De volta aos holofotes
Com bordados, aplicações, moda praia e streetwear, Rio Fashion Week coloca o Rio de Janeiro de novo no calendário da moda nacional
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O Rio de Janeiro continua lindo e permanece sendo palco de moda autoral, criativa e tropical. O retorno da semana de moda Rio Fashion Week (antes chamada de Fashion Rio, que passou por um hiato de quase uma década) veio para mostrar que a capital carioca tem muito mais que paisagens e boa música – é também um reduto fashion.
Realizado entre os dias 14 e 18 de abril, o evento reuniu 20 marcas, incluindo nomes emblemáticos da cidade, como Osklen, Lenny Niemeyer e Isabela Capeto, que apresentaram suas coleções de verão 2027. Destaque também para duas presenças mineiras: Hisha e Apartamento 03.
Mães e filhas
A grife Isabela Capeto apresentou a primeira coleção assinada por mãe e filha. Chica Capeto se uniu à figura materna e fundadora da marca, Isabela Capeto, para retornar às passarelas – há nove anos, a marca não desfilava.
Paetês, transparência, babados, aplicações volumosas, estampa de insetos, xadrez, sobreposições, texturas… São muitas as informações trazidas pela dupla, que é conhecida pelo trabalho maximalista – e aparentemente pretende seguir nessa linha.
Referência na moda praia, Lenny Niemeyer também apresentou uma coleção assinada por mãe e filha: Lenny e Bel, respectivamente. No desfile que fechou a semana de moda do Rio de Janeiro, a dupla olhou para a história da marca, com looks já apresentados ao longo dos 35 anos de existência – algumas peças eram originais.
Garota de Ipanema
Quem roubou a cena na participação da BlueMan, também referência em moda praia, foi Helô Pinheiro, musa inspiradora da música “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Aos 82 anos, ela abriu o desfile da marca, seguida de um vendedor de mate e outras figuras tradicionais das praias cariocas.
A própria paleta de cores da coleção, muito pautada pelo azul, verde e amarelo, mostrou-se uma verdadeira homenagem ao Brasil.
Quem se inspirou na Praia de Ipanema, propriamente dita, foi a Osklen, afinal, é onde mora o seu fundador, Oskar Metsavaht. A alfaiataria foi destaque na coleção – vestiu Carol Trentini, que abriu o desfile –, e apareceu em linho e tecidos fluidos. A marca se mostrou carioca, mas, acima de tudo, urbana, natural e espontânea.
Palco do carnaval
A Misci desfilou sua coleção em plena Marquês de Sapucaí e ao som da bateria da Beija-Flor de Nilópolis. Muitos bordados e volumes escancaram a inspiração carnavalesca da marca, que ainda mirou na figura da cantora Gal Costa.
Materiais inusitados
Helô Rocha, em sua coleção de verão 2027, embarcou em outra dimensão com modelagens que parecem ter sido tiradas de livros. Seja mais para princesa, deusa grega ou guerreira, a mulher que a marca se propõe a vestir é, inegavelmente, autêntica e forte.
Um ponto de destaque da coleção são os materiais, tanto os que compõem as roupas quanto os acessórios. Nas roupas, foram usados tecidos garimpados – inclusive manchados. Nos acessórios como cintos e colares, talheres foram usados em alguns dos penduricalhos.
DNA de Minas
Esta foi a primeira vez que a mineira Hisha desfilou uma coleção. Especializada em bordado, a marca traduz bem a linguagem em voga no mundo fashion atual: do feito à mão.
“O bordado, para mim, é o ponto de partida e também o ponto final de tudo. Comecei como bordadeira da marca, então a minha relação com o bordado é muito íntima, muito cotidiana. Ele não entra como detalhe ou acabamento, ele é linguagem, estrutura e DNA da marca”, explica Giovanna Resende, diretora-criativa da Hisha. Hoje, a produção conta com 200 artesãs, o que reforça o compromisso com essa arte manual.
As peças apresentadas são fluidas – por vezes com transparência –, repletas de miçangas e com pegada mais boho, que dialoga bem com o público jovem que prestigiou em peso o desfile. Apesar do toque moderno e atual, a Hisha se inspirou no barroco e na cidade natal de Giovanna, São João del-Rei (MG), para desenvolver a coleção Doura.
“O barroco não aparece como uma citação literal, ele aparece como linguagem. Para mim, atualizar esse tema passa muito mais por deslocar os códigos do que reproduzir formas. A gente traz o excesso, o contraste, a dramaticidade, a profundidade, mas traduz tudo isso dentro de uma construção contemporânea”, destaca.
Alfaiataria nada básica
Outra grife mineira que marcou presença na semana de moda carioca foi a Apartamento 03. A alfaiataria brilhou com aplicações e bordados na coleção inspirada em Clarice Lispector, mais especificamente em Macabéa, personagem principal da obra “A Hora da Estrela”.
Diferentes tecidos, como uma linda renda repleta de paetês e com pérolas nas barras, e aplicações pontuais de miçangas e flores de tecido chamaram a atenção na passarela.
Uma estampa de boquinhas apareceu tanto em tecidos fluidos quanto em mais estruturados, no preto e no branco. A transparência, que dialoga com babados, volumes e texturas, também é uma aposta de Luiz Claudio Silva, diretor da marca. Os acessórios foram assinados pelo também mineiro Carlos Penna. n
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino