Quero um copo d’água
"(...)isolamos ao máximo aquele que ficaria feliz ao receber nossos restos, comprar nossos jornais, trocar um dedo de prosa"
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A campainha fez parte da minha infância. E foi marcante a ponto de ser nome de brincadeira. Juntávamos os interessados em azucrinar a vida de toda a vizinhança, incluindo nossas casas. Revezávamos na liderança da contravenção e, enquanto um de nós mal tocava a campainha insistente e rapidamente, os demais covardemente iniciavam a debandada.
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Minha mãe era uma das que xingavam e eu ingenuamente acreditava que, nem de longe, ela seria capaz de imaginar quem estava por trás de tamanha ousadia. Ríamos de nossos pais e eles de nós.
Hoje sei que permitir essa brincadeira nos mantinha no radar familiar, naqueles tempos em que vagávamos em bando pelas ruas do bairro, sem localizadores capazes de denunciar e monitorar cada um de nossos passos. O homem do saco não passava de fraca figura mitológica, tanto para uns quanto para outros. Sensação de liberdade, falta de medo assim como de planos além dos que se apresentavam no momento.
A campainha era tocada por tantos outros. Pedintes a maioria. Tem resto de comida? Jornal e garrafa de vidro pra vender? Quem sabe lavagem para os porcos? Aos domingos, campanha do quilo valendo qualquer coisa, até caixa de fósforo. Às vezes sim, às vezes não.
Lá em casa o que sempre tinha era um copo d’água. Água, dizia minha mãe, a gente nunca nega. Da talha, do filtro, gelada no jarro encardido de plástico servida em um copo de vidro qualquer. Era o que se bebia. Hoje ela é mineral ou expelida por purificadores que, além de filtrar, enchem o recipiente de partículas capazes de concentrar a tabela periódica em gotas. Também gelam e são capazes de aproveitar a manobra e descartar pedras cúbicas cristalizadas.
Era tão mais simples quando a água da torneira não era tão bem tratada como hoje, mas, ainda assim, saudável. Por que complicamos tanto? Sequer temos campainha mais, isolamos ao máximo aquele que ficaria feliz ao receber nossos restos, comprar nossos jornais, trocar um dedo de prosa.
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Nossa água agora vem até em latinha sofisticada, gaseificada, bota (des) valor agregado nisso, muito mise en scene e pouco mise en place. E crianças na rua? Elas sequer atravessam de mãos dadas aos seus adultos, de uma calçada a outra, em frente às suas casas vigiadas. Temos sede de quê?