturas estaduais e federais , em vez de manter sistemas isolados. É o que acontece, por exemplo, quando uma câmera da prefeitura utiliza a plataforma da Polícia Federal para auxiliar na localização de um foragido ou quando a leitura de uma placa pode ser confrontada com informações nacionais da PRF. A tecnologia encurta distâncias institucionais e permite que estruturas pertencentes a diferentes órgãos funcionem como partes de uma mesma rede.
As 22 prisões já realizadas são ainda um resultado inicial diante da dimensão prevista para o programa, que segue em implantação. Mas já demonstram uma mudança importante: a câmera se tornou parte de um sistema capaz de identificar situações e contribuir para uma resposta.
O salto do Muralha BH está justamente aí. Não apenas multiplicar câmeras pela cidade, mas transformar imagens em informação, informação em alerta e alerta em ação – mantendo a decisão e a abordagem sob responsabilidade dos profissionais de segurança.