"Tem sido uma caminhada muito desafiadora, por não ter referências, por sempre questionar o status quo, mas me tornar referência para outras mulheres é o que mais me move." Lorena Lage L&O Advogados

crédito: Fábio Vimas/Divulgação

 

Se empreender no Brasil já é difícil, imagina para as mulheres. Exaustão, solidão e falta de representatividade são palavras que empreendedoras usam para descrever o que vivem no meio da tecnologia e da inovação. Mas esse espaço não vai ser só para lamentações. Mais que mostrar a realidade, queremos, na semana do Dia Internacional da Mulher, exaltar histórias de quem luta, não desiste e conquista seu espaço à frente de empresas criativas e inovadoras.

Um bom jeito de começar a primeira história é recorrer a Cazuza, na música “Exagerado”: seu destino foi traçado na maternidade. Filha de engenheiro mecânico e artista, Paula Mesquita, de 31 anos, cresceu entre as exatas e as humanas. E sempre teve um instinto empreendedor. “Quando percebia, estava no meio coordenando, querendo solucionar problemas, traçar estratégias e distribuir funções. Isso sempre foi muito natural.” Formada em engenharia civil, ela acabou criando um negócio e trabalha com arte.

Sua carreira começou como estagiária na área de estratégia de uma multinacional. No limbo entre o fim do estágio e a contratação, foi pintar quadros e abriu uma empresa. “Não tinha ideia do que estava fazendo, mas tinha excelente poder de convencimento. Convenci artistas a deixar quadros comigo e criei um e-commerce de obras de arte. Questionava por que a arte tinha essa dicotomia de ser exclusiva e inacessível ou popular e sem valor. Queria mostrar que poderia ser ordinária, para todo mundo.”

Paula conseguiu o emprego, mas não abandonou o negócio. Encarou uma exaustiva jornada dupla, foi aprendendo a empreender “na base do instinto e da porrada” e migrou de venda de obras de arte para produção cultural. Batendo de porta em porta, fez o primeiro projeto de grafite para um bar e não parou mais. Depois veio o contrato com a multinacional onde trabalhava (hoje sua maior cliente) e assim nasceu, em 2019, a Fábrica de Graffiti, com o formato que existe até hoje.

“Somos um projeto que humaniza ambientes industriais, sempre através da arte urbana, a arte mais democrática que existe”, aponta Paula. Por meio de leis de incentivo, a empresa desenvolve projetos de grafite para fábricas ou espaços de atuação das indústrias. O trabalho envolve curadoria artística, planejamento, estratégia, orçamento e cronograma de execução. No fim, forma e capacita jovens da comunidade, através de um curso próprio de grafite, para que se tornem novos artistas urbanos.

Depois de passar por uma situação extrema, Paula tomou uma decisão que impulsionou o negócio. “A mulher empreendedora encarna um espírito de super-heroína, de quem consegue fazer tudo. Você peita muitos desafios, mas se esquece do fator humano. Isso culminou em burnout, mas foi o que me fez ter coragem de sair do emprego.” Mais tarde, enquanto se recuperava de mais um episódio traumático (um golpe do ex-marido), teve forças para dar outra virada na sua vida de empreendedora.

Vida nova aos 30

Paula apostou todas as suas fichas (diga-se dinheiro e energia) no novo negócio, que ainda engatinhava. A empresa de adesivos decorativos Colado, que começou em um quarto de hotel em São Bernardo do Campo (SP), hoje tem sede no centro empresarial da cidade de São Paulo. “Me reinventei aos 30 anos e isso culminou em outra empresa. Me mudei para São Paulo, hoje temos escritório no melhor prédio da Avenida Paulista e vamos entrar em uma rodada de investimento de R$ 250 mil.”

Apesar das conquistas, a empreendedora enxerga que o fato de ser mulher impõe muito mais desafios. Paula já foi tachada de maluca, já ouviu gente se referir à sua empresa como “um negocinho”, já recebeu e-mail falando que ela “embelezava a reunião”, já recebeu como resposta: “não lido com mulherzinha”. De tudo um pouco.

“Falar de empreendedorismo feminino é falar de exaustão. Diariamente, somos descredibilizadas, então já temos que nos provar 10 vezes mais para mostrar que merecemos estar na posição que conquistamos. Sempre acham que algum homem é o responsável pelos projetos. Só descobrem que sou eu quando aparece o primeiro pepino. Ser mulher e ser nova é provar mil vezes que tenho capacidade intelectual. Se te acham bonita, então, você tem que provar que existe um cérebro por trás da capa.”

Na visão de Paula, cabe aos líderes acelerar os processos de mudanças. Por isso, ela sempre dá preferência para mulheres nas contratações. “Isso significa dar mais oportunidade e mais espaço para as mulheres. Se não existirem mulheres em cargos de liderança, não vamos mudar o cenário dos negócios. Enquanto os CEOs forem homens, brancos e héteros, vai ser muito difícil uma cultura organizacional abraçar genuinamente movimentos de apoio à igualdade de gênero, não só para cumprir tabela.”


