Do clima ao vandalismo, o perigo ronda igrejas mineiras
Água, fogo, raio, deslizamentos, invasões e pichações. A lista de ameaças é longa e reforça o alerta para as ameaças às construções históricas do estado
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Tempestade, raios, deslizamento de terra, fogo e outros fatores de alto risco para o patrimônio cultural, resultantes dos fenômenos climáticos ou de ações humanas, como os furtos e vandalismo, acendem o alerta máximo para construções históricas – na maioria, igrejas – de Minas. O EM mostra seis episódios ocorridos em pouco mais de um mês, a partir de 7 de janeiro. Os mais recentes ocorreram em Conceição do Mato Dentro, na Região Central, quando, na tarde de 9 de fevereiro, um raio atingiu a torre da Igreja Nossa Senhora do Rosário, e em São João del-Rei, na Região do Campo das Vertentes. Nessa cidade, dois dias depois, na madrugada de quarta-feira (11/2), houve pichação, pela mão do desrespeito, na porta da Igreja Nossa Senhora do Carmo. Imagens de câmeras foram coletadas para abertura de inquérito policial.
De acordo com informações da Secretaria Municipal de Cultura e Patrimônio Histórico de Conceição do Mato Dentro, a descarga elétrica causou avarias na estrutura, “com desprendimento de componentes construtivos, sobretudo na parte superior da edificação”. Não houve vítimas. Como medida preventiva no templo, que não dispõe de Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA), foram iniciados procedimentos de avaliação técnica para apuração das condições estruturais e segurança das pessoas que circulam nas proximidades do bem. A mando da paróquia, chegou à matriz um prestador de serviço para vistoria preliminar. “Atuação articulada entre município, paróquia e órgãos de proteção permitirá a definição de medidas paliativas imediatas até o início das intervenções definitivas”, diz nota da prefeitura.
Outro templo dedicado a Nossa Senhora do Rosário, desta vez em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, sofreu danos nesta temporada chuvosa. Na madrugada de 7 de janeiro, houve desabamento de parte da cimalha (moldura no alto da fachada) da construção interditada desde meados do ano passado. Trata-se de uma das igrejas mais antigas da cidade reconhecida, em 1999, como Patrimônio Mundial.
Um dos temores de moradores e defensores do patrimônio local é que toda a parte superior da construção de 1728 desabe, daí a necessidade urgente de obras. Além dos riscos à edificação, a situação se expande para outros bens culturais de Diamantina. Assim, as últimas festas Junina e do Rosário (em outubro), tradicionalmente realizadas no largo da igreja, precisaram ser transferidas para outros espaços.
Segundo a Superintendência do Iphan, em Minas há, desde 2023, processo administrativo em andamento para a contratação do projeto arquitetônico de restauro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. O contrato, no valor de R$ 230 mil, com recursos próprios da autarquia federal, contempla a elaboração dos projetos complementares, planilha orçamentária, memorial descritivo e demais documentos técnicos necessários à futura obra de restauração. A previsão é de conclusão dos projetos até o fim deste ano.
A medida foi adotada após a equipe de fiscalização do Escritório Técnico do Iphan em Diamantina identificar, ao longo dos últimos anos, movimentações estruturais no edifício. O Iphan monitora fissuras e trincas, em ação conjunta com a Prefeitura Municipal. O monitoramento é realizado periodicamente. Em 2025, o Iphan também instaurou novo processo administrativo para execução de escoramentos preventivos, atualmente aguardando desdobramentos. Até o momento, não há definição de recursos para a execução da obra de restauração, uma vez que o valor total da intervenção dependerá da conclusão da planilha orçamentária em elaboração.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Com as tempestades deste verão e as mudanças climáticas mundo afora, nem as construções mais recentes escapam. Em Lima Duarte, na Zona da Mata, houve um deslizamento de terra, no dia 25 de janeiro, sobre a Igreja Nossa Senhora Aparecida, no Bairro Poço da Pedra. O presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Sebastião Clemente, conta que a construção data de 2012, estando interditada por engenheiros da prefeitura devido ao risco de deslizamento de um talude na parte de trás.
Na comunidade, explica Sebastião, há uma igreja antiga, e para esse espaço foram transferidas as missas e demais celebrações. “A nova construção está, portanto, fechada. Pode ser que, futuramente, a fachada seja aproveitada e fique como memória do templo”, diz o presidente do conselho.
