Racismo religioso: suposto pastor estava em surto, diz defesa
Advogada de Wagner Otoni, preso por ofender membros de um terreiro de umbanda em Lagoa Santa, alega que homem tem problemas mentais
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“Ele disse que quem estava pegando a guia era Jesus Cristo”, relatou Patrícia Guimarães, advogada de defesa de Wagner Otoni Carvalho, de 63 anos. O homem foi preso em 26 de junho, acusado de racismo religioso, após interromper uma celebração no Templo Umbanda Cabana Pedra Branca, em Lagoa Santa, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Na ocasião, ele teria tentado arrancar uma guia do pescoço de Bernardo Victor, que participava dos atendimentos, pregado o evangelho cristão e proferido ofensas à crença de matriz africana.
Wagner foi preso em flagrante e permanece detido no presídio de Vespasiano, também na Grande BH.
Diferente da versão dada pelas testemunhas, a advogada afirmou que o homem havia sido convidado por uma mulher a ir ao local naquela noite, mas ao chegar lá, não concordou com o que viu. “A gente não vislumbra essa questão da agressão, foi só a intolerância religiosa mesmo. Sabemos que ele não poderia entrar para pregar pois deveria respeitar o terreiro, mas não estamos falando de uma pessoa em sã consciência”, explicou.
O idoso é casado e possui um casal de filhos, segundo Patrícia. A esposa relatou para a advogada que em 1980 o investigado foi diagnosticado com transtorno bipolar, passou por internações psiquiátricas em locais como o Hospital Espírita André Luiz, no Bairro Cinquentenário, Região Oeste de BH, e que atualmente faz o uso de 11 medicamentos para tratar a condição.
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“Nos últimos seis meses ele demonstrou resistência ao medicamento, enfatizando que estava tendo uma visão de Jesus e que Cristo está passando uma mensagem para ele”, explicou a defensora. “Esse é o discurso dele o tempo todo, em casa, na delegacia… que Jesus Cristo é o Salvador.”
As vítimas apontam Wagner como pastor, porém, ele não possui uma igreja e os folhetos contendo uma mensagem religiosa e uma foto de si próprio são impressos por ele e entregues rotineiramente pela cidade.
Patrícia Guimarães afirmou que o caso está sendo analisado pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e que a família espera que ele seja libertado nos próximos dias para receber o tratamento psiquiátrico adequado. Caso contrário, a advogada diz que recorrerão da decisão.
Relembre o caso
Segundo Erlon Câmara, dirigente do terreiro de umbanda, em 26 de junho, o homem entrou entregando panfletos, dizendo que as pessoas estavam com “o demônio no corpo” e iriam para o inferno, e tentando arrancar a guia – colar que, de acordo com a crença, simboliza proteção – do pescoço de um dos membros do terreiro.
Elon conta que naquela noite havia cerca de 300 pessoas reunidas para os atendimentos gratuitos, que são realizados toda sexta-feira à noite, quando Wagner entrou na casa “abordando as pessoas com panfletos e dizendo que aquilo não era de Deus”. O pai de santo disse ainda que, no momento, integrantes da casa, inclusive ele, estavam incorporados, o que gerou um grande constrangimento.
Geiza Francielle Rodrigues de Sousa e Ana Luiza Barbosa Rodrigues participavam da reunião e alegam ter ouvido do homem que elas "iriam morrer" e que seus rostos "iriam arder no inferno". Depois de ser retirado do imóvel pelos frequentadores, ele continuou na calçada, impedindo que pessoas entrassem ou saíssem e entrou em veículos de pessoas.
Wagner Carvalho já havia ido ao terreiro algumas vezes, de acordo com o líder do terreiro. “Já veio entregar folhetos e ficar do lado de fora, mas nunca tinha sido agressivo”, afirmou.
“Tivemos que convencer a polícia de que se tratava de um crime”, desabafou Erlon. Ele criticou a conduta da Polícia Militar, que foi acionada, e ao chegar no local afirmou não entender qual crime estava sendo cometido. Uma integrante da casa, advogada, precisou ler o artigo 20, da Lei nº 7.716/89, que tipifica o crime de praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou nacionalidade, para convencê-los a dar voz de prisão ao invasor.
O líder umbandista relatou ainda que as vítimas tiveram dificuldade para prestar depoimentos e garantir a prisão do infrator. “Três filhos (membros do terreiro) precisaram dormir na porta da delegacia e foram liberados quase às 14h do dia seguinte.”
Segundo a PM, mesmo na delegacia, o investigado continuou ofendendo a crença dos umbandistas e ameaçou arrancar novamente a guia de Bernardo Victor, que posteriormente fez um pedido de medida cautelar à Justiça.
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Regina Werneck