A primeira estação de Guimarães Rosa
Foi da plataforma desta construção centenária, hoje em abandono, que o autor de "Grande sertão: Veredas" partiu, quando menino, rumo a BH
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Cordisburgo – Estou bem diante da estação ferroviária da cidade natal de João Guimarães Rosa (1908-1967), e fico imaginando o que o autor de “Grande sertão: Veredas” diria ao ver tal estado de conservação. Abandono é pouco para definir a construção de 1904, onde o menino Joãozito, apelido de infância do escritor, embarcou aos nove anos, com a família, rumo a Belo Horizonte, aos estudos, à carreira de médico e diplomata, à notoriedade na literatura. Começava ali um outro mundo, e ele estava disposto a descobri-lo.
Da Rua Padre João, 744, endereço do Museu Casa Guimarães Rosa, dá para ver o telhado da estação, quebrado em vários pontos. Uma turista considera um absurdo e me segue para observar os estragos mais de perto. “Veja só: tem aqui uma placa informando que este imóvel é um marco territorial do Museu Casa Guimarães Rosa”. E lê em voz alta o que isso significa: “Sinalizam e identificam 95 referências geográficas, em Minas Gerais, que inspiram e estão presentes no universo da obra, trechos de entrevistas, notas pessoais e discursos do escritor João Guimarães Rosa”.
Presto a maior atenção nas palavras e, como a estação se encontra fechada, começo a circulá-la, notando outros problemas: vidros quebrados, portas danificadas, mato crescendo no entorno. Na parede, outra placa mostra que trata-se de patrimônio da empresa VLI. Também preocupado com a situação, um morador fala da importância da edificação na vida e na obra do conterrâneo ilustre.
E conta que há uma cena em “Sorôco, sua mãe, sua filha”, do livro “Primeiras estórias”, que se passa na estação. “O conto – diz o homem –, narra a história de Sorôco, que leva a mãe e a filha, as duas com problemas mentais, para pegar o trem em direção ao antigo hospício de Barbacena. É muito triste, tem gente que chora só de imaginar”.
Na placa, afixada na parede da estação, dá para ler um trecho: “Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre”. A última frase fica latejando na minha cabeça: será o de sempre, um patrimônio tão valioso se tornar apenas lembrança?
Entrei em contato com a VLI, controladora da linha férrea, e a assessoria informa apenas que “a Estação Ferroviária de Cordisburgo, na Região Central de Minas Gerais, faz parte da área operacional da ferrovia”.
SEMANA ROSIANA
Vai aqui um apelo para que os responsáveis cuidem da estação de Cordisburgo, especialmente agora que obras do escritor fazem aniversário: “Grande sertão: Veredas” e “Corpo de baile” completam 70 anos, “Sagarana”, 80, e “Magma”, 90, tendo sido premiado, em 1936, pela Academia Brasileira de Letras (ABL). Na 38ª Semana Rosiana, a ser realizada de 5 a 12 de julho, no Museu Casa Guimarães Rosa, as obras junto a narrações, saraus, palestras e outras atividades estarão na programação.
TRÊS IMAGENS DE ALEIJADINHO...
O Vaticano vai receber, no segundo semestre, uma mostra inédita dedicada ao mestre do Barroco, Antônio Francisco de Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814). Fruto de parceria entre a Casa Fiat de Cultura e Museus Vaticanos, mas ainda sem data marcada, a exposição terá as imagens de Sant’Ana Mestra, São Joaquim e São Manuel, todas do século 18 e restauradas, em 2021, pela Casa Fiat, na capital. São Joaquim pertence à Paróquia Nossa Senhora da Conceição, de Raposos, e São Manuel, ao acervo da Paróquia Nossa Senhora do Bom Sucesso, em Caeté, ambas na Arquidiocese de Belo Horizonte, enquanto a Sant’Ana Mestra, da Capela Sant’Ana, da comunidade da Chapada, de Ouro Preto, está vinculada à Arquidiocese de Mariana.
