Apesar da cerimônia que marcou, simbolicamente, o “fim” do Hospital Colônia, em Barbacena, na Região Central de Minas Gerais, nesta segunda-feira (25/5), ainda existem leitos funcionando na área onde o manicômio existiu. A informação foi confirmada ao Estado de Minas na solenidade realizada para marcar a desinstitucionalização dos últimos 14 sobreviventes, que começam a ser realocados para um lar de acolhimento na zona rural da cidade.
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Os leitos ainda existentes não têm relação com os ex-pacientes que vão se mudar. Tratam-se de vagas psiquiátricas para atendimentos agudos, conforme informado pela psicóloga e presidente do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais, Lurdes Machado, que atuou no local e marcou presença na cerimônia.
A modalidade, segundo ela, refere-se a atendimentos de crise, ou seja, internações de curta duração destinadas a pacientes encaminhados pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Atualmente, o serviço funciona para estabilização clínica temporária. “Já existe a decisão política de fechar também e ser regulado nos hospitais gerais. Então, isso vai ser regulado. Barbacena vai continuar como hospital regional, mas sem nada da psiquiatria”, disse Lourdes.
Abandono no Colônia
A psicóloga conta que começou a compreender a dimensão da tragédia quando integrou equipes do Programa Nacional de Avaliação dos Hospitais Psiquiátricos (PNASH), no início dos anos 2000, período em que o país começava a revisar o modelo manicomial brasileiro. “Quando comecei a ouvir os relatos, fui percebendo que tudo o que incomodava a ordem social vinha parar aqui”, afirma. Segundo ela, pacientes de diferentes regiões de Minas eram enviados primeiro ao Hospital Raul Soares, em Belo Horizonte, e, quando não havia mais vagas, acabavam despachados para Barbacena “literalmente dentro de um trem”. “As pessoas chegavam sem nome, sem endereço, muitas sem lembrar de onde eram”, relata.
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Ela relata narra episódios extremos narrados por sobreviventes e trabalhadores da época. “Quando não tinham corpos para ceder às faculdades de medicina, colocavam pessoas nuas no frio de Barbacena para morrer de hipotermia”, afirma. De acordo com a psicóloga, os internos que restaram vivem uma realidade marcada pelas sequelas. Com exceção de um morador que consegue andar, todo o restante está acamado, em condições delicadas de saúde. Além disso, eles não possuem ligações familiares, o que explica por que não receberam outro tipo de apoio ao longo das últimas décadas.
Parte do grupo, formado por seis homens e oito mulheres, foi internada ainda criança ou adolescente, sem diagnóstico de transtorno mental, em um sistema que, durante décadas, utilizou a exclusão social como justificativa para confinamentos forçados. Os antigos pacientes estão bastante debilitados, todos idosos, na faixa dos 73 anos. O único que consegue se locomover sozinho possui os dois olhos furados e não enxerga. Segundo a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), todos continuarão recebendo acompanhamento médico, psicológico e assistência integral após a mudança.
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O fechamento da instituição foi oficializado no dia 27 de abril pelo governo estadual durante vistoria das obras finais de uma nova Unidade Básica de Saúde (UBS) no município. "Lembro quando eram 200 (sobreviventes), quando passaram para 80. E lembro quando me disseram que nenhum lugar podia receber os últimos. Mas não aceitamos que os últimos 14 saíssem daqui para o cemitério", destacou o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti.
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Centro Hospitalar Psiquiátrico seguirá aberto
Procurada, uma fonte ligada à Fhemig esclareceu que o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena seguirá funcionando normalmente, dentro dos atuais fluxos e diretrizes da Rede de Atenção Psicossocial preconizada pelo SUS. A unidade atende crises agudas e oferece atendimento ambulatorial. Não há previsão de fechamento desse serviço, referência para a macrorregião Centro-Sul do estado.
