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Ao desembarcar nos Estados Unidos, Jesse Owens descobriu que vencer diante dos olhos de Adolf Hitler não bastava para derrotar o racismo. O maior nome dos Jogos de Berlim voltou para um país onde ainda não podia entrar pela mesma porta que os brancos, sentar-se na frente dos ônibus ou morar onde desejasse.
As quatro medalhas de ouro conquistadas em 1936 fizeram dele um herói internacional. No exterior, era celebrado como o atleta que desmontara a propaganda nazista. Em casa, porém, a realidade permanecia inalterada.

A segregação racial seguia amparada por leis em grande parte dos Estados Unidos. Hotéis, restaurantes, escolas, transportes públicos e bairros continuavam divididos entre brancos e negros. A consagração olímpica não mudou essa condição.

Owens voltou sem desfile, sem contratos milionários e sem reconhecimento oficial. O presidente Franklin D. Roosevelt não o recebeu na Casa Branca nem o homenageou. A maior honraria do governo americano só chegaria quatro décadas depois.

Sem patrocínios, precisou recomeçar. Trabalhou em diferentes funções para sustentar a esposa, Ruth, e as filhas Gloria, Marlene e Beverly. Em um parque recreativo, encontrou um novo propósito: incentivar crianças e adolescentes a enxergar no esporte um caminho para mudar de vida.

As dificuldades financeiras também encerraram precocemente sua carreira. Para sobreviver, participou de corridas promocionais contra automóveis, cavalos, motocicletas e até cães.

"Claro que aquilo me incomodava. Mas era um trabalho honesto. Eu precisava comer", recordaria anos depois.

Com o tempo, o prestígio conquistado em Berlim abriu novas oportunidades. Owens tornou-se locutor de rádio, empresário de relações públicas e representante de grandes empresas. Mas foi como palestrante que encontrou sua maior vocação.

Percorria mais de 320 mil quilômetros por ano visitando escolas, universidades e comunidades. Falava sobre disciplina, educação e perseverança como instrumentos para vencer as barreiras impostas pelo preconceito.

Nem sempre suas posições agradaram. Durante os Jogos Olímpicos da Cidade do México, em 1968, foi criticado por parte do movimento dos direitos civis ao defender o diálogo com o Comitê Olímpico dos Estados Unidos. Anos depois, reconheceu que havia revisto algumas de suas opiniões.

No início de 1980, sua saúde se deteriorou rapidamente. Fumante durante cerca de 35 anos, recebeu o diagnóstico de câncer de pulmão inoperável. Morreu em 31 de março, aos 66 anos, em Tucson, no Arizona.

Quase um século depois dos Jogos de Berlim, Jesse Owens continua lembrado não apenas pelas quatro medalhas de ouro, mas por ter transformado uma vitória esportiva em um símbolo permanente da luta contra o racismo, a intolerância e o preconceito .

O campeão que voltou para a segregação

Após os Jogos de Berlim,em 1936, Jesse Owens voltou para casa como herói mundial, mas nos Estados Unidos continuou submetido às leis da segregação racial.

Não foi recebido por Franklin D. Roosevelt

Mesmo após conquistar quatro medalhas de ouro, Owens não foi convidado para a Casa Branca. Em ano eleitoral, Roosevelt evitou homenageá-lo para não desagradar estados sulistas segregacionistas.

Entrou pela porta de serviço


Em uma homenagem no hotel Waldorf-Astoria, em Nova York, Owens foi impedido de usar a entrada principal e precisou acessar o salão pelo elevador de cargas.

Continuou barrado em locais para brancos


De volta aos Estados Unidos, permaneceu impedido de frequentar hotéis, restaurantes, escolas, cinemas e outros espaços reservados exclusivamente à população branca.

Precisou aceitar trabalhos humilhantes


Sem patrocínios ou apoio financeiro, trabalhou em diversas funções e chegou a disputar corridas de exibição contra cavalos e automóveis para sustentar a família.

A homenagem oficial só veio décadas depois


O reconhecimento do governo demorou cerca de 40 anos. Em 1976, recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade e, em 1990, a Medalha de Ouro do Congresso, concedida postumamente.

 

‘‘Quando voltei ao meu país, depois de todas as histórias sobre Hitler, eu não podia viajar na frente do ônibus.

Tinha de entrar pela porta dos fundos. Não podia morar onde queria’’

Jesse Owens