NOSSA HISTÓRIA, NOSSO PATRIMÔNIO

Curvelo assiste à derrubada de construções centenárias

São perdas irreparáveis que entristecem moradores e defensores do patrimônio histórico

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Minas já perdeu parte valiosa do seu patrimônio histórico, incluindo casarões, igrejas, capelas e monumentos de destaque dos períodos colonial, imperial e republicano. E quando a gente pensa que houve um freio na derrubada, chegam notícias para causar espanto, apreensão, revolta. É o caso da demolição de imóveis particulares centenários em Curvelo, terra natal de grandes nomes da cultura nacional, a exemplo do escritor Lúcio Cardoso (1912-1968), do ilustrador e desenhista Alceu Penna (1915-1980) e da estilista Zuzu Angel (1921-1976).

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Com tristeza, muitos moradores veem desaparecer, nos últimos anos, construções importantes – uma delas, de saudosa memória, na Rua Visconde de Ouro Preto. Ali residiu o médico José Lourenço. Foi ele quem descobriu a miopia de Joãozito, apelido na infância do escritor Guimarães Rosa (1908-1967), natural de Cordisburgo, a 46 quilômetros de Curvelo.

Basta caminhar pelo Centro da cidade para ver vazios urbanos. Na esquina da Avenida Antônio Olinto com a Rua Paulo Frontin se vê extenso tapume em torno do terreno. Olhando pelas frestas, não se encontra qualquer sinal das edificações. Virou terra nua. “Parece que serão construídos edifícios. Uma pena terem derrubado as casas que existiram aqui. Será que não dava para preservar pelo menos a fachada?”, pergunta um homem com o qual puxei conversa.

Já na porta de uma loja, uma funcionária aponta outras residências perto da estação ferroviária, hoje centro cultural, e se mostra preocupada. “Se derrubam tudo, a cidade perde a memória”. E ouço também um comerciante reclamar: “Parece que algumas pessoas não valorizam a história. Acham que se pagarem uma multa fica tudo resolvido”.

...de outras da Avenida Antônio Olinto, no Centro de Curvelo
...de outras da Avenida Antônio Olinto, no Centro de Curvelo Edésio Ferreira/EM/D.A Press

 


PÁGINAS MARCANTES


Residente em BH e proprietária de um casarão centenário na Avenida Antônio Olinto, bem na frente de imóveis recentemente demolidos, Lilyan Vasconcelos, executiva de sistemas, sente tristeza e revolta com a situação na terra natal. “Há uma onda de demolição de casas antigas em Curvelo. É preciso que as autoridades municipais tomem providências e façam o tombamento urgente, do contrário não sobrará nada para contar a história”, alerta. Mantendo um grupo com amigos no Facebook (Curvelo ontem e hoje), a executiva se comove: “Confesso que chorei com a demolição de três imóveis, um deles muito bonito e preservado. É de dar dó”.

Escuto as observações com pesar e solidariedade. Será que as autoridades sabem da conexão da residência de número 251, da Visconde de Ouro Preto, com a vida e a obra do autor de “Grande Sertão: Veredas”. Em “Campo geral”, Rosa conta a “estória” de Miguilim, menino que morava na Fazenda Mutum, no sertão mineiro. Quando recebe os óculos das mãos do doutor José Lourenço, começa a enxergar o mundo com nitidez.

Eis o trecho do livro: “Miguilim olhou. Não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo…

SEM TOMBAMENTO


De acordo com a Prefeitura de Curvelo, o imóvel da rua Visconde de Ouro Preto não era tombado, mas inventariado. “O pedido de demolição foi protocolado em 2020 e seguiu todo o processo administrativo ao longo de 2021, tendo sido finalmente analisado pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural em novembro e dezembro de 2021. A demolição ocorreu posteriormente à conclusão dessa tramitação administrativa.” O pedido foi formalizado pela então proprietária da casa.

RITOS, BÊNÇÃOS E SAGRADAS TRADIÇÕES...

