A geriatra Mônica Campanha diz que viver mais de cem anos já é normal e que agora o foco é ter independência para viver a longevidade. Autora do livro "Decisões que Transformam: uma jornada para a longevidade", Mônica sempre gostou de trabalhar com pessoas mais velhas. Foi atendendo idosos como fisioterapeuta – sua primeira profissão, que percebeu que queria mais para atender os pacientes em sua totalidade. Foi então que decidiu fazer medicina para ser geriatra. Atualmente, tem uma clínica e criou o programa Alpes que olha o paciente por inteiro, e ressalta a importância do equilíbrio em todas as áreas: corpo, mente, alma e espírito.
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Uma das principais mudanças que as pessoas precisam ter é saber que o geriatra é um gestor da saúde, cuida do todo para um envelhecimento saudável. A maior parte das doenças do envelhecimento são construídas muito antes dos 60 anos.
Por que a geriatria?
Era fisioterapeuta e já me interessava pela área de envelhecimento. É um dom. Especializei em saúde e envelhecimento. No Posto de Saúde trabalhava com um médico que me incentivou a fazer medicina, porque na fisioterapia você chega até um ponto, mas não pode medicar. Esse foi meu ponto de virada. Já era casada e tinha três filhos quando fiz medicina para ser geriatra e fui muito desencorajada, e até hoje, na minha profissão sofro o etarismo. As pessoas têm vergonha de falar que vão ao geriatra, dizem que vão ao clínico, elas associam o geriatra a um médico de idoso frágil. E não é.
Doenças do envelhecimento começam cedo?
Sim. Artrose, osteoporose, hipertensão, diabetes, depressão, a tão temida demência são fragilidades que não começam da noite para o dia. São crônicas e processos que quanto antes prevenirmos, melhor. Temos que pensar e ir ao geriatra antes.
Qual a idade ideal para procurar um geriatra?
Eu atendo a partir dos 40 anos. O foco não é se vamos viver muitos anos, isso já é uma realidade, existem mais de 136 mil centenários no Brasil e a expectativa é de um aumento de 67%. A questão é que esses 12 anos a mais que estamos ganhando são de doença, mas temos de ganhar anos de vida, então o foco tem que ser em viver o mais tempo possível com independência. Quanto mais tempo pudermos morar, cozinhar, caminhar, tomar banho, sair sozinhos, melhor. Para isso, temos que cuidar da saúde desde cedo, é a prevenção. Eu acredito que aos 40 é momento de parar e ter consciência que vai envelhecer e ver para onde o seu caminho está te levando. Olhar sua história familiar, ver o que está fazendo e o que está deixando de fazer. Hoje você não dorme bem e não liga, se continuar assim, na menopausa estará hipertensa. É preciso ter um momento para alinhar a rota.
E se essa idade já passou?
Antes tarde do que nunca. Claro que existem muitos exames e vacinas que precisam começar aos 40, os 50 é o limite. Encara que vai ficar velho e acha isso bom. Se tem uma mãe com Alzheimer, já começamos a monitorar a parte cognitiva. Mas é melhor que seja aos 60, 70 ou aos 80 anos. Tenho um casal de pacientes que começaram depois dos 85. Estão fazendo atividade física com um personal que eu indiquei e são outras pessoas.
O Alzheimer é uma preocupação geral, não é?
Sim, mas nem tudo que parece, é. Outros fatores causam esquecimento e não é Alzheimer necessariamente. Sabia que desidratação causa esquecimento? A perda auditiva na meia idade aumenta muito o risco de Alzheimer. As pessoas ficam com uma preocupação com relação ao fator genético, mas menos de 10% das demências são por genética. Ter um familiar de primeiro grau com Alzheimer aumenta o seu risco de 3 a 4 vezes, mas, hoje, as demências são majoritariamente pelo estilo de vida. O último estudo do Lancet traz 14 fatores de risco que se controlarmos ou modificarmos ao longo da vida podemos evitar ou minimizar a possibilidade da demência. Entre eles estão depressão, isolamento social, escolaridade, colesterol LDL, hipertensão, diabetes, audição, visão, obesidade, traumas da cabeça, poluição, sedentarismo. Se você controla esses 14 fatores, reduz em 45% o seu risco de Alzheimer.
