POLUIÇÃO

Agressões ao Rio São Francisco em Minas estão se voltando contra o estado

Medições de qualidade e de contaminantes mostram que mineiros sujam mais a água que consomem e entregam o São Francisco mais puro para a Bahia, rumo ao Nordeste

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A água do Rio São Francisco que deixa Minas Gerais em direção ao Nordeste brasileiro via Bahia tem escoado do estado em melhores condições do que aquelas com que convivem os mineiros em vários pontos da bacia. Nos últimos 10 anos, a média de amostras de conceito “bom” do Índice de Qualidade da Água (IQA) na calha principal do Velho Chico em Minas não chegou à metade, ficando em 46,9%. Mas, graças a águas que fluem de outros cursos no Norte e Noroeste de Minas, o Rio da Integração Nacional conseguiu se depurar e ultrapassar a divisa com terras baianas com qualidade considerada boa em 80% das amostras da última estação de medição.

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Considerada outra classificação, o São Francisco se despediu de Minas Gerais nesses últimos dez anos com 70% de sua água com toxicidade considerada baixa e apenas 10% de carga considerada alta para produtos tóxicos. São indicativos de que maltratar a água das bacias em território mineiro é uma prática que provoca malefícios dentro do próprio estado. Problemas que vão além de conviver com mais poluição do que a da água entregue aos estados vizinhos. É o que mostra levantamento da reportagem do Estado de Minas a partir de medições de qualidade e toxicidade das águas superficiais de 2015 a 2019 e de 2020 a 2024, feitas pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam).


O que consideram as medições?

Entre os dois parâmetros, o IQA avalia se as águas superficiais apresentam concentrações adequadas de oxigênio dissolvido, Escherichia coli (bactéria intestinal presente no esgoto), pH, demanda bioquímica de oxigênio, nitratos, fosfato total, variação da temperatura, turbidez e sólidos totais. Os níveis de qualidade são medidos pelos conceitos excelente, bom, médio, ruim e muito ruim.

Já a contaminação por tóxicos – ou toxicidade – determina o nível de elementos nocivos encontrados nos corpos hídricos: nitrogênio amoniacal, arsênio, bário, cádmio, chumbo, cianetos, cobre dissolvido, cromo total, fenóis totais, mercúrio, nitrito, nitrato e zinco. As classificações são alta (pior condição), média ou baixa (melhor).

Os índices dos dois parâmetros apurados pelo Igam mostram que os rios que mais sofrem estão profundamente inseridos na dinâmica de uso interno da água em Minas Gerais que afeta sobretudo os cursos ligados ao abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Representantes do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e de seus afluentes consideram que a poluição em todo o curso seja um dos maiores desafios, ainda que a capacidade de renovação do Velho Chico seja acentuada em certos trechos, como ao sair de Minas Gerais.


Máxima pureza após a nascente

Mas não é com poluição que tudo começa. A primeira aferição em uma estação sobre as propriedades das águas do Rio São Francisco se dá em São Roque de Minas, no Centro-Oeste do estado. O posto fica apenas alguns quilômetros abaixo da Cachoeira Casca D'Anta, de 186 metros de altura, o primeiro salto depois da nascente histórica do Velho Chico, no Parque Nacional da Serra da Canastra (a nascente geográfica é a do Rio Samburá, em Medeiros).

Nessa primeira etapa, ao deixar a unidade de conservação nacional, a qualidade da água tem o máximo de pureza e o enquadramento como classe especial, ou seja, de máxima relevância para preservação e proteção contra atividades impactantes. Sem males diretos de atividades degradadoras, não é mesmo de se esperar um resultado diferente de 100% de integridade com conceito “bom” na última década de verificações da água naquele ponto.


Os primeiros contaminantes

No caminho do Velho Chico, a passagem por Formiga, também na Região Centro-Oeste, não foi completamente documentada, mas já representa impacto. Se nos últimos cinco anos todas as amostras apontavam baixa concentração de tóxicos, a qualidade da água já não se manteve em conceito bom e o IQA sucumbiu a um patamar médio.

O primeiro centro urbano que o rio corta é Iguatama, no mesmo Centro-Oeste, também com qualidade média nos últimos cinco anos. As concentrações de tóxicos eram baixas, em 80% das vezes, e médias, em 20%.

Ao passar sob a ponte da Rodovia BR-262, em Moema, na mesma região, o Rio São Francisco não teve qualquer medição de tóxicos registrada pelo Igam, mas apresentou 80% de amostras com qualidade de índice médio e apenas 20% em patamar bom.

Em Abaeté, ainda no Centro-Oeste, os níveis tóxicos dos últimos cinco anos foram baixos em 80% das vezes e médios em 20%, enquanto a qualidade boa foi constatada em 60% de testes, sendo média nos demais.

Ao passar por Pompéu, na Região Central do estado, antes de receber o Rio Pará, área de intensa exploração pela agropecuária e silvicultura, o São Francisco apresentou integridade hídrica média nas amostragens dos últimos cinco anos. Os níveis tóxicos foram baixos em 80% das medições e em 20% chegaram a índices considerados médios.


Problemas diluídos depois de Três Marias

Ao deixar a barragem de Três Marias, em São Gonçalo do Abaeté, já na Região Noroeste, no mesmo período, o nível de toxicidade foi equivalente: baixo em 80% das medições e médio em 20%. Mas a qualidade foi de níveis bons em todos os testes realizados, indicando que a represa ajuda a depurar a água.

