Kiki Ramos, joia negra da Argentina, assina primeiro contrato profissional e de patrocínio
Convocado pela primeira vez para a Seleção Argentina Sub-17 em junho deste ano, Kiki é uma das principais promessas da geração 2009 do Vélez
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Promessa do futebol argentino, Kiki Ramos, de 17 anos, viveu um dia especial nesta segunda-feira (15/9). O atacante assinou seu primeiro contrato profissional com o Vélez Sarsfield e, há uma semana, também oficializou vínculo de patrocínio com a Nike.
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Convocado pela primeira vez para a Seleção Argentina Sub-17 em junho deste ano, Kiki é uma das principais promessas da geração 2009 do Vélez. O jovem nasceu no Haiti e foi adotado por um casal argentino ainda bebê, após sobreviver ao terremoto que devastou o país caribenho em 2010, conforme a reportagem de No Ataque esmiúça a seguir.
Primeiro contrato profissional com o Vélez
Kiki chegou ao Vélez aos seis anos, após ser descoberto por um vizinho durante partidas de futebol no bairro. Desde então, passou por todas as categorias de base do clube e construiu sua trajetória na Villa Olímpica.
O atacante celebrou a assinatura do primeiro contrato profissional e destacou o caminho percorrido até alcançar o objetivo.
“Um dia que sonhei muitas vezes e que, por sorte, hoje me toca viver.”
“Assinar meu primeiro contrato com o Vélez significa muito para mim. São muitos anos de treinamentos, esforço, sempre com o sonho de algum dia chegar até aqui.”
Kiki também agradeceu ao clube, à família e às pessoas que participaram de sua formação.
“Muito agradecido ao clube por confiar em mim e me dar esta oportunidade, à minha família por me acompanhar sempre e a toda a gente que me ajudou e esteve presente durante este caminho.”
O jovem ainda reforçou que pretende utilizar o momento como ponto de partida para buscar novos objetivos com a camisa do Vélez.
“Muito feliz por realizar este sonho. Agora é continuar me esforçando e trabalhando todos os dias para poder realizar muitos outros com esta camisa.”
Kiki também assina com a Nike
Além do primeiro contrato profissional, Kiki anunciou seu primeiro acordo de patrocínio esportivo. O atacante passou a integrar o grupo de atletas da Nike, marca que, segundo ele, fazia parte de seus sonhos desde a infância.
“Muito contente e agradecido por ter podido me juntar à família Nike, algo que sonhava desde pequeno.”
Kiki também agradeceu à empresa, ao Vélez e à família pelo momento vivido.
“Sei que isso é fruto de muito esforço e trabalho, mas também que é apenas mais um pequeno passo no caminho. Ainda há muito pela frente e é preciso continuar trabalhando e aprendendo todos os dias.”
O atacante encerrou a publicação celebrando a nova etapa da carreira:
“Muito feliz por este momento. Obrigado a todos que fazem parte.”
Do Haiti à Albiceleste: a história de Kiki Ramos
Em 12 de janeiro de 2010, um terremoto de magnitude 7 (semelhante ao que castigou a Venezuela recentemente) devastou o Haiti, matou mais de 300 mil pessoas e deixou milhões de desabrigados. Entre os sobreviventes estava Stephen Oscar Ramos, um bebê de apenas nove meses que vivia em um orfanato de Porto Príncipe.
Naqueles dias, um casal argentino acompanhava à distância a tragédia sem saber se conseguiria conhecer o filho que estava prestes a adotar. Francisco e Astrid já haviam concluído praticamente toda a documentação para levar a criança à Argentina quando o desastre atingiu o país caribenho. Durante dias, não tiveram qualquer notícia sobre o menino.
O garoto sobreviveu. Pouco mais de um mês depois, embarcou para Buenos Aires, onde cresceu, construiu a própria identidade e iniciou a trajetória no futebol.
“Eu não lembro porque tinha nove meses quando vim. Pelo que meus pais contam, eles já tinham feito todos os papéis para me adotar quando aconteceu o terremoto. Como não conseguiam se comunicar, não sabiam como eu estava. Por sorte, fui um dos poucos meninos do orfanato com quem não aconteceu nada”, contou ao jornal argentino Olé.
