PLANO CIRCULAR

Copasa lança plano para ampliar reúso de água em Minas

Plano prevê mapear locais com potencial para o reúso de água e avaliar custos, tecnologias e modelos de cobrança para atender setores como indústria, agricultura e serviços públicos

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A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) lançou nesta quinta-feira (27/8), em Belo Horizonte, um plano estratégico para ampliar o reúso de água no estado. O documento, porém, ainda não define onde os projetos serão implantados nem quanto custará a operação. A estratégia prevê identificar onde há potencial para reaproveitar o efluente tratado nas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs), avaliar os custos e as tecnologias necessárias e definir modelos para que a água possa ser utilizada em atividades como indústria, irrigação e limpeza urbana.

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A iniciativa é apresentada como uma alternativa para aumentar a disponibilidade hídrica diante de períodos de seca, do crescimento da demanda e de conflitos pelo uso da água. Antes de chegar à prática, porém, o reúso ainda depende de definições regulatórias e econômicas, da escolha dos locais com maior potencial e da adesão dos possíveis usuários.

O Plano Estratégico de Reúso da Água em Minas Gerais foi desenvolvido pela Copasa em parceria com o Centro de Referência em Estações Sustentáveis de Tratamento de Esgoto (CR Etes), o Instituto Reúso de Água (IRdA) e a Go Associados. O lançamento ocorreu durante o 1º Seminário Reúso de Águas em Minas Gerais, realizado na sede da companhia, na capital, com a participação de especialistas para discutir as possibilidades de aplicação da prática.

Embora a expressão "reúso de água" possa parecer algo distante da rotina da população, a lógica é relativamente simples. A água utilizada nas casas segue para o sistema de esgotamento sanitário e chega às estações de tratamento. Depois de passar pelos processos necessários, o efluente tratado normalmente é devolvido ao meio ambiente. A proposta do reúso é acrescentar uma nova possibilidade a esse caminho: em vez de ser devolvido diretamente a um rio, por exemplo, o efluente pode passar por tratamentos adicionais, conforme a finalidade, e ser encaminhado para uma atividade que não exija água potável.

Isso significa que a água de reúso não será destinada, neste momento, ao consumo humano. A estratégia apresentada pela Copasa está concentrada em usos não potáveis. Entre as possibilidades estão processos industriais, irrigação de lavouras, limpeza de ruas e praças e outras atividades que demandam água, mas não necessariamente precisam de água própria para consumo.

A diferença é importante porque o nível de tratamento necessário varia de acordo com o destino do recurso. Uma atividade pode exigir determinados padrões de qualidade, enquanto outra poderá demandar processos mais sofisticados. Quanto maior a exigência, maior tende a ser também o custo da tecnologia empregada.

É justamente esse tipo de diferença que o novo plano pretende mapear. Segundo a proposta, será feito um diagnóstico da oferta e da demanda atual e futura de água e de efluentes tratados. O trabalho também deverá considerar aspectos técnicos, ambientais, regulatórios e econômicos, além de dados das estações de tratamento, análises estatísticas da qualidade dos efluentes e seleção de tecnologias.

Na prática, o objetivo é descobrir onde o reúso pode fazer sentido e em quais condições. Não basta haver uma estação de tratamento produzindo efluente. É necessário que exista um possível usuário nas proximidades, que a qualidade da água seja compatível com a atividade, que o tratamento adicional seja viável e que o custo de levar esse recurso até o destino não torne a operação inviável.

Experiência

A discussão não começou agora. De acordo com a gerente de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da Copasa, Karoline Tenório, a crise hídrica de 2015 contribuiu para que fossem buscadas alternativas capazes de ampliar a disponibilidade de água e reduzir a dependência exclusiva dos mananciais.

A experiência, segundo a empresa, também revelou dificuldades. A utilização do efluente tratado não envolve apenas a existência de tecnologia para tratar a água. Há questões institucionais, regulatórias, econômicas e relacionadas à interação com os possíveis usuários. Foi a partir dessas dificuldades que surgiu a avaliação de que seria necessário elaborar um planejamento mais amplo antes de expandir os projetos.

O estado possui mais de 300 estações de tratamento de esgoto, segundo informações apresentadas durante o lançamento. Muitas delas estão próximas de áreas agrícolas, industriais ou urbanas que podem ter demanda pelo recurso. Isso abre possibilidades diferentes de acordo com as características de cada região. Na agricultura, por exemplo, a água de reúso pode ser uma alternativa em períodos de seca ou em locais onde há conflitos pelo uso da água.

Já na indústria, a água pode ser empregada em determinadas etapas dos processos produtivos. O material apresentado pela Copasa cita polos industriais próximos às estações de tratamento, como os de Montes Claros e Betim, como possíveis áreas de interesse. Também existe a possibilidade de uso por mineradoras e por serviços públicos.

O avanço do reúso também esbarra em uma mudança na forma como a água é tratada depois de utilizada. Em vez de considerar o recurso utilizado e tratado como algo que necessariamente encerra seu ciclo ao retornar para a natureza, a proposta é criar novas possibilidades de utilização antes ou em paralelo a esse retorno.

"Estamos convivendo com mais eventos de escassez, com mais eventos extremos", explicou Karoline. Segundo ela, o aumento populacional e a maior pressão sobre os recursos hídricos também podem ampliar os conflitos entre diferentes usuários.

Custos

Um dos pontos que ainda precisam ser definidos é a forma de financiamento das operações. O reúso envolve custos que vão desde o tratamento adicional até a infraestrutura necessária para transportar a água até o usuário.

A própria companhia reconhece que não existe, neste momento, um único modelo para essa cobrança.

Isso abre uma discussão sobre quem deverá arcar com os custos. Uma das possibilidades é a criação de uma tarifa específica para o usuário que adquirir a água de reúso. Outra é a divisão de determinados custos, dependendo das características de cada projeto.

A definição deverá considerar, caso a caso, aspectos como o interesse ambiental da iniciativa, os investimentos necessários e a atividade que utilizará o recurso. O plano deverá servir de base para definir como esses custos serão distribuídos em cada projeto.

Aceitação

Além da tecnologia e do dinheiro, existe outro obstáculo menos visível: a percepção de quem vai utilizar a água.

A associação entre esgoto e água de reúso pode gerar resistência, mesmo quando o recurso passa por tratamento e controle de qualidade.

Segundo Karoline, o efluente destinado ao reúso passa por controle de qualidade e monitoramento, e o tratamento é definido de acordo com a utilização pretendida.

Por isso, a companhia pretende aproximar possíveis consumidores da discussão e apresentar as tecnologias envolvidas. O objetivo é mostrar que água de reúso não significa simplesmente utilizar esgoto sem tratamento. Trata-se de um recurso que passa por processos específicos para atingir padrões compatíveis com o uso previsto.

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A estratégia também envolve uma mudança de comportamento. Para que o modelo se torne uma alternativa efetiva, não basta que uma empresa de saneamento tenha capacidade de produzir água tratada. É necessário que indústrias, produtores rurais, prefeituras e outros possíveis usuários estejam dispostos a incorporá-la às suas atividades.

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