Mesmo passando por áreas mineradoras e industriais naquele mesmo município, a qualidade não se alterou em uma segunda estação após o reservatório de Três Marias. Depois de receber as águas do Rio Abaeté e já permeando as terras baixas, praias, cascatas turísticas, o atracadouro do vapor Benjamim Guimarães e a ponte Marechal Hermes, entre Pirapora e Buritizeiro, no Norte de Minas, o rio se vê em sua melhor condição desde a primeira estação, nos últimos cinco anos, com níveis tóxicos baixos e qualidade boa nas amostras do período.


O encontro da poluição de BH e região com o Velho Chico


O veneno urbano que escoa de forma omissa para as águas do Rio São Francisco – que mata a sede de várias populações e faz girar a roda da economia em seu percurso – é implacável e degrada o Velho Chico em pontos de afluentes e de grandes manchas urbanas. E isso imediatamente se traduz em piora nos índices de qualidade da água e de toxicidade da última década, como mostram medições do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam).

O vigor que parece purificar a água do São Francisco após a represa de Três Marias, na Região Central de Minas, não vai muito adiante de Pirapora e Buritizeiro, já no Norte Mineiro. Após a área urbana dos dois municípios separados pelo leito, a integridade hídrica decai na estação de medição seguinte. Resultado da adição de efluentes de córregos da região, poluição por lixo e sedimentos. A potabilidade se reduziu para águas de nível médio em 30% dos testes da década.

À frente, em Ibiaí, na mesma região, o índice de qualidade mediana escala para 60%. Mas não é que sua passagem margeando o pequeno município de 6,2 mil habitantes seja marcada por despejos de esgotos domésticos volumosos – a população do município até se reduziu em quase 20% do censo de 2010 para o de 2022.

A queda dramática de qualidade se dá cerca de 35 quilômetros antes, quando o Rio das Velhas vem perpendicular ao Velho Chico e suas águas turvas que aparentam estar paradas tingem o manancial menos poluído e mais veloz, no distrito de Barra do Guaicuí, pertencente ao município de Várzea da Palma. Junto, as águas do Velhas trazem as marcas da poluição vinda do entorno de grandes centros urbanos, com destaque para a Região Metropolitana de Belo Horizonte e Sete Lagoas.


Alívio antes de mais degradação

No município de Ubaí, ainda na Região Norte, na altura da confluência do Córrego Riacho Grande, o Rio São Francisco consegue novo respiro, com um histórico de 80% de medições de boa qualidade em sua jornada pelo sertão e outras 20% médias. Mas logo adiante, em Januária, 100% das medições dos últimos cinco anos foram de qualidade média ao passar pelas praias e pela mancha urbana da cidade.

Chegando a Itacarambi (Norte), o Velho Chico ainda apresentava níveis medianamente tóxicos em 20% das amostragens dos últimos cinco anos, ao passo que a qualidade boa resistiu em 80% das amostras e a média em 20%. Uma demonstração de recuperação em andamento.

A última estação de medição de parâmetros de qualidade e toxicidade do Igam é em Matias Cardoso, no extremo Norte de Minas, antes de o Velho Chico irromper pelo estado da Bahia após o seu encontro com o Rio Carinhanha, em Manga. Naquela estação, Minas Gerais entregou 70% de baixa carga tóxica, 20% média e 10% alta na década pesquisada.

A qualidade da água no mesmo período foi 80% boa e 20% considerada média, o que indica que os mineiros prejudicam mais o Rio São Francisco para si próprios do que para o restante da bacia. O Velho Chico consegue espaço e tempo suficientes para depurar suas águas antes de deixar o mapa de Minas Gerais.


Comitê em luta pela recuperação

O Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) se encontra em plena campanha em defesa do rio. A mobilização é intitulada: “Eu viro carranca para defender o Velho Chico”. O lema “Velho Chico: um rio, muitas mãos” também mostra como é importante ter qualidade e quantidade de água boa em toda bacia, como defendeu o presidente da entidade, Cláudio Ademar da Silva.

Ele destaca desafios que, se superados, podem ajudar na revitalização de toda a bacia. Um deles seria engrossar a força política e de convencimento com ações de recuperação, contando com esforços dos usuários da transposição que ficam fora da bacia. Essa união de esforços precisaria se aliar a diagnósticos e soluções de contribuição de cada trecho e sub-bacia, com a costura de um novo plano global.

“Estamos iniciando a atualização do nosso Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia, que vai ser realizada com a colaboração das bacias de todos os estados. Esse é talvez o nosso maior desafio. Um plano que reflita as realidades dos estados (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe), as suas necessidades e problemas”, afirma.

No dia 3 de junho, haverá ações em quatro cidades escolhidas como representantes da bacia – Paracatu (MG), Juazeiro (BA), Érico Cardoso (BA) e Canindé de São Francisco (SE) –, mas até lá a mobilização ocorre ativamente.

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A secretária-executiva do CBHSF, Rosa Cecília, considera que a poluição pode ser reduzida e controlada com projetos de saneamento e de manejo de resíduos sólidos. “Fazer um projeto e financiar propostas como as que temos em Sergipe para destinação de resíduos sólidos, com participação dos catadores, pode tirar da calha do rio e dos afluentes toneladas de lixo. Um desafio que o comitê trouxe para si e que está levando dignidade aos catadores, ribeirinhos e às pessoas que ali convivem”, destaca, citando um dos muitos passos necessários para salvar o velho, sofrido e agredido Chico.

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