De mãos dadas com a arte
Priorizando a cultura brasileira, a Auá se inspira em obras de artistas mineiros
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Na contramão das tendências e sempre flertando com a cultura e a arte, a Auá completou 23 anos e sintetiza o sonho de Patrícia Guerra de ter uma marca autoral. O nome, escolhido após muita pesquisa, significa gente em tupi antigo e direciona o trabalho desde o início.
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A Auá é também o resultado do convívio estreito da família com o universo artístico, das várias experiências da estilista no mercado – após passagens pela Renato Loureiro e pela Patachou –, e de um gosto particular que foi se sedimentando com o passar do tempo.
Começou timidamente com uma coleção de camisetas e uma linha home inspirada na cultura indígena voltada para o consumidor final e comercializada em galerias de arte para um público bem específico.
Patrícia, com formação em artes gráficas pela FUMA, e seu marido Paulo Coelho, sócio no projeto e colaborador por longos anos de Amilcar de Castro, sempre estiveram colados nesse universo. “O Paulo é colecionador, tem uma coleção enorme de objetos indígenas, com plumárias, cestaria, bancos, e tudo isto se tornou uma referência para nosso trabalho, particularmente no nosso início”, revela.
O negócio prosperou e as primeiras lojas foram abertas em Arraial D’Ajuda e em Trancoso, destinos que já atraíam turistas brasileiros e internacionais, como relembra Clarissa Guerra, uma das filhas do casal, que, na época, ficou responsável pela empreitada. A empresa, um negócio familiar, conta ainda com Laura Guerra, formada em design de moda pela Fumec, que divide o estilo e desenvolvimento de produtos com a mãe.
“Temos um atelier no qual as ideias são testadas em função da execução e da qualidade das roupas”, pontua Patrícia. Com o passar do tempo, a parceria com artistas foi se incorporando ao DNA da Auá. A exploração de estampas criadas a partir dessas obras se tornou um dos pontos principais para dar personalidade à marca.
Amilcar de Castro, Fernando Lucchesi, Jayme Reis, José Alberto Nemer já levaram suas criações para a moda, com sucesso. “Todos são muito amigos e generosos, a gente acompanha a trajetória deles, fazem parte da nossa história”, ressalta Patrícia.
A atual coleção, que pode ser conferida até 6 de outubro, na CasaCor Minas, destaca Marcos Coelho Benjamin, um homem multifacetado: pintor, escultor, design gráfico, design de joias, ilustrador, cenógrafo, cartunista, ele é um dos nomes mais significativos do mercado de artes visuais brasileiro.
O trabalho está dividido em duas partes: Anoitecer, com tons mais fechados, e Amanhecer, com cores bem vivas. Apesar do estilo da Auá agradar um time de mulheres específico – arquitetas, psicanalistas,
artistas –, Clarissa, que sempre traz seu olhar apurado e intuitivo para o negócio, percebe que as preferências não se restringem a um público nichado. “Vejo todo o tipo de mulheres interessadas nas peças nas lojas. Tem para quem gosta dos estampados e para quem aprecia os lisos”, assegura.
Mas é inegável que a marca tem atributos singulares, já que não se prende às tendências da moda. Os shapes são atemporais priorizando detalhes na modelagem, um estilo urbano e cool, fácil de usar e confortável. Isto se reflete, sobretudo, na preocupação com as matérias-primas, entre elas o linho, o algodão e os tecnológicos com texturas e toques especiais.
Aprendizado
Antes de criar a Auá, Patrícia passou por experiências positivas em duas marcas de prestígio: Renato Loureiro, comandada pelo estilista homônimo, e a Patachou, de Terezinha Santos. Com o primeiro, aprendeu o segredo de uma boa alfaiataria e como manejar tecidos planos. “Eu fazia a ponte entre a agência de produção gráfica em que trabalhava e o Renato. Certo dia, fui convidada para ser assistente dele. Eu argumentei que não era da área e ele respondeu que precisava exatamente de uma pessoa com um olhar de fora. Aceitei”. Foram oito anos por lá.
E mais oito anos na Patachou, em uma época áurea de grandes eventos, desfiles no Morumbi Fashion/São Paulo Fashion Week. Especificamente, a estilista lembra do desfile em que a marca homenageou Amilcar de Castro, em que ela foi responsável pelo contato com o artista, seu amigo. “As roupas eram inspiradas na geometria da obra dele, vestidos com decotes quadrados e triangulares, usei muito corte e dobra, a sombra e a luz do neoconcretismo, tons alusivos à textura do ferro, material usado por Amílcar”, recorda.
Segundo Patrícia, tudo isto foi muito importante para sua formação. A possibilidade de integrar um time de criação em empresas conceituadas, viajar para a Europa duas vezes por ano, fazer cursos com personalidades, como Marie Rucki, diretora do extinto Studio Berçot, de Paris, contribuíram para seu aprimoramento. “Mas sempre alimentei o desejo de ter uma marca que falasse comigo, que trouxesse a cultura brasileira para a moda”, completa.
CasaCor
Quando aceitaram participar da CasaCor, Patricia e as filhas pensaram que seria interessante ocupar esse espaço de visibilidade, investindo no trio arquitetura, moda e arte. O ambiente Galeria Auá, criado por Fernando Godoy – o mesmo que assina as duas lojas da marca – e um dos agraciados pelo Prêmio Estado de Minas de Arquitetura e Design de Interiores 2026 na categoria Revelação, procurou traduzir o clima de um atelier, misturando de peças pequenas à esculturas gigantes de Benjamin.
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O azul, tema recorrente da sua obra, está presente nas paredes e no mobiliário contrapondo com as araras das roupas da coleção. Ampliando o projeto, na última quinta-feira a Auá promoveu uma palestra com Benjamin e, logo após, recepcionou seus convidados na galeria.