Mercado Municipal de Montes Claros ganha reforma e nova fachada
Centro de compras vai replicar em uma de suas fachadas a entrada do primeiro mercado da cidade-polo do Norte de Minas
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O Mercado Municipal de Montes Claros é parada obrigatória na cidade-polo do Norte de Minas, onde são encontrados o pequi, a carne de sol, peças de artesanato, “farinha de Morro Alto”, requeijão, “cachaça de Salinas” e outros famosos produtos típicos da região. O famoso espaço passará por reforma, que provocará mudança arquitetônica. Na entrada principal, será construída uma nova fachada, com réplica do mais antigo Mercado Municipal da cidade, construído no final do Século 19 e demolido na década de 1960.
De acordo com a prefeitura, a proposta é consolidar o local como ponto de visitação turística, tais como os mercados municipais de Diamantina, Salvador e Florianópolis, mantendo a venda de frutas e verduras e outros produtos regionais.
A reforma do Mercado Municipal faz parte do pacote de obras denominado “Programa Montesclarear”, no valor de R$ 1 bilhão, lançado pelo prefeito Guilherme Guimarães (União Brasil). Dele fazem parte diversas iniciativas a serem realizadas pela gestão municipal em infraestrutura, lazer, saúde, segurança, educação, turismo, esportes, cultura e mobilidade urbana, entre outras.
A intervenção no mercado está orçada em R$ 8 milhões e será custeada com recursos de emendas parlamentares. “O local será renovado para se transformar em um ambiente moderno e acessível, mantendo suas características essenciais”, divulgou a gestão municipal.
O prefeito Guilherme Guimarães disse que o projeto prevê a construção de um largo em frente à entrada principal do mercado, virada para a Rua Marechal Deodoro, no Centro. Do mesmo lado do prédio será erguida a fachada do antigo mercado, que ficava na Praça Doutor Carlos, a mais central da cidade.
“Vamos fazer uma grande requalificação, uma reestilização da entrada do mercado pela Rua Marechal Deodoro. Ela vai ficar muito bonita. Vai parecer muito com a entrada do antigo mercado da Praça Doutor Carlos. Teremos um mercado estilizado, com espaços de cultura, uma área para eventos e, sobretudo, integrando tudo aquilo”, declarou o prefeito.
“O mercado é, de fato, um espaço onde as pessoas se encontram. É um espaço onde as pessoas prosperam, onde está o pequeno produtor, onde todos os turistas querem conhecer”, complementou.
O chefe do Executivo disse ainda que o mercado terá em sua entrada “um centro de apoio ao turista”. Também receberá um largo do lado contrário à entrada, junto à Avenida Deputado Esteves Rodrigues, conhecida como Avenida Sanitária, onde passa o Rio Vieiras, que foi canalizado.
Guimarães disse que haverá ainda “um grande largo para integrar o Centro à Vila Brasília”, que fica do outro lado da Avenida Sanitária e do canal do Rio Vieiras. Mas, ele não esclareceu se será construída uma nova ponte ou uma passarela no local.
O atual Mercado Municipal de Montes Claros, o terceiro da cidade, foi construído e inaugurado na primeira gestão do ex-prefeito Luiz Tadeu Leite, em 1988. Na ocasião, houve resistência de parte dos comerciantes e feirantes do segundo mercado (situado na Rua Coronel Joaquim Costa) para se transferir para o então “novo” prédio, com o receio de perder fregueses.
Na mesma ocasião, surgiram boatos na cidade, alimentados pela oposição ao então prefeito, que ele construiu o mercado próximo à residência do ex-prefeito Antonio Lafetá Rebello – o Toninho Rebello –, já falecido, para criar incômodo no adversário político, intenção negada pelo ex-gestor. No entanto, os imóveis nas proximidades do “novo” mercado foram altamente valorizados.
Principais atrativos
Com 11 mil metros quadrados de área construída, o atual Mercado Municipal tem uma ala dedicada aos açougues, onde pode-se adquirir a famosa “carne de sol de Montes Claros”. O recomendável é adquirir o produto embalado a vácuo, para facilitar o transporte. Outro setor famoso é o dos quiosques, onde são encontrados outros produtos típicos do Norte de Minas, como cachaça, farinha, requeijão, queijo e doces – de leite, casca de laranja, mamão e marmelo, entre outros – feitos de forma artesanal.
O pequi “in natura” é encontrado fartamente no centro de compras montes-clarense no período de safra, que vai de dezembro a fevereiro. Fora da safra, o fruto símbolo do cerrado pode ser adquirido no espaço, mas em conserva.
No local também é possível comprar peças de artesanato e remédios caseiros, além de frutas, verduras e flores. Também há espaço para os botecos.