...SERÃO EXPOSTAS NO VATICANO
Em 2021, as peças foram restauradas, em ateliê-vitrine, na Casa Fiat, na Praça da Liberdade. Após o trabalho, foram restituídas aos templos de origem. Quem foi ao local pôde ver três restauradas a postos, resgatando a beleza e originalidade das esculturas de Sant’Ana Mestra, São Joaquim e São Manuel. A futura exposição em Roma faz parte das comemorações do bicentenário das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé. Também em 2026, são celebrados os 50 anos da Fiat em Minas e duas décadas da Casa Fiat de Cultura. A mostra contará com patrocínio da Stellantis, por meio do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), e apoio da Associação Pró-Cultura e Promoção das Artes (Appa – Cultura & Patrimônio).
Gostei do que vi
Já está disponível no YouTube o documentário “Sob o peso da tortura, o caso dos irmãos Naves”, produção do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio da sua diretoria de comunicação. Estive no lançamento, em BH, e gostei do que vi. E me emocionei. São 60 minutos contando a história de Sebastião José Naves e Joaquim Naves Rosa, que viviam em Araguari, no Triângulo, e foram acusados de matar um primo. O doc traz depoimentos de descendentes dos irmãos e de familiares de juristas que atuaram no caso, numa mistura bem equilibrada com trechos de uma peça montada pelo grupo de teatro Emcena e do filme “O caso dos irmãos Naves” (1967). O leitor pode ver na foto, ao lado, um registro que só o Estado de Minas tem da família Naves, com exceção de Joaquim, que havia falecido.
HISTÓRIA DO SERRO
O escritor, pesquisador e professor Danilo Arnaldo Briskievicz (foto) lança “A política do Brasil: A história do Senado da Câmara da Vila do Príncipe, de 1714 a 1828” (Editora Appris). Natural do Serro, ele informa que o livro é uma continuação de “Ouro do Brasil: A história das minas do Serro Frio de 1702 a 1714”, publicado há dois anos. Com 566 páginas, anexos e documentos, “A política do Brasil” tem prefácio da professora Adriana Romeiro, da UFMG, que destaca a importância de se estudar a política colonial brasileira. Danilo diz que o livro marca a história do Serro e coloca a cidade, definitivamente, na história do Brasil. Mais informações: editoraappris.com.br
EXPOSIÇÃO
Está aberta até 11 de junho, na Galeria da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira, a exposição “Neide Barbosa: desenhos e colagens”. A mostra convida o público a mergulhar em uma produção marcada pela delicadeza e intensidade. Nos desenhos em bico de pena, a artista “constrói composições de gestos contínuos e minuciosos, em que o entrelaçamento das linhas cria uma dinâmica quase obsessiva, e, nesse emaranhado, surgem frestas de luz que rompem o escuro do papel, revelando paisagens abstratas e sensíveis”, conforme divulgado pela fundação. Já nas colagens e objetos, Neide Barbosa amplia a investigação estética ao incorporar fragmentos de palavras recortadas de horóscopos de jornal. Esses elementos se entrelaçam à poesia de Drummond, criando composições que transitam entre imagem, textura e linguagem, em um diálogo que ressignifica tanto o texto quanto o suporte. Horário de visitação: de segunda-feira a sexta-feira, das 8h30 às 17h30.
MEMÓRIAS
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No próximo sábado (23/5), a atriz, professora e escritora Elisa Santana lança seu segundo livro, “O meu amigo” (Editora Aletria). Com ilustrações de Demóstenes Vargas, a obra conta a história de Joana e Pierre, pré-adolescentes que constroem uma sólida amizade a partir de encontros inesperados – “refletindo sobre convivência, diferenças e afetos”, conforme diz a autora. O lançamento será na sede da ONG Solidariedade – Todos juntos sempre, que fica na Rua Nossa Senhora Aparecida, 88, Bairro Idulipê, em Santa Luzia, na Grande BH.