O ano começou com baixa incidência de incêndios florestais em Minas Gerais em relação a 2025, mas houve um aumento súbito em abril, comparado ao mesmo mês do ano passado. E o risco de queimadas cresce, à medida em que o período de seca avança. No quarto mês de 2025, houve 340 ocorrências. Em abril deste ano, o estado somou 918 registros, o que representa uma alta de 170%. Desses, 42 foram em Belo Horizonte, contra 37 no mesmo mês do ano passado, um aumento de 13,5%. Aliados ao início da estiagem, os feriados prolongados são os principais fatores para a alta nos casos, o que preocupa o Corpo de Bombeiros Militar (CBMMG). Depois da semana santa, Tiradentes e Dia dos Trabalhadores, há mais um feriadão à vista, o Corpus Christi, no início de junho, que pode elevar os riscos.


Baixa umidade do ar, escassez de chuvas, com o consequente ressacamento da vegetação, descuido e até ações criminosas formam o combo das queimadas. “Estamos em uma crescente. O período de estiagem, junto com essa combinação de fatores, começa a se estabelecer de maneira mais evidente a partir de abril”, lembra o porta-voz do Corpo de Bombeiros, tenente Henrique Barcellos. Desde o início da seca, e da sequência de feriados prolongados, os militares estão de prontidão para novos incêndios – sobretudo em unidades de conservação (UCs).


“Esses períodos de feriado acabam coincidindo com o aumento de ocorrências em parques, unidades de conservação (UCs), em áreas de amortecimento, porque as pessoas buscam esses locais para fazer trilhas e ecoturismo. E, infelizmente, até de maneira inadvertida, acabam deixando para trás uma fonte de ignição, um fogareiro, uma fogueira mal apagada”, explica.


Segundo Barcellos, muitos frequentadores de parques estaduais, onde há áreas protegidas, não se atentam para cuidados como apagar as fogueiras, o que pode acarretar incêndios. Outros comportamentos, como queimar lixo, limpar lotes ou gerar um incêndio à margem de rodovias próximas às UCs também preocupam a corporação.

Eventos recentes ilustram a situação, que tende a se agravar nos próximos meses. Na noite 26 de abril, um incêndio consumiu uma área de 4 mil metros quadrados de vegetaçãoem um lote vago no Bairro Santa Luzia, em Juiz de Fora, na Zona da Mata Mineira. De acordo com o Corpo de Bombeiros, as chamas atingiram um bambuzal. No local, havia grande concentração de restos vegetais, favorecendo a propagação do fogo. Os militares usaram 15 mil litros de água para combater o incêndio, cujas causas são investigadas.


Estiagem


No acumulado do ano, o total de incêndios ainda é inferior ao de igual período do ano passado. Levantamento feito pelo CBMMG mostra que os incêndios em vegetação no estado diminuíram 46,55% no primeiro quadrimestre de 2026, quando houve 1.960 ocorrências, comparado com igual período do ano passado (3.667). Em Belo Horizonte, a redução foi ainda mais expressiva – de 155 queimadas nos quatro primeiros meses de 2025, o número caiu 65,16% neste ano, com 54 registros. O recuo, que ocorreu, de fato, até março, é atribuído pelo Corpo de Bombeiros ao período chuvoso, que teve um ponto crítico em Minas Gerais no início deste ano. Entretanto, o sinal se inverteu em abril. Em maio, que já começou com um feriadão, foram registrados, até ontem, 423 incêncios em Minas Gerais , sendo 44 na Região Metropolitana de Belo Horizonte e 21 apenas na capital do estado. No ano passado, as ocorrências somaram 1.185 em Minas nos 31 dias do quinto mês do ano, ainda segundo dados do Corpor de Bombeiros. E as previsões meteorológicas apontam para o aprofundamento da estiagem.


Previsão do tempo


De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), as previsões meteorológicas indicam que o fenômeno El Niño deve impor seus efeitos com maior intensidade no segundo semestre. A previsão é de que haja maior frequência de ondas de calor e baixa umidade na Região Sudeste. O Cemanden não fala especificamente de Minas, mas outras previsões indicam que a situação deve piorar no estado.


Com a estação seca – que vai do outono ao fim do inverno em Minas Gerais–, a previsão é de pouca chuva até o início de outubro no estado, com possibilidade apenas de pancadas fracas e rápidas em algumas regiões, aponta o meteorologista Lizando Gemiacki, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). No Triângulo Mineiro e no Sul de Minas ainda pode chover um pouco mais, mas os volumes já diminuíram bastante para esta época do ano, informa.


A umidade do ar ainda não deve atingir níveis tão baixos em maio, mas pode chegar próximo dos 30% nas horas mais quentes do dia, principalmente no fim do mês, segundo o meteorologista. O cenário tende a piorar até agosto e setembro, meses considerados mais críticos, quando os índices podem atingir entre 12% e 15%. As regiões Norte e Nordeste de Minas, incluindo áreas do Vale do Jequitinhonha, costumam registrar os menores índices de umidade antes das demais regiões do estado. Em Montes Claros, por exemplo, os índices já podem se aproximar de 30% ao longo deste mês.


Ele ainda informou que uma massa de ar frio deve provocar queda nas temperaturas no Sul de Minas e deixar o clima mais ameno na Zona da Mata. No restante do estado, a tendência é de temperaturas estáveis, com predomínio de uma massa de ar quente e seca, condição considerada comum para o período. Outra massa de ar frio pode chegar no fim do mês, mas a previsão ainda depende das próximas atualizações meteorológicas.


