O Brasil na carroceria: país tem desafio de abrir caminho para cargas
Especialistas sugerem longo (mas necessário) roteiro para reduzir riscos e aumentar eficiência no transporte de produtos. ANTT afirma monitorar e cobrar ações
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As dificuldades enfrentadas na área de logística e do transporte de cargas pelo meio rodoviário no Brasil, entre elas desastres, roubos e saques de produtos, além de falhas na estrutura viária, são desafios para a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que afirma acompanhar a segurança viária e a prevenção de sinistros como “prioridades permanentes”. Por outro lado, especialistas apontam ações para enfrentar obstáculos e gargalos na movimentação de mercadorias no país, incluindo intervenções e melhorias na malha rodoviária e a concessão de estradas para a iniciativa privada. Sugerem ainda a ampliação dos investimentos no modal ferroviário, para “retirar o peso das rodovias”.
Os desafios na logística do setor que movimenta 65% das riquezas nacionais são abordados ao longo da série “Cargas de risco”, publicada pelo Estado de Minas. A apuração mostra que o transporte de cargas, fundamental para o escoamento da maior parte da produção do país para portos, armazéns e pontos do comércio e da indústria, enfrenta trechos rodoviários perigosos, com elevados índices de acidentes fatais. Levantamento exclusivo revelou que mais de 44% das mortes em rodovias federais do país nos últimos três anos e meio tiveram envolvimento de veículos pesados de transporte.
Além das perdas irreparáveis de vidas, os sinistros nas rodovias federais brasileiras, em efeito cascata, afetam toda a cadeia produtiva. Os acidentes registrados nas rodovias federais brasileiras geraram, em 2025, custo estimado de R$ 16,82 bilhões, segundo levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT), com base em dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Desse total, aproximadamente R$ 6,36 bilhões estão relacionados a acidentes com mortes, R$ 9,98 bilhões a acidentes com vítimas e R$ 480,5 milhões a ocorrências sem vítimas. Embora não exista uma estimativa específica para o transporte rodoviário de cargas dentro desse montante, os impactos para o setor são significativos, considerando o volume transportado pelo modal rodoviário.
Procurada pela equipe de reportagem do EM, a ANTT informou que atua na prevenção de acidentes no transporte, por meio do Programa Vias Seguras, instituído em 2022, que reúne ações destinadas à elevação dos padrões de segurança nas rodovias e ferrovias federais concedidas e nos serviços de transporte terrestre de passageiros e cargas. O programa, segundo a agência, contempla iniciativas de engenharia, fiscalização, educação, monitoramento e articulação institucional voltadas à redução de mortes e lesões no trânsito.
“A atuação da ANTT envolve fiscalização técnica e operacional, acompanhamento das condições do pavimento, da sinalização e dos dispositivos de segurança, análise de dados de sinistros, verificação do desempenho das concessionárias e determinação de medidas corretivas quando identificadas não conformidades”, destaca o órgão do governo federal.
A agência sustenta que fiscaliza e exige a adoção de uma série de medidas para garantir a segurança nas rodovias concedidas, entre as quais a recuperação e manutenção do pavimento; implantação e conservação da sinalização horizontal e vertical; duplicação de trechos e implantação de faixas adicionais; correção de curvas e de outros pontos com risco operacional; implantação de barreiras de proteção, defensas metálicas e dispositivos de contenção; construção de passarelas, vias marginais, acessos e dispositivos em desnível. Afirma ainda que cobra aspectos como melhorias na drenagem e na iluminação; implantação de áreas de escape; instalação de pontos de parada e descanso para motoristas profissionais e monitoramento por câmeras.
Focos de atenção
Para reduzir os riscos de acidentes com veículos de cargas, é preciso distinguir as medidas entre intervenções de engenharia (modificação física da via), operacionais (gestão do tráfego) e intervenções comportamentais/tecnológicas (com foco no condutor e no veículo). A avaliação é do professor e pesquisador Narciso Ferreira dos Santos Neto, doutor em engenharia de transportes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Observatório dos Transportes de Minas Gerais, da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).
Com base em boas práticas internacionais e na realidade brasileira, o especialista sugere como uma das intervenções fundamentais de engenharia a duplicação de corredores críticos com separador físico. “Trata-se da medida de maior impacto na redução de colisões frontais, que são as de maior letalidade. A separação física central elimina o choque cruzado, que responde por parcela significativa das mortes em pista simples”, explica.
Outra sugestão apresentada pelo pesquisador é a criação da terceira faixa em todos os trechos de aclive e declive em estradas de pista simples. “A faixa de veículo lento permite que caminhões subam sem impedir o fluxo de veículos mais rápidos, reduzindo o diferencial de velocidade e as tentativas de ultrapassagem em trechos proibitivos”, observa.
Melhorar curvas para salvar vidas
O professor Narciso Ferreira dos Santos Neto sugere também adequações em curvas críticas. “Intervenções como ampliação do raio de curvatura, correção da inclinação transversal e alargamento da plataforma em curvas reduzem o risco de tombamento. Em serras, a instalação de áreas de escape para caminhões — leitos de frenagem com agregado de baixo coeficiente de atrito ou sistemas de parada por gravidade — é uma medida salvadora de vidas”, relata.
A instalação de barreiras de contenção dimensionadas para veículos pesados constitui outra proposta do especialista da Unimontes para frear os acidentes no transporte de cargas. “As defensas metálicas convencionais no Brasil são projetadas para veículos leves. Em trechos com fluxo significativo de caminhões, é necessário instalar barreiras de alto desempenho, capazes de redirecionar um veículo de mais de 30 toneladas sem ruptura”, descreve.
