Solidão, abandono e suicídio. Essas são algumas das vivências que o médico generalista recém-formado, conhecido pelo pseudônimo “Arôuca”, de 33 anos, presenciou entre 2021 e 2023, quando atendeu cerca de 400 mulheres então encarceradas no Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto (PIEP), em Belo Horizonte, também conhecido como Casa das Barbies. A experiência, descrita por ele como “um mundo à parte”, deu origem ao livro “Tereza” (Editora Pessoa), que será lançado no Guajajaras Bar, no Centro de BH, neste sábado (28/3).
Profissional da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Belo Horizonte, Arôuca prefere não divulgar sua identidade em seu romance de estreia, por atuar no Sistema Único de Saúde (SUS).
“Não escondi nada daquele ambiente. Tem palavrão, choro e sangue”, relata. O médico conta que o nome da obra faz referência ao ato de tirar a própria vida na cadeia, principal tema abordado por ele.
A escrita crua e sensível descreve episódios marcantes vividos enquanto trabalhava diariamente, das 8h às 17h, acolhendo as dores de detentas com as mais diversas histórias. O mineiro, inclusive, chega a se apoiar nas estruturas narrativas de autores como o russo Fyodor Dostoevsky (1821-1881), o francês Victor Hugo (1802-1885) e o inglês Charles Dickens (1812-1870), para forjar seu livro.
""Sífilis, HIV, HPV, gonorreia, clamídia, herpes genital, cancro mole e outras feridas e corrimentos indecifráveis pululam e constituem um terrível desafio pela enorme rede de relacionamentos presentes entre pessoas de celas diferentes, sejam as recém-chegadas ou as que retornam da rua, as reincidentes ou que estão em prisão preventiva. Essa amálgama forma a geleia sexual do cárcere.""
por Arôuca
Depois de se formar em medicina em 2021, o belo-horizontino ingressou no mercado de trabalho por meio da Atenção Básica do Sistema Único de Saúde (SUS), como clínico na PIEP. Sua primeira atuação na rede carcerária ocorreu durante o período da Covid-19, quando muitas restrições e cuidados redobrados eram exigidos.
Arôuca relata a tensão de trabalhar naquele ambiente naquele momento: “Se uma presa saía, eu tinha que isolar a cela inteira por um período”. Segundo ele, situações como essa geravam revolta entre as detentas.
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‘Prisões externas e internas’
No último capítulo do livro, também intitulado “Tereza”, o clínico-geral narra sua experiência pessoal ao lidar com as mortes de detentas que escolhiam esse fim: “Foi difícil falar sobre uma época em que realmente fiquei triste”. As tentativas de autoextermínio, relata, são comuns em presídios femininos.
Essas experiências o tocaram profundamente e se entrelaçaram com sua vida pessoal. “Chegava em casa (após o expediente) pensando: ‘O que aconteceu aqui?’”.
“Tristeza, isolamento, convivência com pessoas desconhecidas que podem ser extremamente violentas, saudade da família e o próprio sistema de segurança, que às vezes é hostil, unidos, são um mecanismo que gera angústia”, completa o médico.
Ele conta que muitas presidiárias precisam de medicação para conviver com a realidade. Outro ponto escancarado na obra é a diferença de assistência entre homens e mulheres no sistema prisional. “Na penitenciária masculina, a fila de pessoas que visitavam era muito maior que a de visitas para mulheres”, expõe o clínico. “As presas tentam suprir essa falta entre elas mesmas, criam amizades, namoram, para sentir um pouco de vida ali dentro”, diz.
""Os casos que mais chamam atenção são os de mulheres que mataram o próprio marido, fazendo justiça ou não. Senhoras que chegam ao consultório e que poderiam fazer tricôs com suas avós.""
por Arôuca
O romancista descreve a maior parte delas como jovens, pardas e pretas, indiciadas por tráfico de drogas e muito solitárias. “Há muitas sem rede de apoio, e essa sustentação acaba sendo você”, declara. Ainda de acordo com o escritor, na ausência de companhia, elas acabam desabafando com os funcionários da prisão.