Primeira convocação para a seleção
No dia 22 de junho de 2026, a história de Kiki Ramos, de 17 anos ganhou um novo capítulo. Convocado pela primeira vez para a seleção argentina sub-17, o atacante do Vélez Sarsfield passou a ser apontado jogador negro retinto a vestir a camisa da Albiceleste nas categorias de base. A convocação, porém, despertou um debate que vai muito além do desempenho dentro de campo.
A história de Kiki, que reúne sobrevivência, adoção, futebol e identidade, também ajuda a explicar por que um simples nome em uma lista de convocados mobilizou torcedores, provocou ataques racistas nas redes sociais e recolocou em discussão um tema que acompanha a Argentina há mais de um século: a invisibilização da população negra no país.
Marcos Villalobo, jornalista argentino, explica a razão pela qual cada vez mais pessoas com raízes distintas ocuparão lugares na sociedade argentina: “Chama a atenção que a Argentina não tenha negros, mas isso é por agora. Por que por agora? Porque se você vai a Buenos Aires ou a cidade de Córdoba, vê-se que há muitos senegaleses, muitos chineses, descendentes de chineses e coreanos, e veja que há muitos do Haiti. No ano 2010, infelizmente, Haiti sofreu o terremoto devastador, onde muitos desses bebês foram dados para adoção. Aqui na Argentina, há muitos desses crianças que chegaram, que não conhecem os pais biológicos e foram adotados. Entre eles, Kiki Ramos, que foi convocado à seleção argentina sub-17”
Vizinho olheiro e convocação que premia temporada no Vélez
O futebol entrou na vida de Kiki aos seis anos. Um vizinho percebeu o talento do garoto nas peladas de bairro e conseguiu um teste no Vélez. Desde então, Kiki nunca mais deixou o clube. Cresceu na Villa Olímpica, estudou nas dependências do clube e passou por todas as categorias de base até se tornar uma das principais promessas da geração 2009.
A convocação de Kiki para um período de treinamentos visa a preparação para a Copa do Mundo da categoria, que será disputada no Catar, em novembro de 2026. A Argentina enfrentará Moçambique, Dinamarca e Austrália na primeira fase. O chamado coroou a melhor temporada do atacante desde que chegou ao Vélez Sarsfield.
Neste ano, já marcou 12 gols nas competições de base organizadas pela AFA, anotou quatro em uma única partida diante do Atlético de Rafaela e foi decisivo em uma vitória sobre o Boca Juniors. As atuações abriram caminho para a primeira convocação com a camisa da Albiceleste.
Neymar como ídolo e Messi como referência
Embora tenha crescido na Argentina, o maior ídolo de Kiki nunca vestiu a camisa da seleção do país e é brasileiro.
“Neymar. Sempre Neymar”, respondeu ao Olé, sem hesitar.
A escolha ajuda a explicar seu estilo de jogo. Rápido, explosivo e acostumado a atuar pelos lados do campo, Kiki gosta do enfrentamento individual, busca o drible e tem como principal característica a velocidade. Nos últimos meses, segundo ele próprio, também evoluiu nas finalizações.
Messi ocupa outro lugar na carreira do atacante. Mais do que uma inspiração, representa o sonho que o garoto alimenta desde a infância: seguir os passos do maior ídolo da história recente da Argentina.
“É uma loucura. Compartilhar o mesmo esporte que ele e poder vê-lo jogar é incrível. É o melhor do mundo. Também fico muito feliz de representar a Argentina sabendo que ele também representa.”
Convocação expôs ataques racistas
A repercussão da convocação não ficou restrita ao futebol. Nas redes sociais, Kiki recebeu centenas de mensagens de apoio, mas também foi alvo de comentários racistas e xenófobos. Parte dos usuários questionou sua identidade argentina por ter nascido no Haiti, enquanto outros fizeram ofensas relacionadas à cor da pele.
O jovem afirmou que acompanha a repercussão, mas disse não permitir que esse tipo de ataque interfira em sua carreira.
“Aos comentários negativos eu não dou importância, porque desde pequeno nunca me afetou que me insultassem pela minha cor de pele ou pela minha mãe. Sempre levei isso com humor.”
Kiki Ramos, atacante da Argentina sub-17
A lamentável repercussão ajuda a explicar por que a convocação do jovem ultrapassou o noticiário esportivo e reacendeu uma discussão antiga na Argentina: a baixa representatividade de jogadores negros na principal seleção do país.
