Olga Benário e Luiz Carlos Prestes aparecem como um casal em documentos falsos usados na viagem clandestina ao Brasil, em 1935
Olga Benário tinha 27 anos quando atravessou o Atlântico ao lado de Luiz Carlos Prestes. Viajava com documentos falsos e a missão de proteger um dos homens mais procurados da política brasileira. O disfarce apresentava os dois como um casal abastado. A convivência de quase três meses, num percurso por diferentes países, transformou a missão em uma história de amor. Quando chegaram ao Rio, em abril de 1935, já se reconheciam como marido e mulher. Menos de um ano depois, estariam presos e incomunicáveis.
Nascida em Munique, em 12 de fevereiro de 1908, Olga Gutmann Benário cresceu numa família judia. Ainda adolescente, aproximou-se da Juventude Comunista, distribuiu panfletos e participou de manifestações numa Alemanha marcada pelo desemprego, pela radicalização e pelos confrontos entre comunistas e grupos de extrema direita.
Ela foi para Berlim com o militante Otto Braun, preso sob acusação de alta traição. Em 1928, Olga liderou uma ação para libertá-lo da prisão de Moabit. Procurados, fugiram para a União Soviética. Em Moscou, ela se destacou na Internacional Comunista, recebeu treinamento militar e cumpriu missões no exterior. A disciplina e a capacidade de agir sob pressão fariam dela a pessoa escolhida para acompanhar Prestes.
O brasileiro chegara a Moscou com a fama conquistada à frente da Coluna Prestes, movimento que percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo país entre 1925 e 1927. Conhecido como “Cavaleiro da Esperança”, aproximou-se do marxismo no exílio e, depois de ingressar no Partido Comunista do Brasil, aceitou voltar ao país para participar de um projeto revolucionário.
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Olga e Prestes se conheceram no fim de 1934. A Internacional Comunista designou a alemã para cuidar da segurança do brasileiro durante a viagem clandestina. Para despistar os serviços de inteligência, passaram por diferentes países, trocaram documentos e transportes e representaram o papel de um casal rico.
A encenação ganhou intimidade. Fernando Morais rejeitou a imagem dos dois como militantes sem sentimentos. Olga e Prestes “não eram dois autômatos. Havia romantismo”, afirmou o escritor. A relação teria pouco mais de um ano em liberdade, mas permaneceria viva nas cartas trocadas durante as prisões.
No Brasil, encontraram um país governado por Getúlio Vargas e dividido por movimentos rivais. De um lado crescia a Ação Integralista Brasileira (AIB), inspirada no fascismo. De outro, a Aliança Nacional Libertadora (ANL) reunia comunistas, socialistas, militares e opositores do governo. Prestes foi anunciado presidente de honra da ANL, embora permanecesse escondido.
Em julho de 1935, depois da divulgação de um manifesto de Prestes, a ANL foi fechada por decreto. A clandestinidade tornou-se mais perigosa. Olga cuidava da segurança das casas e protegia os contatos do marido, enquanto dirigentes comunistas preparavam uma insurreição.
Em novembro, militares se rebelaram em Natal, no Recife e no Rio. Os levantes, chamados pelo governo de “Intentona Comunista”, foram derrotados em poucos dias. A tentativa teve adesão limitada e não produziu a revolução esperada. Para Vargas, porém, ofereceu o argumento para ampliar o estado de exceção. O governo suspendeu garantias e iniciou uma perseguição a militantes, sindicalistas e adversários.
Prestes tornou-se o homem mais procurado do Brasil. Durante meses, ele e Olga mudaram de esconderijo. A polícia política dirigida por Filinto Müller prendeu integrantes da rede clandestina e chegou ao casal na manhã de 5 de março de 1936, numa casa da Rua Honório, no Cachambi, Zona Norte do Rio.
Mais de 90 policiais foram mobilizados. Por volta das 7h30, os agentes cercaram o imóvel. Prestes estava de pijama e não ofereceu resistência. Olga foi presa ao lado dele. Logo foram separados: ele seguiu para o Quartel da Polícia Especial; ela, para a Casa de Detenção, na Rua Frei Caneca.
A prisioneira se identificava como Maria Prestes e evitava confirmar sua nacionalidade e a origem judaica do sobrenome Benário. Já havia usado outros nomes nas viagens clandestinas. A identidade falsa era sua última proteção contra a Alemanha de Adolf Hitler.
Olga sabia o que a aguardava caso fosse entregue aos nazistas. Hitler estava no poder desde 1933. Comunistas eram presos e os primeiros campos de concentração já funcionavam. As Leis de Nuremberg, aprovadas em 1935, haviam retirado direitos dos judeus. Para uma judia procurada por sua atuação comunista, retornar à Alemanha significava cair nas mãos da Gestapo.
Na prisão, ela enfrentava também uma incerteza íntima. Em 4 de abril de 1936, um mês depois da captura, pegou uma folha finíssima de papel e escreveu em francês: “Ao Snr. Luiz Carlos Prestes”. Logo abandonou a formalidade: “Meu querido, espero que essas linhas cheguem nas suas mãos. Eu queria muito te dizer uma coisa que diz respeito somente a nós dois”.
A notícia foi dada de maneira direta: “Querido, nós teremos um filho. (Eu sinto todos os sinais que existem nesse caso. Vômitos etc.) Esse acontecimento me faz muito feliz, ainda que eu me dê conta das dificuldades que terei de atravessar. Enfim, nós teremos uma expressão viva de todo o bom e doce que existe entre nós”.
Olga descreveu o isolamento: “Eu me encontro sozinha numa cela sem livros e eu não saio nunca de minha cela. Para me impedir de ver o céu, colocaram um grande pedaço de tecido na frente. Então eu passo os dias olhando as paredes e esse pedaço de tecido”.
Mesmo assim, tentou tranquilizar Prestes: “Tudo isso não é agradável, mas eu te asseguro que terei força suficiente para resistir”. Não sabia se o marido estava vivo: “Estou muito, muito inquieta e te peço para me dar uma resposta a esta carta”. Despediu-se com “Muitos beijos, Sua” e assinou: “Maria Prestes, Casa de Detenção”.
A carta não chegou às mãos de Prestes. Ele só seria informado da gravidez meses depois e conheceria Anita Leocádia aos 9 anos. A folha guardava, porém, a primeira notícia da criança que ocuparia o centro da batalha jurídica e política em torno de Olga.
Desde os primeiros dias da prisão, jornais noticiavam que o governo pretendia expulsá-la. A gravidez e sua união com um brasileiro poderiam impedir a medida, mas a repressão a tratava como uma estrangeira comunista e “perigosa”. Enquanto a defesa tentava protegê-la, a polícia buscava provar que Maria Prestes era Olga Benário.
Filinto Müller recorreu ao Itamaraty e aos serviços policiais estrangeiros. Impressões digitais e informações circularam entre Brasil, França e Alemanha. A Gestapo, que mantinha uma ficha de Olga desde os anos 1920, confirmou sua identidade. O governo Vargas estabelecera contato direto com seus perseguidores.
Grávida, isolada e sem acesso ao marido, Olga tornou-se o centro de uma disputa sobre a nacionalidade da criança, os limites do poder presidencial e o direito à vida. Advogados preparavam um habeas corpus. Dentro do governo, a expulsão avançava. O desfecho dependeria de Getúlio Vargas, de sua polícia e de uma Corte Suprema disposta a aceitar a suspensão das liberdades.