Além da roupa
Stylist mostra seu talento como diretora-criativa de campanhas de moda
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Muito mais que o look. Maria Cândida Vecchi, de 31 anos, reconhecida stylist de Belo Horizonte, vem expandindo sua atuação para a direção criativa de moda. Isso significa se envolver com todo o contexto de uma campanha, desde a escolha da locação, passando pela beleza dos modelos até o tratamento mais adequado para as imagens. Otimista, ela acredita que grandes marcas ainda precisam criar grandes imagens e que a inteligência artificial não vai acabar com a profissão.
De onde vem o seu interesse por moda?
Sempre fui uma criança muito criativa. Meu pai é artista plástico, a minha mãe é formada em história e artes plásticas e eles criaram juntos uma galeria de arte e molduraria. Então, cresci nesse meio de artistas, galerias, exposições e obras de artes. Sempre fui muito instigada a trabalhar com arte e cultura, só que moda nunca foi uma vertente notável em mim. Minha mãe tem forte influência na minha trajetória, ela tinha um estilo próprio, era muito autêntica, então isso me instigava a achar o meu estilo. Não gostava de estar igual a todo mundo. Junto com o meu fascínio por imagens, comecei a entender que poderia trabalhar com criação de narrativas. Quando entrei na faculdade, sabia muito pouco sobre a profissão de stylist, mas comecei a ajudar uma amiga na criação de uma marca, fazia cenografia, era modelo, montava os looks de todo mundo e dali foram surgindo outras demandas. Foi indo no boca a boca e comecei a trabalhar com styling sem concluir minha graduação. Aí tive uma matéria sobre produção de moda e comecei a me fascinar ainda mais por isso. Como não me contentava só com a roupa, vou fazer cenário, vou olhar locação, sempre foi o ponto alto do meu trabalho esse olhar para o todo. Não aprendi com ninguém, fui um pouco autodidata, de quebrar a cara, de me entender como stylist.
Como você se define hoje?
Sou stylist e diretora-criativa de moda. O styling está ligado a roupa, modelagem, textura, tecido, caimento, a química da união da roupa com os acessórios, a expertise de editar looks que se contextualizam com a proposta dada. Já o diretor-criativo de moda é a pessoa que pensa em todos os detalhes da campanha, a narrativa, o melhor cabelo, qual tratamento aplicar na foto, escreve uma história que une todos os pontos.
Uma campanha funciona sem uma dessas pessoas?
Não funciona. Não dá para trabalhar sem uma boa equipe. O meu trabalho é sobre equipe, tenho que unir forças com o time. Se um não fez o que estava combinado, afeta todo o resto. Não carrego um trabalho sozinha. Acredito na força da equipe, na troca, na sintonia, no coletivo. Tem que ter união de forças para que aquilo se torne emocionante e impacte o espectador.
O que esse trabalho exige de habilidades?
A primeira de todas é saber se comunicar, conseguir passar a mensagem para a equipe inteira e para o público final. Também acho que existe uma habilidade extracurricular de observação e sensibilidade, de reparar coisas não tão óbvias, entender as sutilezas das narrativas e unir todas as variáveis do nosso campo. Além de saber de tecido, você tem que entender um pouco de cada profissional. Quando sou diretora-criativa, pesquiso sobre fotografia, vídeo, como editar. Tenho que me desdobrar e tentar entender o contexto das outras áreas para conseguir concluir a direção criativa de forma mais certeira.
Fale sobre algum trabalho marcante.
Posso citar um recente, a campanha da marca Patogê com a Giovana Cordeiro, atriz da Globo. Foi a primeira vez em que fiz a direção criativa e não assinei styling. Foi bem desafiador e de grande aprendizado.
Como está o mercado de styling em BH?
Tenho uns 10 anos de mercado e peguei bem o início das redes sociais e o que elas fizeram com a imagem de moda, deram uma banalizada, profissionais foram desvalorizados. Mas acredito que grandes marcas ainda vão ter que criar grandes imagens, não vão conseguir se sustentar apenas com fotos pelo celular e campanhas sem profissionalismo. Ainda é preciso ter posicionamento e esse é o diferencial. Depois dessa onda das redes sociais, agora que as marcas estão voltando a criar fortes e boas imagens. Acho que moda tem o objetivo de marcar a história, não é só gerar uma imagem bonita. Quando olhamos para uma imagem de moda, entendemos um contexto, então acaba não sendo uma imagem só comercial, marca um tempo.
As tendências guiam o trabalho de styling?
Com certeza. Tendências não necessariamente são ruins, elas ditam o comportamento atual. Só acho que é importante para o profissional da moda não estar só preso a isso. Temos que entender o que o público quer, mas também temos que aguçar outros sentidos.
Como você enxerga o futuro da profissão?
A inteligência artificial (IA) está aí a todo vapor, criando imagens extraordinárias, mas acho que o trabalho muito mecanizado na moda vai acabar se diluindo com o tempo. Para além das imagens lindas que a IA está criando, acho que ainda temos que ter a mente humana pensando por trás, conectada com história e sentimentos. Talvez seja meio otimista da minha parte, o mercado está todo preocupado, mas, em se tratando de arte, nunca vamos ser substituídos. Precisamos da complexidade de sentimentos que só os humanos vão ter.