"Chica é representativa de um tipo social", afirma historiadora
Autora de "Chica da Silva e o contratador dos diamantes –O outro lado do mito" diz que a mineira que conquistou João Fernandes é símbolo do tempo em que viveu
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Quem foi, na verdade, Chica da Silva? Quem responde a pergunta sobre essa fascinante mineira, que viveu no auge da exploração dos diamantes, é a professora de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Junia Ferreira Furtado. Autora do livro "Chica da Silva e o contratador dos diamantes - O outro lado do mito" (Companhia das Letras), já na sétima edição, Junia diz que o muito que existe no imaginário popular é fruto de invenção. “Ela teve uma relação estável com João Fernandes. Não era nada de mulher lasciva, sem escrúpulos, vingativa, tudo isso é criação literária”, afirma.
Ler a história de Chica é descobrir Minas Gerais dos tempos coloniais, conhecer mais sobre a sociedade dividida entre senhores e escravizados e tentar ouvir, com mais de dois séculos de distância, a voz de uma escravizada que encantou um português branco e, com ele, teve 13 filhos em relacionamento estável.
Chica da Silva entrou para o imaginário popular na forma de uma mulher lasciva, sem escrúpulos e vingativa. Quem era, na verdade, Chica da Silva?
Chica da Silva nasceu escrava, no Arraial do Milho Verde. Primeiro, foi escrava do médico português Manuel Pires Sardinha, com quem teve um filho, sendo depois vendida para João Fernandes de Oliveira, com quem teve 13 filhos, dos quais nove mulheres e quatro homens. Ela teve uma relação estável com João Fernandes. Não era nada de mulher lasciva, sem escrúpulos, vingativa, tudo isso é criação literária de Agripa Vasconcelos (1896-1969), autor do livro “A Chica que manda” (1966). Então, é uma liberdade literária do autor.
Ficou, então, uma imagem distorcida da realidade...
Agripa de Vasconcelos fez uma série de livros, romances históricos... São todos romances inventados, criações, baseados em personagens que existiram na história de Minas ou que se acreditou que existia. No caso da Chica da Silva, a única base factual que tem é que ela realmente existiu e teve um relacionamento com o João Fernandes, todo o resto é inventado pelo Agripa, que se baseou, a respeito desses dois fatos históricos, num livro do século 19, “Memórias do distrito diamantino”, de Joaquim Felício dos Santos (1828-1895).
O que se sabe sobre a personalidade de Chica da Silva?
Sobre a personalidade dela, a gente não conhece, não tem como saber. Conhecemos a Chica que viveu no século 18 pela documentação. Foi uma mulher comum, comum no sentido de ter uma relação estável de muito tempo, teve filhas, casou essas filhas com homens brancos, para melhor introdução delas na sociedade da época, sociedade baseada na ideia limpeza de sangue, os filhos vão frequentar instituições de ensino, um segue carreira eclesiástica. A Chica é muito representativa de um tipo social, que existiu, em Minas, no século 18, que é aquela mulher escrava, uma mulata – na documentação, dá para ver que era uma mulata clara – e teve um relacionamento com um homem branco. Na época, a Igreja não permitia o casamento entre pessoas tão diferentes, de origens tão diferentes.
Mesmo assim, Chica pertenceu a irmandades religiosas, certo?
No Tijuco, ela pertenceu às irmandades, inclusive irmandades de brancos. Morreu em 16 de fevereiro de 1796, sendo enterrada, com toda a pompa fúnebre, na Igreja São Francisco de Assis, da qual era uma das irmãs. É preciso chamar a atenção que tanto a Igreja São Francisco de Assis quanto a Igreja do Carmo, teoricamente, eram irmandades de pessoas brancas. Mas havia estas frestas, aí, de pessoas que conseguiam ascender, principalmente mulheres mestiças. Às vezes até negras, que acumularam pecúlio ou tiveram relacionamentos estáveis com homens brancos portugueses importantes.
