Agosto de 1936. O Estádio Olímpico de Berlim estava completamente lotado. Mais de 100 mil pessoas ocupavam as arquibancadas. Bandeiras vermelhas com a suástica tremulavam por todos os lados enquanto Adolf Hitler acompanhava as competições do camarote de honra. Os Jogos Olímpicos eram a grande vitrine internacional do Terceiro Reich e deveriam demonstrar ao mundo a suposta superioridade da chamada raça ariana.

Bastariam poucos segundos para que aquele roteiro começasse a desmoronar.

Na pista estava um jovem negro americano chamado Jesse Owens.

Ao cruzar a linha de chegada, iniciava uma sequência de vitórias que transformaria uma competição esportiva em um dos episódios mais simbólicos do século XX. Em poucos dias, conquistaria quatro medalhas de ouro nos 100 metros, 200 metros, revezamento 4x100 e salto em distância, diante de milhares de espectadores e sob os olhos do próprio Führer. Noventa anos depois, Berlim-1936 continua lembrada menos pela propaganda nazista do que pelo atleta que a desmontou dentro das pistas.

Muito antes de desafiar a ideologia de Hitler, porém, Jesse Owens conheceu a pobreza.

Nascido James Cleveland Owens, em 12 de setembro de 1913, na pequena cidade de Danville, no Alabama, era o décimo filho de Henry e Emma Owens. O pai trabalhava como meeiro, cultivando terras que pertenciam a outros proprietários, enquanto a família enfrentava a pobreza e a segregação racial que ainda dominavam o sul dos Estados Unidos poucas décadas após o fim da escravidão.

Ainda criança, Jesse ajudava os pais na colheita de algodão. A rotina era marcada pelo trabalho pesado, pela escassez de recursos e pelas limitações impostas aos negros em uma sociedade rigidamente segregada.

Quando tinha nove anos, a família decidiu deixar o Alabama e seguir para Cleveland, em Ohio, durante a Grande Migração, movimento que levou milhões de afro-americanos do sul para o norte do país em busca de melhores oportunidades.

Foi ali que James Cleveland Owens passou a ser conhecido para sempre como Jesse Owens.

No primeiro dia de aula, a professora perguntou seu nome. O menino respondeu apenas "J.C.". Ela entendeu "Jesse". O apelido permaneceu pelo resto da vida.

 

Jesse Owens

AFP

Em Cleveland, Owens encontrou oportunidades que jamais teria no Alabama. Descobriu também um talento incomum para a corrida. Aos 13 anos venceu sua primeira competição oficial e rapidamente passou a chamar a atenção dos treinadores.

No East Technical High School tornou-se um fenômeno do atletismo escolar. Conquistou três títulos estaduais consecutivos e estabeleceu recordes nacionais nas provas de velocidade e no salto em distância. Ainda no ensino médio, igualou o recorde mundial das 100 jardas, com 9,4 segundos, estabeleceu uma nova marca nas 220 jardas e superou o recorde escolar do salto em distância. Seu desempenho despertou o interesse de diversas universidades americanas.

Owens escolheu a Ohio State University, uma das principais instituições do país. Não recebeu bolsa esportiva. Negro e pobre, precisou trabalhar para custear os estudos enquanto conciliava aulas e treinamentos.

Sem imaginar, iniciava a caminhada que o levaria ao maior palco esportivo do planeta e ao confronto simbólico mais marcante entre o esporte e a propaganda nazista.

Os Jogos de Berlim transformaram Jesse Owens em um símbolo mundial. As quatro medalhas de ouro desmoralizaram, diante das câmeras e do público internacional, o discurso de superioridade racial que Hitler tentava difundir por meio do esporte. A vitória do atleta americano ultrapassou as pistas e entrou para a história como uma demonstração de que talento e determinação não reconhecem fronteiras impostas por ideologias.

Décadas depois, em 31 de março de 1980, Jesse Owens morreu aos 66 anos, em Tucson, no Arizona, vítima de complicações causadas por um câncer de pulmão. Fumante durante mais de três décadas, passou os últimos meses de vida submetido à radioterapia e à quimioterapia. Mesmo diante do diagnóstico irreversível, permaneceu otimista, acreditando que ainda venceria mais uma batalha.

Sua morte provocou manifestações de pesar em diversos países. O então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, resumiu sua importância ao afirmar que "talvez nenhum atleta tenha simbolizado melhor a luta da humanidade contra a tirania, a pobreza e o preconceito racial".

Mais do que um campeão olímpico, Jesse Owens tornou-se um personagem central da história do século XX. Em Berlim, venceu quatro provas. Fora delas, derrotou um dos maiores símbolos da intolerância moderna.

"Embora eu não tenha sido convidado para apertar a mão de Hitler, também não fui convidado para apertar a mão do presidente na Casa Branca"

Jesse Owens

 

afp

‘‘Talvez nenhum atleta tenha simbolizado melhor a luta da humanidade contra a tirania, a pobreza e o preconceito racial’’

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Jimmy Carter, presidente dos eua

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