Jesse Owens e Luz Long: uma atitude de respeito do atleta alemão ajudou Owens a conquistar o ouro e transformou a prova em um dos maiores símbolos de amizade e espírito esportivo da história olímpica -  (crédito: afp)

Jesse Owens e Luz Long: uma atitude de respeito do atleta alemão ajudou Owens a conquistar o ouro e transformou a prova em um dos maiores símbolos de amizade e espírito esportivo da história olímpica

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Os Jogos Olímpicos de Berlim foram concebidos por Adolf Hitler como a grande vitrine da ideologia nazista. O regime pretendia convencer o mundo da suposta superioridade da raça ariana. O protagonista daquela Olimpíada, porém, seria um jovem negro americano chamado Jesse Owens.

O mundo chegou a Berlim dividido. Enquanto organizações civis e parte da imprensa defendiam o boicote aos Jogos por causa da perseguição aos judeus e das políticas raciais do Terceiro Reich, o Comitê Olímpico dos Estados Unidos decidiu enviar sua delegação.

A equipe americana de atletismo masculino contava com 66 competidores, dez deles negros. A propaganda nazista ironizava os Estados Unidos por dependerem, segundo sua própria lógica racista, de atletas de uma "raça inferior" para disputar as principais provas.

A resposta veio nas pistas.

Os atletas negros conquistaram 14 medalhas. Nenhum brilhou mais do que Jesse Owens.

No dia 3 de agosto de 1936, venceu os 100 metros rasos e tornou-se oficialmente o homem mais rápido do mundo.

No dia seguinte, conquistou o ouro no salto em distância em uma das provas mais marcantes daqueles Jogos.

Antes da final, recebeu um conselho inesperado do alemão Luz Long, favorito da torcida local. Ao perceber que Owens corria o risco de ser eliminado por queimar os saltos, Long sugeriu que iniciasse a impulsão alguns centímetros antes da tábua. O americano seguiu a orientação, classificou-se e conquistou a medalha de ouro. Long ficou com a prata.

Ao fim da competição, os dois deram uma volta juntos pelo estádio, conversando e sorrindo diante de mais de 100 mil pessoas. A imagem entrou para a história como um símbolo de respeito e amizade, em completo contraste com o discurso racial defendido pelo regime nazista.

Poucos dias depois, Owens venceu também os 200 metros rasos, estabelecendo um novo recorde olímpico.

A quarta medalha de ouro veio no revezamento 4x100 metros, prova para a qual ele nem estava escalado.

As vagas pertenciam aos velocistas Marty Glickman e Sam Stoller, os únicos atletas judeus da delegação americana. Horas antes da final, ambos foram retirados da equipe por decisão dos dirigentes dos Estados Unidos, liderados por Avery Brundage, sob a alegação de razões técnicas.

A justificativa, porém, nunca convenceu. Historiadores sustentam que a mudança buscou evitar um constrangimento diplomático diante de Hitler, impedindo que dois atletas judeus competissem na prova. Owens e Ralph Metcalfe assumiram seus lugares. O quarteto americano conquistou o ouro e estabeleceu um novo recorde mundial.

Ao fim da Olimpíada, Jesse Owens havia conquistado quatro medalhas de ouro nos 100 metros, 200 metros, salto em distância e revezamento 4x100. Seus resultados permaneceriam competitivos por décadas e transformaram Berlim-1936 em um dos capítulos mais emblemáticos da história do esporte.

A imagem que atravessou gerações, porém, não foi apenas a das vitórias. Durante muito tempo, difundiu-se a história de que Hitler teria deixado o estádio para não cumprimentá-lo. Owens costumava tratar o episódio com ironia.

"Eu não fui a Berlim para apertar a mão de Hitler. A única coisa que sei é que eu estou aqui, e Hitler não."

Anos mais tarde, faria uma reflexão ainda mais contundente sobre o país ao qual retornou depois da consagração olímpica.

"Depois de todas aquelas histórias sobre Hitler, voltei para os Estados Unidos e não podia sentar na frente do ônibus. Tinha de entrar pela porta dos fundos. Não podia morar onde quisesse. Então, qual era a diferença?"

A pergunta sintetizava uma das maiores contradições do século XX. O homem que havia desmontado, nas pistas de Berlim, o principal símbolo da propaganda nazista continuava submetido às leis de segregação racial em seu próprio país.

 

afp


AS QUATRO MEDALHAS

100 metros rasos
3 de agosto – 10,3s (igualou o recorde olímpico). Tornou-se o homem mais rápido do mundo.

Salto em distância
4 de agosto – 8,06 m. Ouro conquistado após o histórico conselho de Luz Long.

200 metros rasos
5 de agosto – 20,7s (recorde olímpico). Confirmou sua supremacia nas pistas.

Revezamento 4x100 metros
9 de agosto – 39,8s (recorde mundial). Entrou de última hora e fechou a campanha com o quarto ouro ao lado de Ralph Metcalfe, Foy Draper e Frank Wykoff.


"Você pode derreter todas as medalhas e troféus que conquistei. Eles não valeriam nem o revestimento da amizade de 24 quilates que senti por Lutz Long”

Jesse Owens