Entre as intervenções operacionais e de gestão de tráfego, o coordenador do Observatório dos Transportes sugere a implantação de sinalização preventiva e dinâmica, com placas de advertência antecipada (com distâncias visuais adequadas), sinalização luminosa de LED em curvas críticas e painéis de mensagem variável para alertar sobre condições em tempo real (neblina, obra, acidente à frente). Entre as intervenções tecnológicas e comportamentais, o pesquisador reforça a necessidade de fiscalização eletrônica de velocidade e do monitoramento digital de frotas.
Na mesma linha, o professor Ronderson Queiroz Hilário, doutor em geotecnia, do Departamento de Engenharia de Transportes e Geotecnia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que uma das estratégias para reduzir os acidentes com veículos de cargas é a manutenção constante das rodovias que têm grande tráfego de caminhões e carretas. “Se a via tem fluxo mais intenso de veículos pesados, o ideal é melhorar a geometria, reduzindo o número de curvas excessivas”, destaca o especialista, reforçando que também é necessário duplicar trechos rodoviários para reduzir acidentes.
O professor da UFMG afirma que os condutores também podem contribuir para a redução dos acidentes com veículos de carga, obedecendo à sinalização e respeitando os limites de velocidade, além de cuidarem bem da manutenção dos caminhões e carretas. Salienta ainda que novas tecnologias implementadas nos veículos de carga, como sensores, frenagem automática, detecção de ponto cego e monitoramento de fadiga, são essenciais na prevenção de acidentes.
Diversificar o transporte
O professor e pesquisador em trânsito Narciso Ferreira Neto ressalta que a concentração do transporte de cargas por meio rodoviário em um país de dimensão continental como o Brasil dificulta a logística no país, que tem 65% desses deslocamentos feitos por estradas, enquanto em países desenvolvidos esse percentual varia de 30% a 45%. A reversão desse cenário exige ações como reequilibrar a matriz de transportes, investindo em ferrovias e navegação.
De acordo com o especialista, outras medidas são necessárias. Entre elas, ele lista mudar o regime de conservação rodoviária, estabelecendo metas de segurança e não apenas de fluidez; incorporar auditoria de segurança viária obrigatória em projetos e concessões, com enfrentamento dos mais de 2 mil pontos críticos mapeados pela CNT; implementar fiscalização inteligente com radares por classe de veículo, tacógrafo digital e gestão obrigatória de fadiga; investir na formalização dos condutores, já que não efetivos se envolvem em 130% mais acidentes; renovar a frota de veículos de carga (cuja idade média é de 18 anos); e aprovar um plano nacional de logística integrado com metas de 10, 15 e 20 anos.
Narciso Ferreira Santos chama atenção para a importância financeira dos investimentos. Ele lembra que os sinistros do transporte custaram ao país R$ 12,82 bilhões, despesa que poderia ter sido amenizada com investimentos em prevenção de acidentes e melhoria da infraestrutura de transportes. Ressalta ainda que cada real investido em segurança no trânsito representa entre R$ 3 e R$ 8 de economia nos gastos com saúde e despesas das vítimas, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. “A questão não é saber se o país pode investir na segurança no trânsito e na melhoria da logística, mas se pode continuar arcando com os custos da inação”, pondera o doutor em engenharia de transportes.
R$ 44,3 bilhões em concessões
Quatro trechos de rodovias federais que cortam Minas Gerais entraram em processo de concessão para a iniciativa privada nos últimos quatro anos, com previsão de receber investimentos totais de R$ 44,3 bilhões em um período de 30 anos, conforme dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). A concessão para o setor privado gera expectativa de viabilizar intervenções importantes, como a duplicação de pistas, e reduzir acidentes.
Uma das estradas transferidas para a iniciativa privada em Minas é a BR-381, que amarga o apelido de “Rodovia da Morte” no trecho de 303,4 quilômetros entre Belo Horizonte e Governador Valadares, no Vale do Rio Doce. A concessionária Nova 381 iniciou a operação em 6 de fevereiro de 2025. De acordo com a ANTT, estão previstos aproximadamente R$ 10 bilhões em investimentos, operação e manutenção ao longo dos 30 anos de concessão.
Outra concessão efetivada é a da Rota das Gerais, que compreende 734,9 quilômetros das BRs 251 e 116. O projeto abrange toda a BR-251 em Minas (340 quilômetros entre Montes Claros e o entroncamento com a BR-116, no município de Divisa Alegre) e 394,9 quilômetros da BR-116, de Governador Valadares até a divisa com a Bahia.
O contrato com a concessionária Ecovias das Gerais foi assinado em 3 de junho de 2026. As atividades iniciais em campo e o “Plano de 100 Dias” começaram em 3 de julho de 2026, com serviços emergenciais de conservação, manutenção e recuperação da infraestrutura. Conforme a ANTT, a concessão prevê aproximadamente R$ 13,16 bilhões em investimentos ao longo de 30 anos, sendo cerca de R$ 7,3 bilhões destinados a obras eR$ 5,8 bilhões à operação e à manutenção do sistema rodoviário.
Foi transferido ainda para a iniciativa privada o trecho sul da BR-116, entre Governador Valadares e a divisa com o Rio de Janeiro, de 409,6 quilômetros, administrado pela empresa Ecovias Rio de Janeiro desde 22 de setembro de 2022. O contrato prevê a concessão do total de 726,9 quilômetros, abrangendo mais 317,3 quilômetros no estado vizinho.
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Segundo a ANTT, em todo o trecho sul da BR-116, entre Governador Valadares e o Rio de Janeiro, estão previstos investimentos de R$ 11,295 bilhões em melhoria da infraestrutura viária e R$ 9,859 bilhões em custos de operação ao longo do contrato.