O secretário municipal de Aceleração Econômica, Glenn Andrade, afirma que, ao reformar o equipamento público, a atual gestão municipal reconhece o mercado como “um centro histórico, econômico e multicultural de grande valor, não somente para a nossa população, mas para todos que ali frequentam, inclusive estrangeiros”.
“A revitalização do mercado vai garantir a valorização dos nossos produtos e mais dignidade, segurança e conforto a todos. Estamos certos de que a partir da revitalização do nosso mercado estaremos também estimulando a expansão e melhorias das atividades comerciais e de serviços de todo o seu entorno”, opina o secretário.
Muita história
O antigo Mercado Municipal de Montes Claros, que terá a sua fachada “reconstituída” no atual mercado da cidade, foi inaugurado em 3 de setembro de 1899, tendo sido projetado pelo engenheiro Frederico Gambra. O antigo prédio foi demolido em 1967, na primeira gestão do ex-prefeito Antonio Lafetá Rebello (1918/1992).
A imponente construção era localizada na Praça Doutor Carlos, onde hoje está situado o Shopping Popular da cidade. Por mais de 30 anos, após a demolição do antigo prédio, o espaço foi usado como um estacionamento, denominado “Cimentão”. Também foi aproveitado para eventos públicos, comícios e outras manifestações.
O aspecto da edificação do antigo mercado foi descrito em texto escrito pelo arquiteto João Carlos Sobreira, falecido em 14 de fevereiro de 2024. “O prédio do Mercado Municipal era do Século 19, estruturado com esteios de aroeira e pé direito muito alto. Na sua fachada destacavam-se as portas altíssimas e a torre do relógio. Ele tinha um sino que badalava duas vezes a cada hora e era ouvido em quase toda a cidade”, registrou ele.
A história do velho mercado também é narrada pelo escritor e historiador Wanderlino Arruda. Segundo ele, a imponente construção foi inaugurada em 2 de setembro de 1899 e ficou conhecido como o “Mercado da Praça Doutor Carlos”. A planta da construção foi feita pelo engenheiro Frederico Gambra. A execução da obra teve como responsável o empreiteiro João Fróes, que optou por não construir os alicerces previstos no projeto de engenharia e usou estrutura de esteios de aroeira. O relógio do mercado foi doado por “dona” Carlota Versiani.
Arruda afirma ainda que o ex-prefeito Antonio Lafetá Rebello decidiu demolir o antigo mercado em 1967 porque o prédio apresentava problemas estruturais devido à ação do tempo.
O historiador abordou o cotidiano do antigo centro de compras na crônica “Saudades do Mercadão”, publicada no livro “Montes-claridades”. “Celeiro de vida movimentada, o Mercado começava o barulho a partir das cinco da manhã, quando cavalos, burros, bestas e jegues de carga, resfolegando, eram amarrados nas árvores, nas argolas e nos mourões a eles destinados pela Prefeitura. As bruacas, os embornais, os jacás eram carregados calmamente para as laterais do lado de fora e do lado de dentro, cada um julgando-se dono do lugar, pela tradição ou simplesmente porque havia chegado primeiro’, descreve o escritor.
“Fila não existia, quando muito uma carreira no chão, formando montinhos de maxixes, de panãs, de pequis, saquinhos de andu, de feijão de rama, de arroz com casca, de remédios, ou montões de raízes de mandioca, de batatas, de melancias, de abóboras de porco ou morangas. Era um colorido de fazer gosto, onde eram incluídas as laranjas, os bacuparis, as tangerinas, os limões verde-amarelinhos, as pimentas-de-cheiro”, relata Arruda.
Em sua crônica, o historiador prossegue: “Do lado de dentro, principalmente nas portas da (Rua) Coronel Antônio do Anjos e da (Rua) Rui Barbosa, os vendedores de carne, com varais e mesas engorduradas, cheias de panos de toucinho, de tripas, de sebo e de fressuras. A carne de sol e mesmo a carne fresca eram penduradas nos ganchos como o mais natural dos mostruários. No chão, os ossos grandalhões, as cabeças, os entrecostos, os mocotós, as rabadas os miúdos vermelho-escuros”.
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“Bonitos mesmo eram os pedaços de bucho branquinhos, bem limpos, convidativos, ao lado da carne de porco e das passarinhas. De vez em quando, uma oferta de caça, uma cotia, um quarto de veado, um tatu, uma zabelê ou uma codorna. Peixe quase sempre ficava separado para não misturar os cheiros, sendo os mais bonitos os dourados e as peças de lambaris, normalmente já secos e salgados”, escreveu Arruda.