MOBILIZAÇÃO NACIONAL

Campanha coleta DNA de parentes de desaparecidos

Material genético de pais, filhos e irmãos pode auxiliar na localização de familiares. Líder na alta de sumiços em 2025, Minas oferece o serviço gratuito em 62 municípios

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Entrada do IML em Belo Horizonte, um dos pontos de coleta em minas gerais: campanha vai até amanhã em todo o país
Entrada do IML em Belo Horizonte, um dos pontos de coleta em minas gerais: campanha vai até amanhã em todo o país Edésio Ferreira/EM/D.A Press


Postos instalados em 62 cidades mineiras, entre elas a capital, integram esforço nacional para coletar material genético de familiares para ajudar a encontrar pessoas desaparecidas em todo o país. Em 2025, o total de sumiços oficialmente registrados chegou a quase 85 mil no Brasil, com um terço deles envolvendo crianças e adolescentes, apontam dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).

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Em Minas Gerais, unidade da Federação com maior alta de casos entre 2024 e 2025, o total chegou a 9.123 no ano passado, enquanto os casos solucionados somaram 6.643. Neste ano, até 12 de agosto, foram notificados 2.836 desaparecimentos, 574 deles de menores, que representam 20,24% do total, apontam dados da Polícia Civil (veja quadro).


Iniciada na segunda-feira, a Mobilização Nacional da Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas, promovida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), com o apoio dos institutos de perícia federal e estadual, vai até amanhã (28/8) em 342 postos de coleta em todas as unidades da Federação. Em Minas Gerais, a iniciativa conta com a parceria da Polícia Civil, que desde 2019 atua nesse tipo de coleta.


Foram instalados postos de coleta em Belo Horizonte e em outras 61 cidades do interior do estado, com o serviço oferecido em unidades do Instituto Médico-Legal (IML) e de perícias, delegacias regionais de polícia, ambulatórios, postos médicos e até em um cemitério, localizado em Guaxupé, no Sul de Minas. Na capital, a coleta de DNA de familiares de pessoas desaparecidas é feita no Instituto Médico-Legal Dr. André Roquette (IMLA), na Rua Nícias Continentino, 1.291, no Bairro da Gameleira.


A organização da campanha lembra que a doação do material genético com intuito de ajudar na localização de indivíduos desaparecidos pode ser feita a qualquer momento, em laboratórios ou institutos de perícia aptos a coletarem o material genético, e independentemente do tempo que a pessoa procurada estiver sumida.


De acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, a campanha visa incentivar os parentes de pessoas desaparecidas a doarem amostras de material genético (DNA) que possam ajudar na identificação e localização de pessoas declaradas desaparecidas. Quem já doou o material anteriormente não precisa repetir o procedimento.


O material genético fornecido será comparado com perfis armazenados nos sistemas de dados estaduais e no Banco Nacional de Perfis Genéticos. O cruzamento dessas informações com perfis de pessoas falecidas não identificadas ou vivas com identidade desconhecida pode contribuir para a identificação dos desaparecidos. O Ministério da Justiça e Segurança Pública destaca que o engajamento dos familiares é fundamental para ampliar as possibilidades de identificação e contribuir para a elucidação de casos de desaparecimento ainda sem resposta.

REDE NO ESTADO

Em Minas Gerais, o serviço é desenvolvido pela Polícia Civil, por meio das divisões de Referência da Pessoa Desaparecida (DRPD) e Técnico-Científica da Superintendência de Polícia Técnico-Científica (SPTC). O trabalho no Instituto de Identificação teve início em 2014, mas os “matches” começaram em 2019, por meio do projeto de fortalecimento da Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG) a partir do processamento de mais amostras de restos mortais e de familiares.


Os interessados devem se dirigir a um dos postos de coleta portando seu documento de identificação e, se possível, uma cópia do boletim de ocorrência (BO) do desaparecimento ou informações a respeito do BO, como número do registro, delegacia, estado onde foi feito, entre outras.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública recomenda que a doação de material para a coleta de DNA seja feita por parentes de primeiro grau da pessoa desaparecida. A orientação é que deve ser seguida seguinte ordem de preferência: pai ou mãe biológicos; filhos biológicos e o outro genitor, e, por fim, irmãos biológicos – filhos do mesmo pai e da mesma mãe, sendo recomendável, nesse último caso, a coleta de, no mínimo, dois irmãos.


Crianças também podem doar material genético, desde que acompanhadas pelo responsável legal. A doação pode ser feita em qualquer ponto de coleta oficial, independentemente da região onde a pessoa tenha desaparecido. O procedimento é simples, podendo ser feito de duas formas: passando um cotonete no interior da boca do doador ou colhendo uma gota de seu sangue, tirada de seu dedo.


O material genético coletado só pode ser usado com o propósito de identificar pessoas desaparecidas. O DNA dos familiares é comparado com o de pessoas não identificadas (vivas ou falecidas) cadastrado nos bancos de DNA. Se o resultado apontar o parentesco, peritos elaborarão um laudo oficial, que será encaminhado à delegacia responsável pelo caso, cuja equipe entrará em contato com a família.