Uma exceção em mais de um século de seleção
Caso chegue à equipe principal, Kiki poderá se tornar o primeiro jogador negro retinto a defender a Argentina em uma Copa do Mundo. Em mais de 120 anos de seleção, poucos atletas pretos conseguiram vestir a camisa argentina.
O pioneiro foi Alejandro de los Santos, atacante filho de descendentes de escravizados angolanos. Destaque do El Porvenir e do Huracán nas décadas de 1920 e 1930, ele foi o primeiro jogador negro convocado pela Argentina e conquistou a Copa América de 1925.
Décadas depois apareceu o goleiro Héctor Baley, conhecido como “El Chocolate”. Filho de um argentino descendente de senegaleses, integrou os elencos campeões da Copa do Mundo de 1978 e da edição de 1982 como reserva imediato de Ubaldo Fillol. Embora nunca tenha atuado em um Mundial, disputou 13 partidas pela seleção principal e chegou a ser titular antes da Copa de 1978.
O terceiro nome é Héctor Enrique, campeão mundial em 1986. Conhecido como “El Negro”, entrou no time durante a campanha no México e eternizou seu nome ao dar o passe para Diego Maradona marcar o histórico “Gol do Século” contra a Inglaterra, nas quartas de final.
Entre esses poucos exemplos também aparece José Manuel Ramos Delgado, zagueiro filho de um cabo-verdiano. Capitão da seleção argentina nos anos 1960, disputou duas Copas do Mundo e construiu parte da carreira no Santos, onde se tornou um dos maiores estrangeiros da história do clube.
Nesta toada, nota-se que a presença de atletas negros sempre foi rara na seleção argentina. A chegada de Kiki às categorias de base rompe um padrão histórico que atravessa gerações e ajuda a entender por que a convocação despertou tanta atenção dentro e fora da Argentina.
Kiki desafia o ‘mito da Argentina branca’
A dificuldade em enxergar um jogador negro como representante da Argentina faz parte de um processo histórico construído ao longo do século XIX.
Historiadores apontam que milhares de homens negros foram enviados às linhas de frente das Guerras de Independência e, depois, da Guerra do Paraguai. Ao mesmo tempo, epidemias de cólera (1861) e febre amarela (1871) atingiram principalmente os bairros mais pobres de Buenos Aires, onde vivia grande parte da população afro-argentina.
“Há uma teoria que sim havia negros, creio ser a mais verifica, havia DNA negro na Argentina, principalmente nos grandes soldados de General San Martín (pai da pátria), que eram morenos em grande parte, mas estavam na linha de frente da batalha e foram morrendo e restando cada vez menos e a população acabou sendo na maior parte branca”
Marcos Villalobo, jornalista argentino do Perfil de Córdoba
Paralelamente, o Estado incentivou a imigração europeia em massa e consolidou um projeto de embranquecimento da população.
Os censos ajudam a ilustrar essa transformação. Em 1778, cerca de 30% da população era identificada como africana ou afrodescendente. Em 1887, esse percentual caiu para apenas 1,8%. A redução, porém, não foi apenas demográfica. Categorias como “pardo”, “moreno” e “mestiço” desapareceram dos levantamentos oficiais, reforçando a ideia de uma Argentina essencialmente branca.
O sociólogo argentino Guillermo Omar Orsi, doutor pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que esse processo ainda influencia a forma como o país enxerga sua própria identidade.
“Comecei a perceber o quanto falta letramento racial na Argentina. É uma questão que praticamente não discutimos porque existe esse mito de que não temos pessoas racializadas.”
Para Orsi, esse apagamento produziu uma consequência que permanece até hoje.
“Há uma história de apagamento das figuras negras em termos políticos e sociais. Temos a percepção de que ou as pessoas são brancas ou não são argentinas. Então os negros acabam sendo vistos como imigrantes, pessoas de fora.”
Imprensa já fomentou racismo no futebol
O racismo no futebol argentino não começou nas redes sociais. Há registros históricos que mostram como esse discurso atravessa gerações, até mesmo na imprensa esportiva.
Em outubro de 1920, o jornal La Crítica publicou uma charge que retratava jogadores da Seleção Brasileira como macacos antes de um amistoso contra a Argentina.