Idade não é barreira

Aos 32 anos, Lorena Lage tem um escritório em Belo Horizonte referência em atendimento a startups e empresas de inovação, é especialista em contratos eletrônicos, criou e coordena o primeiro curso de pós-graduação em direito e tecnologia do Brasil e dá aulas nessa área. Muito nova para fazer tudo isso? Idade nunca foi barreira para a advogada. “Falo que a minha vida sempre foi muito intensa.”

Ela começou tudo muito cedo. Trabalha desde os 13 anos, buscando autonomia. Pulou da área de eventos para tecnologia, fez cursos de programação e desenvolvimento de software e passou a desenvolver blogs. Na dúvida entre psicologia e engenharia ambiental, acabou escolhendo direito, por influência de um teste vocacional. “Nunca tinha pensado nisso, não tenho advogado na família.”

O resultado não poderia ser mais acertado: Lorena se apaixonou pelo curso desde a primeira aula e fez estágios do início ao fim. Detalhe: passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) antes da hora. Em 2014, quando ninguém falava muito sobre tecnologia no direito, ela decidiu fazer o trabalho de conclusão de curso sobre contratos eletrônicos, ainda sem imaginar o rumo da sua carreira.

No último período da faculdade, foi contratada por um escritório de advocacia. Parecia um sonho, mas virou pesadelo. Em dois dias, Lorena percebeu que o trabalho não batia com os seus valores. Chegou em casa muito desestimulada e ouviu do pai: “Você tem um senso de justiça muito forte e não vai encontrar um lugar para trabalhar onde consiga manter seus valores, o mercado é cruel, então vai criar seu negócio. Assim, vai gerar impacto no mundo fazendo da forma como acredita.” Palavras sábias desse pai.

Um mês depois de formada, Lorena já estava à frente do escritório L&O Advogados, ao lado do namorado (hoje marido) e sócio Robert Oliveira.

“Doce ilusão achar que é fácil o caminho do empreendedorismo. Comecei a me desafiar, preparar o site, buscar ajuda sobre como conseguir clientes e, nos três primeiros anos, não tirei salário. De cliente em cliente, ficamos conhecidos como advogados que resolviam sem processo”, conta. Foi uma conversa de bar com um amigo, que tinha uma startup, que surgiu a ideia de focar nesse segmento. Seguindo o lema de encontrar soluções que, não necessariamente, envolvem processos judiciais.


“Sei do meu valor”

Ser ignorada em reuniões foi “fichinha” perto de um episódio marcante. Lorena atendeu ao telefonema de um cliente, que negou sua ajuda e pediu para falar com Robert, alegando que “um homem vai entender melhor os desafios”. Na época, ela já dominava o assunto em questão (lei de proteção de dados) e tinha até publicado artigo científico. “Estava tremendo, mas falei: deixa eu te explicar, se você precisa de um homem, então aqui ninguém pode te atender. Sou especialista no tema e sei do meu valor.”

A questão da presença feminina no mercado de trabalho virou uma pauta importante para o escritório, tanto que a maioria dos colaboradores são mulheres. Lorena também fala que um dos seus maiores prazeres é mentorar mulheres. Essas atitudes, ela acredita, são o que fazem a diferença.

“Falo que empreendedorismo é solitário, mas o empreendedorismo feminino é ainda mais solitário. Faço parte de um encontro de empreendedores e, de 60 pessoas, sou só eu e mais uma mulher. Nesses espaços, quase não encontramos mulheres, então é difícil de se enxergar ali. Temos que ter muita garra, determinação, propósito, acreditar nos valores para nos mantermos firmes, mesmo na dor. Tem sido uma caminhada muito desafiadora por não ter referências, por lutar contra o tradicionalismo, sempre questionar o status quo, mas me tornar referência para outras mulheres é o que mais me move.”


Sempre à frente

Você vai ler um bocado de “primeiros” e “primeiras” na próxima história. Isso porque a trajetória de Dany Carvalho, de 40 anos, é marcada por muitos pioneirismos. Mineira de Itabirito, na Região Central do estado, Dany foi a primeira mulher da família a fazer curso superior. Por isso, a educação é um dos pilares da sua carreira. “Menos sobre conseguir título, mais sobre o papel da educação de gerar conhecimento crítico, principalmente para nós, mulheres, conseguirmos tomar decisões melhores. Fazer curso superior foi quase um bilhete premiado para mudar a realidade que tinha até então.”