E as quedas?
Este é outro problema. Se o idoso caiu uma vez, vai cair de novo. Tem que descobrir a causa, porque existem as causas intrínsecas e extrínsecas. As extrínsecas são “mais óbvias”, uma luz ruim, piso ruim, calçado inapropriado etc. As intrínsecas é um medicamento que causa tontura, uma visão ruim, desidratação que provoca queda. Caiu, resolve a consequência imediata e investiga a causa da queda. E ficar acamada causa sarcopenia.
E o excesso de medicamentos?
Isso é sério e complicado, é a polifarmácia. A pessoa que não vai a um geriatra procura médico de várias especialidades. Cada um olha sua parte e passa um ou mais remédios. A polifarmácia é quando a pessoa usa mais de quatro medicamentos, é algo que prejudica muito a saúde. O papel do geriatra é tirar remédio. Nós organizamos as medicações porque às vezes um medicamento não conversa com o outro e acaba causando outros sintomas que a pessoa pensa que é outra doença, e não percebe que se trata de reação aos medicamentos. Então procura outro especialista e passa a tomar mais um remédio. Na maioria das vezes os pacientes que chegam aqui tomam muita coisa que não precisam e deixam de tomar o que é necessário. O geriatra organiza tudo isso. O erro é achar que tudo é coisa da idade. Isso tem que parar, é possível resolver tudo. Se ficar dando um jeitinho aqui e outro ali vira uma bola de neve. Sempre é tempo de fazer diferente.
Qual a importância do convívio social?
É muito importante, traz alegria para a vida. Por isso, quando a pessoa começa a perder a audição ela tem que colocar um a parelho, porque sem escutar o caminho é o isolamento social, depois a depressão e depois a demência.
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O geriatra é o especialista de tudo?
Ele é um gerente da saúde. A medicina ainda é muito curativa. Esse olhar de promoção de saúde e prevenção eu trago da Fisioterapia. É um trabalho diferenciado do geriatra, organizar tudo pensando lá na frente. É importante saber que o idoso não é um adulto velho, assim como a criança não é um adulto pequeno. O metabolismo do idoso é diferente, a proporção de músculo e gordura em um idoso é diferente e isso muda tudo porque a maior parte dos medicamentos tem atração por gordura. O geriatra conhece todas essas propriedades da fisiologia do idoso.
O importante é encarar bem o envelhecimento?
Sim. Tem uma neurologista de Yale que influenciou muito no meu trabalho, Becca Levy. Ela escreveu o livro Coragem de envelhecer e comprova cientificamente que quem acredita que envelhecer só tem coisas ruins, envelhece pior. Na prática eu vejo isso. Ter um olhar positivo em relação ao envelhecimento faz a pessoa envelhecer muito melhor, não só porque cuida da saúde, mas nas questões cognitivas, é uma pessoa que quer se manter ativa. Fazem isso de maneira intuitiva.
Como é o seu programa para o envelhecimento saudável?
Ele se chama Alpes – Assessoria para Longevidade e Planejamento do Envelhecimento Saudável. É um acompanhamento ao longo de seis meses de gerenciamento de saúde. Criei há cerca de cinco anos, por causa do trabalho com os aluns do curso de medicina da PUC onde eu dou aula. Os alunos têm que acompanhar os pacientes então eu marcava com eles mensalmente lá, e esse compromisgerou excelentes resultados. Percebi que esse compromisso comigo é que fez toda a diferença, emtão criei o programa. São três consultas de avaliação, metas, objetivos, organização de remédios e vamos por etapas. Depois estudamos, individualmente, como será o Alpes de manutenção. A volta pode ser semestral, anual, vai depender.
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Você fala da importância da espiritualidade
Desenvolver a espiritualidade ao longo da existência e durante o envelhecimento não é uma questão de conforto emocional, a ciência mostra que quem tem a espiritualidade desenvolvida envelhece melhor. Valores que afetam a saúde vem da espiritualidade como o perdão, resiliência, capacidade de lidar com conflitos, perdas, dores. Desenvolver a espiritualidade independente da religião é a cereja do bolo. n