Secura e fumaça


Além de apresentar risco às áreas de vegetação, o aumento de queimadas acende um alerta para a saúde. De acordo com a médica pneumologista Michele Andreata, a baixa umidade compromete diretamente a defesa natural das vias aéreas, pois o ar mais seco resseca a mucosa respiratória, reduz a eficácia do muco e dos cílios que funcionam como barreira contra vírus, bactérias e partículas inaladas. Quando somado ao avanço das queimadas, o risco de agravamento dos quadros respiratórios é ampliado.


“Com o aumento das queimadas, há uma elevação significativa na concentração de poluentes no ar, como material particulado fino, monóxido de carbono e substâncias tóxicas. Esse conjunto favorece a inflamação das vias respiratórias, piora doenças pré-existentes como asma, bronquite e DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), e aumenta a incidência de infecções respiratórias, especialmente em crianças, idosos e pessoas com comorbidades. Além disso, o El Niño tende a intensificar períodos de seca, prolongando a exposição a esse ambiente desfavorável”, diz a especialista.


Andreata explica que as queimadas liberam grande quantidade de poluentes que, ao serem inalados, atingem diretamente o sistema respiratório. O material particulado fino, que vem dos incêndios florestais, mas também da emissão por veículos motores a diesel e gasolina, queima de lixo e combustíveis e indústrias, penetra profundamente nos pulmões. Essa substância consegue alcançar a corrente sanguínea e desencadear processos inflamatórios que podem levar a crises de asma, agravamento de doenças pulmonares crônicas e infecções respiratórias.


Os sintomas incluem tosse, ardor nos olhos, irritação na garganta, falta de ar e sensação de cansaço. A médica ressalta que quem deseja se proteger deve evitar a exposição direta à fumaça, manter ambientes internos fechados nos períodos de maior poluição, utilizar umidificadores ou bacias com água para amenizar o ressecamento do ar, manter boa hidratação e, quando necessário, utilizar máscaras com boa vedação, como as do tipo PFF2, especialmente para grupos de risco. Também é importante redobrar a atenção com a higiene nasal, que ajuda a remover partículas inaladas, além de manter o acompanhamento médico em caso de doenças respiratórias pré-existentes.


Emergência


Diante do cenário climático, os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) também crescem. Até a última quarta-feira (22/4), a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) contabilizou 8.247 notificações e 379 mortes no estado, sendo que BH concentra a maior parte delas (98). Ainda no dia 22, a Prefeitura de BH (PBH) anunciou a abertura de novos cinco leitos pediátricos no Hospital Odilon Behrens, no Bairro São Cristóvão, na Região Noroeste, para reforçar o combate de doenças respiratórias no período.


Os novos leitos se somam a outros cinco disponibilizados na semana anterior, reforçando a assistência das crianças no município. De acordo com a PBH, a ampliação ocorrerá gradualmente, conforme a demanda assistencial, e pode chegar a 20 leitos. O número de internações pediátricas por questões respiratórias no Odilon Behrens aumentou cerca de 53% no primeiro trimestre de 2026, comparado ao mesmo período do ano passado, saindo de 175 para 268. Já em abril, até ontem, foram 193 internações, o que põe em evidência a escalada das enfermidades.


No início do mês, o Hospital Infantil João Paulo II recebeu sete novos leitos na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), 19 de enfermaria, dois consultórios médicos de pronto atendimento e oito leitos em salas de decisão clínica. A medida responde ao crescimento da demanda que costuma ocorrer entre março e maio, época em que o hospital registra aumento médio de 47% nos atendimentos de pronto-socorro e de 40% nas internações.


A capital e outros oito municípios decretaram situação de emergência em decorrência da alta de quadros de SRAG, que começou de forma antecipada no país, segundo a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed). Além de BH, entraram em situação de emergências: Araguari, no Triângulo Mineiro; Caratinga, no Rio Doce; Contagem, Pedro Leopoldo e Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana; Diamantina, no Jequitinhonha; Montes Claros, no Norte de Minas, e Unaí, no Noroeste.


Prevenção


Para combater casos graves e internações por SRAG, o mais importante é se prevenir por meio da vacinação. Neste ano, a meta do Programa Nacional de Imunizações (PNI) é alcançar 90% de cobertura vacinal do público-alvo. Nos últimos dois anos a cobertura vacinal contra a influenza no estado ficou em torno de 60%. Minas Gerais recebeu cerca de 3,2 milhões de doses do imunizante contra a gripe, que foram distribuídas para todos os municípios. A campanha de vacinação contra a gripe conta com doses disponíveis para crianças de 6 meses a 5 anos, gestantes, idosos, mulheres no pós-parto, trabalhadores da saúde, pessoas com deficiência permanente e caminhoneiros.

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Os locais de vacinação de bebês e crianças contra a bronquiolite também foi ampliado em Belo Horizonte. Além do Centro de Referência em Imunobiológicos Especiais (CRIE), outras nove unidades de saúde passam a ser referência na vacinação. Os endereços e horários de funcionamento podem ser consultados no site da prefeitura. Desde janeiro foram aplicadas mais de 1,2 mil doses na capital. Fazem parte do grupo elegível os bebês prematuros menores de 6 meses (até 5 meses e 29 dias) que tenham recebido alta hospitalar. (Colaborou Fernanda Santiago)

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