Dany se formou em pedagogia empresarial e logo entrou na primeira consultoria de inovação do Brasil. Isso em 2010, quando nem se falava em startup, eram empresas com base tecnológica. No mesmo ano, ela ajudou a formatar o primeiro evento de inovação do país. Depois, foi trabalhar na primeira aceleradora de startups do Brasil e começou a prestar consultoria para grandes empresas. Também fez parte do time que trabalhou na primeira iniciativa governamental de apoio a startups.

Mais adiante, trabalhou no primeiro hub de inovação da América Latina, em São Paulo, onde se tornou a primeira community manager (líder de comunidade) do Brasil. “Falo que a minha trajetória se confunde com a evolução do ecossistema de startups no Brasil. Não tinha referências, aprendi fazendo.”

Desde 2022, Dany é a CEO do Órbi Conecta, hub de inovação em BH. A ideia surgiu a partir da primeira comunidade de startups do Brasil, a San Pedro Valley (em referência à sua localização, no Bairro São Pedro). O trabalho consiste em conectar startups, grandes empresas, fundos de investimentos, iniciativas governamentais e universidades, com foco em impulsionar a transformação digital e construir uma nova geração de empreendedores no estado. Cursos são oferecidos através do Órbi Academy.

“Estive fora de Minas desde 2011 e pude retornar para o estado onde aprendi a me conectar com a palavra inovação, é algo muito significativo. Quando se fala sem comunidade, fala-se em dar de volta, então quero dar de volta para as pessoas todo o aprendizado que adquiri ao longo de 13 anos. E quero que o Órbi seja uma ferramenta para fortalecer Minas como referência em inovação no cenário nacional.”


Diversidade é inovação

Dany diz que as mulheres não são minoria no empreendedorismo, principalmente quando nos distanciamos do glamour e das capas de revista. “Quantas mulheres à nossa volta estão criando novas formas de viver e sobreviver? Venho de uma família de empreendedoras, o que para mim está relacionado a lidar com as adversidades e tomar decisões. Me inspira a forma como a minha mãe e a minha avó encaram a vida com força, protagonismo e tentando enxergar o copo cheio. A minha força vem delas.”
A questão está quando se faz o recorte para o mundo da tecnologia: ela é a única mulher negra como CEO de um hub de inovação. Por isso, defende a importância da representatividade. “Quando quis fazer faculdade, não tinha referência de mulheres atuando no mercado digital. Só fui conhecer mulheres atuando em programação e ciência de dados muitos anos depois. Gostaria de ver mais mulheres negras nos ambientes que frequento e espero que o meu trabalho possa inspirar outras mulheres para que também cheguem a cargos de liderança. Diversidade é um aspecto muito importante de inovação.”


Sozinha nunca mais

“Dificilmente, me sento na mesa, seja para negociar com fornecedor ou cliente, onde tem mulheres envolvidas na decisão e estratégia”, comenta Jordana Souza, uma das fundadoras (única mulher, diga-se de passagem) da agência de viagens corporativas Voll.

Catarinense, formada em marketing, ela se mudou para BH por causa do ex-marido e se apaixonou pela cidade. Sempre na área comercial, trabalhou com educação e indústria de elevadores antes de chegar à Cabify (aplicativo de mobilidade urbana). Em uma reunião de negócios, conheceu os futuros sócios e recebeu a proposta de fundar com eles a empresa que revolucionaria o mercado de viagens corporativas. A Voll tem aplicativo, com tecnologia própria, que abrange desde a compra da passagem aérea até o pagamento de qualquer despesa da viagem.

“Sou a única mulher entre os sócios, sou uma das poucas mulheres dentro desse mercado de mobilidade e levanto a bandeira de que mais mulheres devem fazer parte disso”, diz Jordana, que direciona o recrutamento na empresa para as mulheres. Na Voll, 68% do time é feminino, sendo que 40% da liderança está nas mãos de mulheres. Nos últimos dois anos, a agência abriu vagas específicas para mulheres na área de desenvolvimento e tecnologia. Quando a seleção é mista, ela conta, as mulheres dificilmente se inscrevem, ficam com medo de competir com os homens.

Hoje CRO (diretora de receita) da Voll, Jordana não acha que passou por tantas dificuldades como mulher. “Não temos que competir com os homens, temos que nos qualificar tanto quanto eles. Me preparei mais que um homem para estar onde estou. Algumas vezes recebi olhares tortos, mas não me sinto menos capaz. Lançamos há um ano uma nova função de pagamento de despesas corporativas, algo voltado para o mercado financeiro, que é bem masculino, e estou nessa construção de conhecimento. Ninguém pode me dar o mérito, eu tenho que me preparar e correr atrás.”
Assim como se inspira em empreendedoras, Jordana espera ser inspiração para que outras mulheres ocupem os espaços que desejam. “Estudei a vida toda em escola pública, sou a primeira da família a ter curso superior e fiz valer as oportunidades que tive. Sou uma eterna inconformada, quero sempre promover alguma mudança e isso faz com que não pare. Quero impactar vidas.”