Belo Horizonte chegou a ter uma praia, na Pampulha. Um projeto ousado, polêmico e não autorizado pelo poder público, mas que levou centenas de caminhões de areia branca para a orla, assim como conchas de Copacabana e de Ipanema, trazidas especialmente do Rio de Janeiro para dar um clima beira-mar para a lagoa. Na época, o espelho d’água já era impróprio para banho.
O Sabia Não, Uai!, série especial do Estado de Minas sobre histórias e curiosidades da cultura mineira, estreia a quinta temporada com mais um caso pouco conhecido dos leitores e que foi encontrado em nossos arquivos. A saga da Praia da Pampulha começou em 5 de outubro de 1973, quando o Diário da Tarde, antigo jornal dos Diários Associados, publicou a seguinte manchete-denúncia:
“Ex-prefeito constrói praia na Pampulha”
- “Era um velho sonho dos mineiros. Uma praia com suas areias brancas e conchas do mar como as de Copacabana. Pois pode se tornar realidade. Caminhões e caminhões estão despejando areia trazida de Vespasiano e Pedro Leopoldo e conchinhas apanhadas em Ipanema e Copacabana nas margens da Pampulha”. (Diário da Tarde, 5/10/73)
Leia Mais
O dono da praia
O autor da ideia de construir uma praia nas margens da Lagoa da Pampulha tinha sido do ex-prefeito de Belo Horizonte, Jorge Carone Filho, que comandou a cidade de 1963 a 1965, e carrega em sua trajetória outra curiosidade, como a apresentação do projeto de lei que regulamentou a criação do Estádio Minas Gerais, oficialmente chamado de Governador Magalhães Pinto, mas que carinhosamente conhecido por todos como Mineirão.
@estadodeminas ????? 60 anos do Mineirão. A origem do estádio, as polêmicas da construção e a festa de estreia do Gigante da Pampulha #futebol #bh #mineirão ? som original - Estado de Minas
Polêmica e piada na capital
A reportagem do Diário da Tarde revelou também que a praia estava em construção em frente à casa onde Carone morava. A notícia de um balneário irritou a administração pública e divertiu os belo-horizontinos, que acompanharam atentamente os desdobramentos do caso nas páginas do jornal.
O então prefeito, Oswaldo Pieruccetti (1965 a 1967 e 1971 a 1975), determinou a criação de uma comissão para estudar a construção da Praia do Carone, como ela ficou conhecida entre os moradores, citando a Lei 1.523, de 4 de setembro de 1968, que condicionava o uso da represa da Pampulha e de toda a orla da lagoa a uma autorização prévia da PBH.
- “A comissão ora constituída deverá apresentar as conclusões de seu trabalho no prazo máximo de oito (8) dias”. (Diário da Tarde, 8/10/73)
Os caramujos e a tilápia
Além da briga pela legalidade ou não da Praia da Pampulha, um outro problema foi intensamente discutido na época: as condições de uso da lagoa, na época cerca de placas proibindo o nado.
- “Mas parece que não vai ser tão fácil surgir essa praia (mesmo que seja de 120 metros de extensão). E o primeiro problema surgiu logo depois de Carone dar publicidade à sua ideia: o secretário municipal de Saúde, Francisco Neves, a quem compete a tarefa de acabar com a xistose na Lagoa da Pampulha, afirmou que ‘a proibição de nadar lá, ainda está de pé’.” (Diário da Tarde, 8/10/73)
Carone, segundo as publicações do Diário da Tarde, argumentou que um mapa do Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu), órgão responsável pelo controle na época, mostrava que no local da praia não existem mais caramujos, responsáveis por ajudar a espalhar a esquistossomose.
O então prefeito Oswaldo Pieruccetti criou uma comissão para avaliar a legalidade da chamada "Praia do Carone"
Apesar da pressão dos órgãos públicos contra a praia, Carone estava bastante otimista em relação ao futuro do balneário que ele estava construindo na lagoa. “Daqui a 10 anos, a Pampulha será a Copacabana de Minas”, afirmou ao Diário da Tarde. Mais de cinco décadas depois, o uso desse cartão-postal de BH, e Patrimônio Cultural da Humanidade, para lazer continua como um desafio para o poder público. Mais de cinco décadas depois, o uso desse cartão-postal de BH, e Patrimônio Cultural da Humanidade, para lazer continua como um desafio para o poder público.
O Sabia Não, Uai!
As reportagens do Sabia Não, Uai! mostram de um jeito descontraído histórias e curiosidades relacionadas à cultura mineira. A produção conta com o apoio do vasto material disponível no arquivo de imagens do Estado de Minas, formado também por edições antigas do Diário da Tarde e da revista O Cruzeiro, e por vídeos digitalizados da TV Itacolomi.
Todos os vídeos desta temporada e das anteriores estão disponíveis nas plataformas de podcast e no canal do Portal Uai no YouTube.
O Sabia Não, Uai! foi um dos projetos brasileiros selecionados em 2023 para participar do programa Acelerando Negócios Digitais, do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ), iniciativa apoiada pela Meta e desenvolvida em parceria com diversas associações de mídia (Abert, Aner, ANJ, Ajor, Abraji e ABMD) com o objetivo de atender às necessidades e desafios específicos de seus diferentes modelos de negócios.
Arquivo EM
Se você gostou de mais esta história recontada pelo especial Sabia Não, Uai!, aproveite para acompanhar nossa série sobre a memória do jornalismo brasileiro. O Arquivo EM conta, a partir de buscas na Gerência de Documentação e Informação (Gedoc) dos Diários Associados em Minas Gerais, reportagens quase esquecidas sobre Minas Gerais e o país.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