Nas suas pesquisas, o que mais te fascinou na história de Chica e do contratador dos diamantes? O correto é dizer que Chica "encantou" João Fernandes ou foi seduzida?
Eu diria que Chica encantou o português, porque ele chega ao Arraial do Tijuco em agosto, e em dezembro a Chica já lhe pertence. Ele a alforria e em abril do ano seguinte já nasce a primeira filha dos dois, a Francisca de Oliveira. Então, eu acho que Chica encantou o João Fernandes. Ele tinha uma promessa de casamento, já feita em Mariana, de onde era originário, que não foi cumprida e acabou. Não sei o porquê disso, se essa pretendente morreu, como é que houve a desistência. Sei que houve essa desistência e que foi assinado o contrato de promessa de casamento, que nunca chegou a acontecer. Seria com a descendente de uma fazenda vizinha à do pai dele, perto de Mariana, no distrito de Mariana. Era uma órfã, da qual o pai do João Fernandes, também João Fernandes de Oliveira, era tutor.
Ser contratador dos diamantes, nos tempos coloniais, significa ter muito poder?
Sim. Ser contratador era ter o contrato da riqueza mais importante do império português, que poderia ser monopolizada por uma única pessoa ou por uma empresa. Então, o contratador dos diamantes, na verdade, representava uma sociedade – não um único indivíduo, mas uma sociedade de indivíduos, e o contratador era o indivíduo que fazia cumprir as regras do contrato. O contrato tinha exatamente esse nome, porque era estabelecido um contrato de exploração periódico, com durabilidade média de quatro anos, entre a Coroa portuguesa e essa sociedade de indivíduos. Primeiro, o João Fernandes, pai, é quem vai ser o contratador. Depois, vai embora para Portugal e vai ser o arrematante principal, o investidor principal depois de se enriquecer com os primeiros contratos.
E assim João Fernandes, filho, entra nesta história e vem para Minas...
João Fernandes, pai, manda o filho dele, o desembargador João Fernandes de Oliveira, que tinha se formado em Coimbra e era desembargador da Relação do Porto. Ele vem para Minas Gerais para assumir este contrato, em 1753, e fica aqui até 1770, quando vai embora para disputar, com a viúva de seu pai, madrasta dele, a herança paterna. No ano seguinte, impossibilitado de voltar, o Marquês de Pombal cria o Monopólio Régio dos Diamantes. É criada uma empresa estatal e, a partir daí, acaba o período dos contratadores, tendo início o chamado Monopólio Régio da extração dos diamantes, uma empresa régia criada para extrair os diamantes a partir de então.
O que a motivou a escrever o livro "Chica da Silva e o contratador dos diamantes – O outro lado do mito"? Como foram as pesquisas até chegar a esse “outro lado do mito”?
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Diamantina estava em campanha para se tornar Patrimônio Mundial (título conquistado em 1999), e havia um interesse da prefeitura local em abrir uma exposição sobre a Chica da Silva, na casa da Chica da Silva, que estava vazia. Então, eu me ofereci para fazer a pesquisa, acreditando que faria apenas uma pesquisa sobre o que se escreveu sobre a Chica da Silva. Mas logo no primeiro dia de pesquisa, no arquivo do bispado de Diamantina, encontrei os registros de nascimento dos 13 filhos da Chica da Silva e mais outro. E isso me motivou a escrever, porque aí se configurava uma personagem muito diferente da que estava imortalizada na literatura. O que faço, no livro, é tentar ver a Chica da Silva como um tipo social, a mesma coisa o João Fernandes, que foram, até certo ponto, comuns em Minas Gerais, e, com eles, contar a história tanto do Arraial do Tijuco, da demarcação de Diamantina, dos contratos de diamantes como também a biografia de um homem branco, português, que vai ter um longo relacionamento com uma mulher de cor, escrava, e o destino tanto dessas figuras quanto da sua descendência. Assim, mostro que, na verdade, a pseudodemocracia racial no Brasil, não tem nada de democracia racial, não é igualar os negros aos brancos, mas, sim, branquear os negros para que eles possam se inserir no universo dos brancos.