COMO COLETAR

Conforme a Polícia Civil, em Belo Horizonte, os familiares dos desaparecidos interessados na coleta do material biológico deverão procurar primeiramente a Delegacia Regional de Pessoas Desaparecidas (DRPD), na Avenida Brasil, 464, Bairro Santa Efigênia, para a emissão da requisição pericial. É necessário apresentar documento de identificação e o Registro de Evento de Defesa Social (Reds) referente ao desaparecimento.


Após a emissão da requisição, os familiares serão direcionados ao Instituto Médico-Legal Dr. André Roquette (IMLAR), onde será realizada a coleta do material biológico, de segunda a sexta, das 8h às 18h. Nas cidades do interior do estado, os familiares dos desaparecidos deverão procurar, primeiramente, a Delegacia Regional de Polícia Civil responsável pelo município para a emissão da requisição pericial. Posteriormente, serão encaminhados ao Posto Médico-Legal, onde será realizada a coleta, também das 8h às 18h. É necessário apresentar documento de identificação e o Reds referente ao desaparecimento.


No IML, além da coleta de material biológico do familiar, podem ser apresentados objetos de uso pessoal do desaparecido que possam conter material genético, como barbeadores, escovas de dente, bonés, roupas usadas e que não tenham sido lavadas, escovas de cabelo ou pentes de uso exclusivo da pessoa desaparecida, entre outros. A preferência para a coleta segue a mesma ordem de parentesco informada pelo Ministério da Justiça.


ESCALADA EM MINAS

Com alta de 30,5%, Minas Gerais é o estado com o maior crescimento no número de registros de pessoas desaparecidas entre 2024 e 2025, apontam dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados no final de julho deste ano pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foram 9.123 casos levados ao conhecimento das autoridades de segurança em 2025 contra 6.970 no ano anterior. Desses desaparecidos, 6.643 foram localizados ano passado e 5.373 em 2024.


Na sequência, as maiores altas no mesmo período foram registradas no Maranhão e no Piauí, embora os números absolutos dos dois estados sejam consideravelmente abaixo da média nacional, que é de 3.139. No Maranhão, foram 910 registros em 2024, contra 1.182 no ano passado, o que representa uma elevação de 29,8%, enquanto no Piauí a alta foi de 20,5%, com os números subindo de 616 para 744 no mesmo período.


Nos dois estados do Nordeste brasileiro os sumiços apontam para uma causa comum, o que não ocorre em Minas. Segundo o relatório publicado no Anuário, ainda que não se possa atestar uma relação direta, uma intensa disputa territorial pelo controle do tráfico de drogas pode explicar a escalada de desaparecimentos no Maranhão e Piauí.


Em Minas, ainda segundo o relatório, não haveria esse tipo de disputa e, embora o avanço dos registros seja evidente, a falta de uma causa única para esse aumento abrupto exige um esforço investigativo multissetorial. “Esse diagnóstico demanda uma articulação integrada entre as forças de segurança para estruturar uma rede capaz de mapear as vulnerabilidades regionais que alimentam tais números e propiciam grandes oscilações em seus registros em um curto espaço de tempo. Sem tais averiguações, não se pode afirmar que esses casos possuem relação com outros tipos criminais”, destaca um trecho do documento.

SUMIÇO DE MENORES

Os índices de desaparecimento de crianças e adolescentes acendem o alerta para pais e responsáveis. Quase três em cada dez casos de sumiço de pessoas registrados no Brasil em 2025 envolveram esse grupo, revelam dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Conforme o levantamento, das 84.760 ocorrências de desaparecimento no ano, 23.919 (28%) envolveram vítimas com menos de 18 anos de idade. Em média, as delegacias de polícia de todo o país registraram, diariamente, 66 boletins de ocorrência sobre o sumiço de crianças e adolescentes.


O Sinesp aponta ainda alta de 8% no desaparecimento de crianças e adolescentes no ano passado em comparação aos 22.092 notificados às polícias civis do país em 2024. O percentual foi duas vezes superior aos 4% de aumento dos casos gerais, que saltaram de 81.406 para 84.760 no mesmo período.


Comparado às 27.730 ocorrências de 2019, ano em que a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas entrou em vigor, o total de casos em 2025 foi quase 14% inferior, mas manteve a curva de crescimento gradual iniciada em 2023 (20.445 denúncias).


Outro fato que chamou a atenção foi que, enquanto os homens representam 64% do total de pessoas desaparecidas, entre o público infantojuvenil, a maioria (62%) das ocorrências envolve meninas. Desde 2019, a legislação brasileira reconhece como desaparecido qualquer “ser humano cujo paradeiro é desconhecido, não importando a causa de seu desaparecimento, até que sua recuperação e identificação tenham sido confirmadas por vias físicas ou científicas”. (Colaborou Mariana Costa) 

Casos solucionados

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Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) registram a localização de 61.305 pessoas que constavam em bancos de desaparecidos em 2025, contra 59.889 em 2024. Em Minas, os números passaram de 5.373 para 6.643 no mesmo intervalo de comparação. Relatório sobre o tema, entretanto, avalia que pode haver subnotificação de casos solucionados, devido à ausência de comunicação por parte de familiares quando a pessoa desaparecida é localizada por outros meios que não a polícia. Nesses casos, o registro inicial permanece ativo nas bases de dados.

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