Gustavo Werneck/EM/D.A Press

Já se passaram alguns dias do início da quaresma, e vou contar uma curiosidade que sempre tive: de onde vêm as cinzas que os fiéis recebem, em forma de cruz na testa, na quarta-feira após o carnaval? Pois compartilho uma descoberta com vocês. Sabe as folhagens usadas na procissão e bênção do Domingo de Ramos? Pois as folhas de palmeira, os galhos de manjericão, alecrim e rosmaninho e outras plantas abençoadas secam ao sol (foto) e ficam guardados durante todo o ano, nas igrejas. Quando vai se aproximando o período quaresmal, são queimados, triturados e passados em peneira para que se obtenha um pó bem fininho (foto). Ouvi esse passo a passo no tricentenário Mosteiro de Macaúbas, em Santa Luzia, uma das construções mais importantes dos tempos coloniais do Brasil.

 

Ordem da Imaculada Conceição/Divulgação

...MARCAM O TEMPO DA QUARESMA EM MINAS

Já na Quinta-feira Santa ocorre a bênção dos santos óleos, que serão usados nas celebrações católicas dos sacramentos ao longo do ano: batismo, crisma e unção dos enfermos. Em 2025, durante a Missa da Unidade, o arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, dom Walmor Oliveira de Azevedo, abençoou 80 litros de azeite de oliva. Todo esse volume foi partilhado com as paróquias existentes nos 28 municípios, incluindo a capital, que compõem a arquidiocese.

Débora Fernandes/Prefeitura de Simão Pereira/Divulgação

PAREDE DA MEMÓRIA

Para que o casarão do século 18 não se torne mais um retrato na parede da memória, como já ocorreu a tantos monumentos brasileiros, a coluna continua atenta ao Registro do Paraibuna, em Simão Pereira. Trata-se da mais importante alfândega do Brasil Colônia e construção emblemática da Estrada Real. Após alerta das autoridades municipais sobre o estado de deterioração do bem localizado às margens da Estrada União e Indústria, esteve lá o presidente do Iepha-MG, Paulo Roberto Meireles do Nascimento. Em seguida, foi a vez de uma equipe técnica do instituto para vistoria. A obra está orçada em R$ 6,5 milhões, e Paulo Roberto prometeu auxiliar a prefeitura local a obter os recursos necessários ao restauro da edificação com estrutura de pedra. Todos os projetos foram aprovados, conforme explica o secretário Municipal de Turismo de Simão Pereira, Geraldo Francisco do Nascimento. Futuramente, o imóvel deverá abrigar o Centro de Pesquisa da Estrada Real e uma série de serviços para receber moradores e visitantes.

reprodução

EXPOSIÇÃO

Está em cartaz no Prédio Verde do Iepha-MG, na Praça da Liberdade, em BH, a exposição “Os caminhos de Chica”. A mostra apresenta documentos técnicos da instituição sobre bens culturais relacionados à trajetória de Chica da Silva. Em 2026, são lembrados os 230 anos de falecimento da escravizada alforriada, que viveu mais de 15 anos com o contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira – o casal teve 13 filhos. Iniciativa do governo de Minas, via Secretaria de Estado de Cultura e Turismo e Iepha-MG. A exposição poderá ser visitada até 26 de abril, de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h.


INSTITUTO HISTÓRICO 1

Em plena comemoração dos seus 119 anos, o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG) tem ampla programação neste mês. No próximo sábado (7/3), às 10h, na sede em BH (Rua Guajajaras, 1.268, Bairro Barro Preto), haverá “Homenagem ao imperador dom Pedro II pelo bicentenário de seu nascimento”. O palestrante será o chefe da Casa Imperial do Brasil, dom Bertrand de Orleans e Bragança. Já no sábado seguinte (14/3), também às 10h, o tema será “A heroína do sertão mineiro: Maria da Cruz”, pela palestrante Beatriz Coelho Morais de Sá. No dia 21, às 10h, momento de reverência à memória de Alberto da Veiga Guignard, nos 130 anos de nascimento: “Vida, obra e o nascimento de uma escola mineira de arte”. O palestrante será Marco Elízio de Paiva, professor aposentado e ex-diretor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. O IHGMG é presidido pelo advogado Antônio Marcos Nohmi.

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INSTITUTO HISTÓRICO 2

No dia 28 de março, às 10h, na sede do IHGMG, o tema será “Terras raras: O ouro do século 21 e a nova corrida geopolítica mundial”, palestra a cargo do professor da UFMG, André Pimenta. E no dia 31, visita dos associados ao Museu da Inquisição, em Belo Horizonte (reinauguração). Haverá também atividades fora da capital. No dia 26, a sede do Instituto Histórico e Geográfico de Pompéu abrirá as portas, das 8 às 17h, para os participantes do Seminário do Patrimônio Cultural.

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