Luxo exclusivo
Semana de alta-costura de Paris apresenta coleções do seleto grupo que detém este título no mundo
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Atualmente, não são poucos os releases que recebemos de marcas brasileiras – de alta qualidade, diga-se de passagem – afirmando que se trata de alta-costura. Que fique claro aqui, não existe nenhuma grife nacional neste rol. E para evitar este engano vamos esclarecer o que qualifica ser alta-costura.
Alta-costura é a criação artesanal de roupas exclusivas e sob medida, usando os melhores materiais e técnicas complexas. O termo é protegido por lei na França e regulamentado pela Fédération de la Haute Couture et de la Mode (antiga Chambre Syndicale de la Haute Couture). Os critérios oficiais e rigorosos para uma marca receber esse título incluem:
Manter um ateliê em Paris que empregue pelo menos 15 a 20 funcionários técnicos em tempo integral (Atualmente, já são aceitos atelies em outros países, desde atendam todos os critérios e recebam a chancela da Federação); confeccionar as peças à mão e sob medida, exigindo provas de roupa exclusivas para clientes particulares; apresentar duas coleções por ano (em janeiro e julho) com no mínimo 25 a 50 looks originais por temporada.
Para proteger ainda mais a excelência, as marcas passam por um processo de quatro anos como membros convidados antes de obterem o reconhecimento oficial. Embora no início os critérios exigiam que a alta-costura só usasse costura feita à mão, a Fédération de la Haute Couture et de la Mode passou a permitir o uso de máquinas em até 30% da produção da roupa para garantir a força e a simetria de costuras internas, focando o trabalho manual onde ele é insubstituível.
A máquina de costura é aceita em costuras longas e retas que unem grandes painéis de tecido; na junção de entretelas rígidas e forros estruturais em paletós ou casacos masculinos e femininos e na fixação inicial interna de zippers para posterior acabamento embutido à mão.
Todo o resto é feito à mão, como bainhas invisíveis, cerzidos, caseados de botões e costuras de bordas delicadas, bordados e aplicações e a modelagem tridimensional (Moulage) quando o tecido é moldado, cortado e alinhavado diretamente sobre o manequim personalizado com as medidas exatas da cliente. A máquina de costura é vista pelas maisons como uma ferramenta de precisão e resistência técnica, enquanto as mãos dos artesãos (as famosas petites mains) conferem a maleabilidade, leveza artística e exclusividade que definem a alta-costura.
Marcas que fazem parte do clube a alta-costura de Paris: Chanel, Dior, Schiaparelli, Jean Paul Gaultier, Maison Margiela, Giambattista Valli, Alexis Mabille, Stéphane Rolland, Julien Fournié, Adeline André e Franck Sorbier. Em outros países (Itália e Líbano): Giorgio Armani Privé, Valentino, Elie Saab, Fendi Couture, Atelier Versace. Membros Convidados: Balenciaga (que retornou com destaque à alta-costura sob a direção de Pierpaolo Piccioli), Iris van Herpen, Ashi Studio, Aelis, Manish Malhotra (estilista indiano estreante na temporada) e Standing Ground.
O estilista mineiro Gustavo Lins foi o único brasileiro a alcançar esse feito na história da moda. Com sua marca Atelier Gustavolins sediada na capital francesa, foi aceito como membro convidado em 2006 e promovido a membro oficial permanente em 2011, participando do calendário rígido até meados de 2010.
Outono Inverno 2026 - A Semana de Alta Costura recebeu uma injeção de energia nas últimas temporadas: em janeiro, Matthieu Blazy e Jonathan Anderson fizeram suas estreias no segmento na Chanel e na Dior, respectivamente. Juntando-se a eles para o outono/inverno 2026, Pierpaolo Piccioli, na Balenciaga, e Duran Lantink, na Jean Paul Gaultier, apresentaram suas coleções de abertura de alta-costura em suas respectivas casas. Ambas as coleções foram releituras vibrantes e contemporâneas da arte histórica – a alta-costura exige que as peças sejam feitas à mão, de acordo com os contornos específicos do corpo de cada cliente – com silhuetas ousadas, construção arquitetônica e, no caso de Piccioli, um uso livre das cores.
DIOR - Jonathan Anderson buscou inspiração na escultora americana Lynda Benglis. Em particular, em seu processo de "amarrar, pregar e moldar", que inspirou as silhuetas fluidas e abstratas da coleção – de vestidos plissados esvoaçantes e chapéus metálicos a saias coladas que faziam referência à obra Georgia on My Mind (de 2018, Benglis moldou papel brilhante sobre estruturas de tela metálica). Outra referência foi sua série Zanzidae: Peacock, inspirada nos pássaros que ela observou durante sua estada na propriedade da família Sarabhai em Ahmedabad, Índia, na década de 1970. Remetendo a leques cerimoniais, as obras vibrantes foram reimaginadas em vestidos de seda amassados, adornados com flores e miçangas aplicadas.