Em janeiro, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) instituiu a Comissão do Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas. O objetivo é implementar estratégias institucionais de preservação do patrimônio cultural frente às alterações nos novos tempos. Na prática, significa divulgação de recomendações para atuar em bens culturais.
Nesta reportagem, estão algumas das recomendações e procedimentos importantes para orientar os responsáveis pelos bens culturais em risco, a fim de se evitarem ou minimizarem danos causados ao patrimônio cultural. O lema é “prevenção é fundamental para garantir a segurança das pessoas e do patrimônio cultural”.
PROTEJa OS BENS CULTURAIS
Veja as recomendações do Iepha-MG para proteção da vida humana e de bens culturais na capital e no interior. Olho vivo durante todo o ano, especialmente no período chuvoso
1) Prevenção
Faça manutenção do telhado
Limpe as calhas regularmente
Recoloque telhas deslocadas e substitua telhas quebradas
Em caso de reparo ou intervenção em objetos de valor cultural, procure orientação do órgão de patrimônio cultural ou de um conservador-restaurador
Observe trincas, rachaduras ou movimentações do terreno
2) Na chuva
Não entre em áreas alagadas ou com risco de desmoronamento
Retire objetos de valor simbólico ou cultural de locais de risco
Limpe com cuidado a edificação e objetos atingidos pela chuva. Evite usar água em grande quantidade para limpeza de madeira e superfícies antigas. Não use ferramentas que possam danificar objetos ou equipamentos elétricos em áreas molhadas. Retire lama e detritos enquanto ainda estiverem úmidos
Para secar corretamente o ambiente, use pano levemente úmido e apenas com água. Afaste móveis das paredes molhadas e retire objetos nelas pendurados, remova tapetes e objetos molhados sobre os pisos, abra portas e janelas para ventilação natural.
O contato do Iepha-MG para ações em bens culturais protegidos em âmbito estadual é (31) 3235-2800
TEMPORADA DE ALTO RISCO
Conheça algumas igrejas mineiras que sofreram duros revezes em pouco mais de um mês
Água
1) Em 7 de janeiro, após forte chuva, houve desabamento de parte da cimalha (moldura no alto da fachada) da Igreja Nossa Senhora do Rosário, uma das mais antigas de Diamantina.
Fogo
2) Em 29 de janeiro, uma mulher ateou fogo ao colchão de um homem em situação de rua, na porta da Matriz Nossa Senhora da Conceição, em Raposos.
Terra
3) No dia 25 de janeiro, houve queda de um barranco sobre a Igreja Nossa Senhora Aparecida, no Bairro Poço da Pedra, em Lima Duarte. O templo de construção recente estava interditado
Invasão
4) O Santuário Arquidiocesano da Santíssima Eucaristia (Igreja Boa Viagem), em Belo Horizonte, foi alvo de arrombamento e furto, na noite de 7 de fevereiro, um sábado
Descarga elétrica
5) Na tarde de 9 de fevereiro, uma segunda-feira, um raio atingiu a torre da Igreja Nossa Senhora do Rosário, no Centro de Conceição do Mato Dentro, na Região Central.
Pichação
6) Na madrugada de quarta-feira (11/2), entre 2h30 e 3h, houve pichação na porta da Igreja Nossa Senhora do Carmo, em São João del-Rei. Autoridades civis e militares procuram os responsáveis pelo ato de vandalismo.
EXPOSIÇÃO AO FURTO E FOGO
Na capital e na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) duas agressões ao patrimônio histórico e religioso indignaram os moradores: um furto no Santuário Arquidiocesano da Santíssima Eucaristia, mais conhecido por Igreja Boa Viagem, na Região Centro-Sul, e o fogo na porta principal da Matriz Nossa Senhora da Conceição, considerada uma das primeiras de Minas, em Raposos.
Na noite de 7 de fevereiro, às 21h, houve arrombamento da porta lateral da Boa Viagem, que dá acesso à Rua Sergipe, sendo levados ventilador e esculturas, uma delas do escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), peça feita em pedra e aço. Não havia objetos religiosos entre os bens roubados.
A porta arrombada leva ao consultório de psicologia existente no salão paroquial e foi por lá que um homem entrou. Câmeras de segurança do santuário registraram a presença de um suspeito no local, porém o autor do crime ainda não foi localizado pela polícia. Segundo o padre José Cícero Marques Júnior, à frente da Paróquia Boa Viagem, o invasor tentou cortar o fio de energia do portão e depois arrancou uma parte de ardósia de um banco para forçar a porta de madeira.
