Ailton Krenak: "A arte respira mesmo na lama"
Escritor e importante liderança dos povos originários no Brasil fala ao EM sobre a participação no CURA 2026 e sobre a "miséria ambiental"
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O tema do CURA 2026 é “Descansar enquanto”. Em uma sociedade atravessada pelo excesso de estímulos e urgências, o festival propõe o descanso não como pausa, mas como posicionamento: um direito ainda não garantido, atravessado por desigualdades de gênero, raça e classe. A reflexão dialoga com o livro “Descansar é resistir”, da norte-americana Tricia Hersey, para quem o descanso é uma recusa ativa às estruturas que operam pela exaustão.
Entrevista Ailton Krenak
Escritor, filósofo, ambientalista e importante liderança dos povos originários no Brasil
Qual é a sensação de trabalhar numa empena em BH? Mais um desafio em tantos anos de jornada ou um prazer de fazer "arte nas alturas"?
Vejo essa oportunidade rara como um privilégio de levar um pouco de sonho à dura realidade da metrópole, pois acho que todas as empenas ficariam mais bonitas com pinturas ou desenhos. Quem se pendura são mesmo os artistas das alturas, eu desenho no chão e o coletivo CURA Crew escala o prédio com a arte que exige muita destreza e coragem.
Como o senhor vê esse tipo de iniciativa para uma metrópole como Belo Horizonte?
Belo Horizonte é mesmo um convite a paisagens com muitos horizontes, e empenas têm esse poder de trazer imagens de outros lugares, rios e florestas, montanhas que foram engolidas por cimento e vidro.
Aproveitando o nome do projeto e fazendo, com licença, um trocadilho, o senhor acha que a arte é um elemento de cura para a humanidade?
Cada vez mais sou levado a pensar e sentir a arte como CURA pra nossas vidas, até mesmo um sentido de refúgio para muita gente que precisa respirar além das paisagens urbanas.
O senhor tem sempre um olhar crítico sobre as mazelas do mundo, principalmente a respeito das fontes causadoras da poluição, desmatamento e outros males globais. Diante de tantos problemas, para onde estamos caminhando?
Parece que tudo virou mercadoria, as vidas das pessoas e seus mundos vão sendo atropelados pelo mercado . Nossos rios e montanhas são calculados bilhões. Um assalto ao futuro de quem virá depois.
Tivemos, recentemente, terremotos na Venezuela e Colômbia, e agora destruição no Nepal. Na sua avaliação, qual a raiz desses fenômenos?
Os geólogos têm mostrado o movimento das placas tectônicas em cada região onde grandes desabamentos, terremotos e deslizamentos acontecem. A terra está chacoalhando para nos lembrar que é viva, respira e não pode ser revirada em todos os cantos.
A tragédia do povo Yanomami continua de forma assustadora. Como o senhor vê tal quadro?
Os Yanomami e muitos outros povos indígenas seguem resistindo ante o avanço do garimpo e da mineração. Os Maxakali nunca tiveram seu território respeitado aqui mesmo; o Rio Doce foi devastado pela mineração e tudo segue na mesma batida. Isso é o efeito do necro-capitalismo. É a globalização da miséria ambiental para todos. E a arte respira mesmo na lama.
CURA 2026 – Festival de Arte Urbana
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• Até este domingo, 30 de agosto
• Onde: Praça Raul Soares, Região Centro-Sul de Belo Horizonte
• Empena de Ailton Krenak: Edifício Pignataro (Praça Raul Soares, 8 – empena virada para a Avenida Bias Fortes)
• Empena de Mônica Nador: Edifício Florença (Rua Dos Guaranis, 555)
• Programação gratuita, ao ar livre