Schiaparelli - Sua coleção Outono/Inverno 2026 teve origem em uma viagem a Barcelona para visitar as obras de Gaudí e, embora tenha tido influência das formas surreais do arquiteto espanhol, Roseberry relutou em restringir a coleção a temas preestabelecidos. Em vez disso, encontrou seu ritmo criativo ao entrar no que chama de "o vazio" – um espaço de criatividade e experimentação irrestritas – o que o conduziu aos reinos desconhecidos do espaço sideral. Assim, o convite foi um tentáculo, fundido em metal; na coleção, o motivo do tentáculo inspirou uma jaqueta de látex com antenas salientes, enquanto detalhes de superfície com babados, espinhos e muitas miçangas remetiam às criaturas marinhas alienígenas que habitam as profundezas mais escuras do oceano. E, assim como essas criaturas emitiam seu próprio brilho, alguns looks foram equipados com sistemas de iluminação embutidos, o tipo de truque fantástico e imaginativo que continua a encantar a dedicada clientela de alta-costura da maison.
Chanel - A segunda coleção de alta-costura de Matthieu Blazy para a Chanel começou com a descoberta de um livro de contos de fadas na biblioteca da fundadora da maison, Gabrielle 'Coco' Chanel. O volume encadernado em couro serviu de acessório para o primeiro look da coleção, segurado pela modelo, e usado por Blazy como ponto de partida para peças que faziam referência a contos de fadas da infância – do Gato de Botas a João e o Pé de Feijão.
Jean Paul Gaultier - O estilista holandês Duran Lantink apresentou seu primeiro desfile de alta-costura na maison, após ter apresentado duas coleções prêt-à-porter na Semana de Moda de Paris nas últimas temporadas. Inesperado e ousado. Modelos que dividiram opiniões. Formas disfórmicas, cores, e modelos que mais pareciam uma coleção pret-a-porte e, termos de estilo.
Stéphane Rolland - Rolland trabalhou com crepe, gazar, chiffon, organza e cetim para suas criações. Um vestido bustiê em macramê de cetim branco apresentava uma sobre-saia de organza branca franzida e penas de avestruz brancas. Outro vestido longo era de crepe de cetim plissado bordado com cabochões de ágata cinza e cristais. Também havia capas, pareôs longos e casacos. As silhuetas variavam de estruturadas e esculturais a fluidas. Formas onduladas eram abundantes. As joias continham pedras preciosas, incluindo diamantes amarelos e negros. O espetáculo emocionante terminou com uma apresentação surpresa da cantora tunisiana Oumaima Taleb, acompanhada por uma orquestra ao vivo regida pelo maestro egípcio Hany Farahat. Rolland dividiu o microfone com Taleb no final.
Armani - Silvana Armani não esconde seu amor por calças, que ela considera práticas e confortáveis, e foram o destaque de sua coleção, a segunda que ela desenhou sozinha após a morte de seu lendário tio em setembro passado. Ela gosta delas em cetim pesado ou veludo. Algumas vinham com um franzido extra de tecido na perna esquerda da calça. Os conjuntos de calça e blazer para a noite predominaram, com jaquetas alongadas e de corte masculino ou mais curtas, em formatos blusão mais esportivos, com diferentes graus de ornamentação. A paleta de cores também foi destaque, uma mistura rica e iridescente de verdes, marrons, vermelhos amaranto e azuis da meia-noite que eram encantadores. Um casaco de veludo preto com manchas de azul crepúsculo causou uma ótima impressão.
Balenciaga - O début de Pierpaolo na couture foi ótimo, boa parte das peças e materiais são leves e cheios de movimento. Como esperado, ele retomou o que faz melhor: uma moda exuberante, com combinações de cores excepcionais e silhuetas marcantes. A releitura de itens emblemáticos do arquivo ainda é uma tentação irresistível, mas melhor contextualizada na edição final. Sem interferências de apelo pop e mercadológico, o foco é na engenharia e construção de cada item: do tecido à maneira como ele cobre, ressalta ou revela o corpo.
Elie Saab - Saab aventurou-se em um território mais teatral com o Baile de Máscaras, uma coleção que fundiu sua elegância característica com fantasia surrealista, transformando a passarela em um baile de máscaras encantado onde a alta-costura confundiu a linha entre realidade e imaginação. Intitulada "Baile dos Sonhos Indomáveis", a coleção foi inspirada na arte surrealista e nesses bailes, como o nome já diz. Imaginou figuras misteriosas emergindo das sombras, com vestidos que se transformavam em nuvens, flores, cisnes e outras formas oníricas. O resultado foi uma das apresentações mais teatrais da temporada, sem perder o glamour atemporal que é sinônimo do estilista libanês.
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Viktor&Rolf - Através de Gilded Age, a coleção explora a tensão entre opulência e sobriedade. Apresentado como uma performance teatral, o desfile reflete sobre as aparências, a fragilidade humana e o poder duradouro da moda em criar mundos que transcendem as passarelas comerciais. Intitulada de "Era Dourada" (Gilded Age), transformou a passarela em uma performance que explora a tensão entre austeridade e decadência, disciplina e opulência. A coleção é construída em torno de duas forças opostas. Embora as silhuetas permaneçam idênticas, sua materialidade muda drasticamente: de um lado, tecidos preciosos e bordados dourados; do outro, juta crua e materiais austeros. Através desse contraste, Viktor&Rolf examinam a relação entre o que escolhemos revelar e o que se encontra sob a superfície. n