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Três décadas de um empreendimento é motivo de orgulho. Significa constância e primor de um trabalho de anos, validado, sobretudo, pelos clientes. E quem comemora justamente o trigésimo aniversário neste momento é a Atmo, multimarca belo-horizontina de Maria Clara Duca ao lado da sua parceira de sempre, a irmã Bernadete Bontempo.
Um passo importante na trajetória longeva da marca foi o rápido amadurecimento ao perceberem o necessário ao empreender. “Muita gente abre uma boutique pensando no seu próprio gosto. A gente entendeu que não era preciso fazer isso, eu não montei uma loja para o meu gosto individual, entendi o que o público estava precisando”, explica Maria Clara.
E o nicho encontrado foram os tamanhos maiores, naquele momento (anos 1995) pouco explorados e englobados pela moda. “Esse mercado da moda para tamanhos grandes era muito pouco explorado e a gente viu que tinha uma demanda do público. Assumimos esse risco sozinhas”, conta.
A Atmo foi a primeira loja de Belo Horizonte a atender com qualidade e estilo o público plus size das classes AB. Como diz o ditado, quem chega na frente bebe água limpa. Elas abriram este mercado, valorizaram as mulheres desse nicho, deram protagonismo a elas, e apesar de toda a dificuldade, fizeram sucesso. “Foi uma jornada extremamente motivadora. Passamos por muitos desafios. Trabalhar com tamanhos maiores foi mexer com muito preconceito”, conta Maria Clara.
As dificuldades a que nos referimos nesse processo, foi o trabalho que a dupla precisou fazer para convencer muitas confecções a produzirem peças em tamanhos maiores e demorou a chegar num resultado ideal em termos de escolha de tecidos e modelagem. Enquanto algumas colocavam obstáculos no início, outras faziam questão de atendê-las, mesmo tendo que parar a produção para fazer os tamanhos maiores.
A Atmo participou de vários Proação Fashion Day, o desfile da ONG O Proação, no qual desfilavam cerca de oito a dez marcas, algumas edições tiveram até mais, e foram muito discriminadas. Fotógrafos e jornalistas que cobriam o desfile falavam – sem preocupação de alguém ouvir – que não precisava fotografar aquelas roupas porque era das “gordinhas”.
Em uma das edições do evento, o produtor de moda Zeca Perdigão fez uma edição linda para o desfile da Atmo com kaftas maravilhosas, uma jornalista de moda cobriu o desfile, citou todas as marcas, menos a Atmo. Maria Clara ligou, na maior delicadeza para saber se ela não tinha gostado. A jornalista se desculpou, disse que se retrataria, mas nunca tocou no assunto.
Mas foram pessoas como as Maria Clara e Bernadete que abriram caminho para a aceitação e o respeito com as pessoas acima do peso, e para que hoje, todos os desfiles do mundo passassem a ter modelos plus size na passarela. Este mérito ninguém vai tirar delas.
Autoestima
O trabalho da Atmo ao longo desses anos foi essencial para muitas mulheres que vestem até o 52 e que não encontravam roupas que as valorizassem. “Várias mulheres me falam que nunca tiveram o prazer de ir em uma loja para escolher uma roupa, às vezes tinham que comprar peças em lojas masculinas. Imagina que tristeza para uma mulher não ter opção de escolha…”, destaca Maria Clara.
“Nós eramos duas meninas magras, cuidando de mulheres totalmente diferentes do nosso perfil. Tivemos um dom de criar empatia. As clientes chegavam tímidas e iam se sentindo à vontade. Perceberam que tinham duas empresárias que não estavam ali para julga-las, mas para atendê-las e ajudá-las, querendo o melhor para elas”, relembra.
Algumas clientes falavam que elas não tinham noção do bem que estavam fazendo. Uma disse que não saía de casa mais e declinava de convites, porque comprar roupa era uma frustração constante pois não encontrava nada.
Novo nicho
O resultado desse nicho encontrado e da atuação direta na autoestima de tantas mulheres foi positivo. A marca, que começou em uma sala no Bairro Lourdes, Região Centro-Sul da cidade, mudou para uma loja (na mesma rua) após dois anos de funcionamento, depois ampliou o espaço aglutinando outros dois imóveis ao lado. Já chegaram a ter, inclusive, um ponto na Avenida dos Bandeirantes, no Bairro Mangabeiras.
“Nos sentíamos muito felizes e realizadas, porque víamos que estávamos fazendo um bem. Somos de uma família grande, e nossos pais lutaram muito para dar estudo para os oito filhos, e queriam que fizéssemos concurso público. Vivi preconceito dentro da minha casa, ninguém era do comércio e minha mãe achava que só quem não dava certo na vida se tornava comerciante. O comércio só para ganhar dinheiro é muito frio de fato, mas min
Nova identidade
Por mais que a Atmo tenha se moldado por ser uma marca que atende mulheres que vestem numerações maiores, Maria Clara acredita que hoje seu público majoritário tenha um novo “rótulo”. “Hoje considero que a nossa clientela se destaque mais pela faixa etária. Somos uma loja que atende, sobretudo, mulheres com 50 anos ou mais”.
Nesse sentido, peças que “escondem” algumas características e valorizam outras são sucesso por lá. “Entendemos o que esse tipo de cliente gosta”, explica, tomando como exemplo as peças que não expõem tanto os braços, que são uma insegurança de muitas mulheres maduras.
Portfólio
A loja trabalha com numeração do 40 ao 52 e um amplo portfólio de peças, além de roupas. “A gente veste mulheres da cabeça aos pés. Trabalhamos também com sapatos, bolsas, bijuterias. É uma loja completa”.
Outro ponto que Maria Clara destaca é o processo de curadoria, que é minucioso. “Com tantos anos de marca, logo ao vermos uma peça já sabemos se vai vestir bem ou não”.
Nova marca
Maria Clara, além de celebrar os 30 anos da Atmo, comemora a realização de um sonho: o lançamento de sua marca de confecção própria. “Sempre tive esse sonho, de fazer uma roupa que não encontro pronta. Criei uma marca jovem, inovadora e minimalista”.
Assim, nasceu a Bontë. O nome vem do sobrenome da família Bontempo, que, acima de tudo, faz referência à mãe, Maria Bontempo. A marca trabalha com malha premium, com alta tecnologia, que “respira com o corpo, tem proteção UV e praticamente não amassa”.
A proposta é unir conforto e elegância, com peças com matéria prima e modelagem de extrema qualidade. “Esse tecido que usamos tem uma gramatura que fica ótima com alfaiataria”, completa.
A proposta de numerações entre o 40 e o 52 também está no conceito da nova marca. “Nunca abandono minhas clientes, tem algumas que me chamam até de fada madrinha”.
Por enquanto, as peças da Bontë estão sendo vendidas apenas na Atmo, mas em breve, serão comercializadas no site/e-commerce que abrirão.
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*Estagiária sob supervisão da editora
Isabela Teixeira da Costa