Ao entrar no interior do santuário, o homem fez o sinal da cruz diante de um crucifixo – “mostrando que é católico”, conforme destaca o pároco –, tomou água no bebedouro, passou por uma sala com computador, sem tocar nos aparelhos, e seguiu para a sala de atendimento psicológico. Na sequência, levou a escultura de Drummond, que um profissional havia recebido de um artista, e pequenos objetos sem valor religioso. “Essa pessoa não é daqui, pois conheço todos os que circulam no entorno da igreja”, diz o padre José Júnior.
Na manhã de domingo, foi registrado um boletim de ocorrência logo após a equipe da paróquia encontrar o espaço revirado. “Ficamos de mãos atadas mais uma vez. Já pedimos à Prefeitura de Belo Horizonte, e até que a Guarda Municipal tem vindo aqui para garantir segurança durante a missa das 12h15. Já a Polícia Militar não tem nos atendido”, afirma o pároco.
Na quinta-feira antes do carnaval, a segurança do templo foi reforçada. Na porta lateral, foram colocadas barras de ferro e instalado alarme.
GRITO DE ALERTA
Inúmeras vezes, inclusive aqui nas páginas do EM, o padre José Júnior tem pedido às autoridades de BH mais vigilância para a igreja que guarda a imagem da padroeira de BH, Nossa Senhora da Boa Viagem. Em setembro, ele denunciou a situação de “perigo e degradação” na Praça Boa Viagem, Marco Zero oficial de Belo Horizonte, na Região Centro-Sul. Seis meses antes, em 18 de abril, o templo centenário teve vitrais franceses quebrados com pedradas e pedaços de pau – no alvo do vandalismo, se encontram os elementos artísticos que retratam os evangelistas São João e São Marcos.
Em nota, a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), por meio do 1º Batalhão de Polícia Militar (1º BPM), informa que realiza constantemente ações e operações preventivas no local. “Entre as medidas adotadas, está a Operação Templo Seguro, em que guarnições da 4ª Companhia realizam pontos base, abordagens e patrulhamentos com o objetivo de prevenir crimes e elevar a sensação de segurança dos frequentadores da praça e da paróquia.”
E mais: “O local é alvo de policiamento constante pelas guarnições da 4ª Companhia. Sempre que algum delito é registrado, são desencadeados os devidos rastreamentos visando à prisão dos envolvidos e à redução da criminalidade na região. A PMMG reforça a importância da participação da comunidade, por meio do acionamento imediato da polícia via 190, contribuindo para a pronta resposta e eficácia das ações de segurança pública.
Já a Guarda Civil Municipal informa que exerce suas funções com foco no patrulhamento preventivo da cidade, visando garantir proteção e segurança da população. As ações de patrulhamento preventivo, com rondas periódicas 24 horas por dia ocorrem em toda a cidade, e em instalações municipais. Eis a nota divulgada pela Guarda Municipal: “Cabe ressaltar que o patrulhamento abrange a área da Igreja da Boa Viagem, somando-se às ações das demais forças de Segurança Pública. O local já recebe rondas frequentes, no entanto, o patrulhamento na região será intensificado.
Denúncias podem ser feitas pelos seguintes canais: 153 (Guarda Civil Municipal), portal de serviços da Prefeitura, aplicativo PBH APP, 156 (Prefeitura de BH) ou ainda 190 (Polícia Militar).
RAPOSOS
A participação da comunidade de Raposos (RMBH) foi decisiva para evitar um mal maior na Matriz Nossa Senhora da Conceição, de 1690, no Centro da cidade. No fim da tarde de dia 29 de janeiro, uma mulher com transtornos mentais ateou fogo ao colchão de um homem em situação de rua que costuma dormir na porta do templo do século 18. Tão logo viu a cena, um grupo de moradores correu para o local e conseguiu apagar as labaredas, que causaram estragos.
“Trata-se de uma porta muito antiga, de uma igreja tombada desde 1938 pelo Iphan. Agora, precisamos seguir todos os trâmites para restauração”, diz o titular da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, padre Maicon Cleberton de Paula. As labaredas atingiram também a moldura da porta.
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A mulher responsável pelo ato foi levada para a delegacia e liberada na mesma tarde. Já o homem em situação de rua não se encontra mais na porta da igreja.