Décadas depois, em julho de 1996, o tradicional diário esportivo Olé estampou a manchete “Que venham os macacos” ao aguardar o vencedor da semifinal olímpica entre Brasil e Nigéria para enfrentar a Argentina na decisão dos Jogos de Atlanta.
As duas publicações, separadas por 76 anos, ilustram como estereótipos raciais permaneceram presentes até mesmo em parte da imprensa esportiva argentina.
Os episódios ajudam a mostrar que a convocação de Kiki não provocou uma discussão inédita, mas apenas trouxe novamente à superfície questões que acompanham a sociedade argentina há décadas.
Jornalistas argentinos veem no futebol oportunidade para romper barreiras
Se a convocação de Kiki Ramos expôs que o racismo ainda faz parte do cotidiano do futebol argentino, ela também reforçou a percepção de que o esporte pode ajudar a transformar essa realidade. Ouvidos pelo No Ataque, os jornalistas argentinos Marco Villalobo e Guillermo Panero reconhecem que manifestações discriminatórias ainda aparecem nas arquibancadas e nas redes sociais, mas acreditam que o futebol também tem capacidade de aproximar pessoas e desafiar estereótipos.
Para Villalobo, a aceitação de Kiki dependerá menos da cor da pele e mais do que ele conseguir construir dentro de campo. “Penso que, a partir do futebol, podemos romper essa barreira. O futebol nos une. Se Kiki Ramos pega uma bola, faz uma tabela, coloca no ângulo e a Argentina é campeã do mundo, todos vão amá-lo”, afirmou.
Panero faz uma ponderação semelhante. Na avaliação dele, parte dos argentinos ainda relativiza atitudes preconceituosas sob o argumento de que “no futebol vale tudo”. Ao mesmo tempo, ressalta que a própria sociedade argentina é marcada pela diversidade, formada por povos originários e por sucessivas ondas migratórias de países vizinhos e de diferentes partes do mundo.
“O que importa para os argentinos é se Nico Paz faz um gol na final da Copa. Não importa se é negro ou branco. Se veste a camisa da Argentina, vamos amá-lo”, disse o jornalista, antes de concluir que as pessoas “todas as pessoas no mundo inteiro são mais parecidas do que acreditamos por termos nascidos em lugares diferentes. Somos mais parecidos do que os relatos hegemônicos tentam nos fazer crer” e que discursos excludentes não devem prevalecer.
Mais do que um atacante, um símbolo de esperança
Para além de campo e bola, a convocação acabou assumindo um significado maior. Ao vestir a camisa da Albiceleste, o jovem colocou em evidência uma pergunta que a Argentina ainda tenta responder: quem pode ser argentino?
Em nota publicada após os ataques racistas ao jogador, a Defensoría del Pueblo da Província de Buenos Aires lembrou que o preâmbulo da Constituição argentina garante o país “a todos os homens do mundo que queiram habitar o solo argentino”. Nesse sentido, Kiki pode vir a simbolizar uma Argentina construída também pela imigração e pela diversidade.
A história do atacante não muda, sozinha, a relação do país com o racismo ou com sua população afrodescendente, nem apaga mais de um século de invisibilização histórica.
Mas o chamado já produziu um efeito difícil de ignorar, ao ajudar a revelar uma Argentina que sempre existiu, formada também por povos africanos, indígenas, latino-americanos e migrantes de diferentes partes do mundo.
Pela primeira vez em muito tempo, milhares de argentinos passaram a discutir por que um garoto negro vestindo a camisa da seleção ainda desperta surpresa.
No fim das contas, Kiki continua sendo apenas um adolescente apaixonado por futebol, que sonha em jogar futebol profissional. Se esse sonho vai se concretizar, ninguém sabe, o que sua convocação para a seleção conseguiu, no entanto, foi transformar a história de um garoto em uma oportunidade para um país inteiro revisitar a própria história.
E talvez essa seja a maior vitória que Kiki Ramos já conquistou antes mesmo de entrar em campo profissionalmente com a camisa albiceleste.
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A notícia Kiki Ramos, joia negra da Argentina, assina primeiro contrato profissional e de patrocínio foi publicada primeiro no No Ataque por Vitor de Araújo