Para se blindar do ambiente pesado no qual vivia diariamente, o médico afirma que precisou se aproximar de amigos e familiares, sua rede de apoio. “Por ficar impactado, você acaba ficando meio isolado, pensando naquilo, no que aconteceu comigo. Eu tentava ajudar, mas não era muito, estava além das minhas forças”.
Alguns fatos tornam o trabalho dentro de um presídio difícil de ser tolerado por qualquer pessoa. Arôuca conta que atendia pessoas condenadas por crimes hediondos, como tráfico humano e assassinato dos próprios filhos e cônjuges.
“Tive que atender um estuprador. Aquilo foi difícil”, descreve sobre o período em que trabalhou no Ceresp Gameleira, em Belo Horizonte.
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Estrutura precária e superlotação
O Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto, fundado em 1948, fica no bairro Horto, na Região Leste de Belo Horizonte. Em dezembro do ano passado, foi alvo de uma denúncia da Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais (DPMG), que aponta superlotação no local há, pelo menos, oito anos.
A unidade, com capacidade para 416 detentas, atualmente abriga 526, sobrecarregando o sistema prisional. O clínico enfatiza que a grande quantidade de pacientes gera uma carga muito alta para os funcionários. “Eu era o único médico”.
""Agradeço a Deus, que me apresentou uma amostra grátis de pequenos infernos. Mas é difícil voltar do inferno sem ser um pouco demônio.""
por Arôuca
Alguns fatores agravam a situação. Devido às fortes chuvas do fim de 2025, uma parede da unidade caiu, exigindo a retirada das presas de 23 celas próximas ao local do acidente e agravando ainda mais a superlotação.
A experiência de Arôuca confirma a realidade: “Às vezes, as beliches não comportam, e elas precisam fazer redes para dormir”.
Segundo o médico, esse cenário gera estresse constante entre as pessoas encarceradas, provocando brigas e outros transtornos. Nesse contexto, o apoio psicológico e as atividades cotidianas se tornam fundamentais.
O escritor afirma que a demanda por cuidado com a saúde mental é alta e que há déficit de profissionais na área. “São dois ou três para todo mundo”.
Ainda assim, são oferecidos alguns recursos para que as detentas possam se ocupar. “Há peças de teatro, pastoral, aulas de arte, canto e atividades de trabalho, como faxina, fabricação de biscoitos e ajuda na unidade de saúde”, descreve.
Imagem retirada do livro "Tereza", de Arôuca
Da vivência à obra
Depois de deixar a cadeia feminina, o clínico trabalhou por quase dois anos no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp), no bairro Gameleira, na Região Oeste da capital. No local, a população carcerária era composta por homens, e ele também traz relatos sobre esse período em Tereza. “É uma masmorra, cheguei a atender 40 pessoas em um dia”, relata.
Os anos de trabalho com a população carcerária são descritos pelo escritor anônimo como uma escola. “Não havia eletrocardiograma nem raio X; só tínhamos estetoscópio, medidor de pressão e a vontade de ajudar.”
“Muita dor, suor e lágrimas” é como ele define o processo de criação do livro. Mesmo contrariado, Arôuca diz ter sido incentivado por um amigo, Vicente Pessoa, também escritor e fundador da editora responsável pela publicação, a contar a história. O autor afirma que tentou fugir da escrita científica e focar no que havia de humano naquela experiência.
A arte da capa é assinada por Lucas Gabriel. “Foi imaginada para transmitir como o isolamento da sociedade leva a pessoa a atitudes trágicas”, conta o escritor. Com a mesma intenção, várias fotos em preto e branco, de Matheus Araújo, ilustram o livro. “Era comum ver mulheres caminhando à solta, falando sozinhas, rezando”, completa.
Serviço
Lançamento do livro “Tereza”
Entrada gratuita
Quando: Sábado (28/3), 15h
Onde: Guajajaras Bar. Rua dos Guajajaras, 450, Centro, Belo Horizonte, MG
Durante o evento, também será apresentado o livro “Morro”, de Vicente Pessoa.
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*Estagiária sob supervisão dos subeditores Rafael Rocha e Thiago Prata
