Nascido Antônio Gonçalves Sobral, em 21 de junho de 1919, em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, teve infância pobre e trabalhou como engraxate, jornaleiro, mecânico, garçom e lutador de boxe
Quando Nelson Gonçalves morreu, em 18 de abril de 1998, às 20h45, na casa da Gávea onde vivia, o Brasil perdeu mais do que um cantor. Perdeu uma das vozes mais marcantes de sua história. Dono de uma interpretação intensa e inconfundível, Nelson atravessou décadas cantando amores fracassados, noites boêmias e personagens das madrugadas urbanas.
“Ele estava muito bem nos últimos dias, feliz com a homenagem que receberia na semana que vem: o disco de ouro pelo seu último trabalho, ‘Ainda é cedo’”, disse, emocionada, Margareth Gonçalves. “Ele merecia todas as homenagens, nunca mais o Brasil vai ter outro cantor como ele.”
Nascido Antônio Gonçalves Sobral, em 21 de junho de 1919, em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, teve infância pobre e trabalhou como engraxate, jornaleiro, mecânico, garçom e lutador de boxe. Ainda menino, cantava nas ruas de São Paulo enquanto o pai fingia ser cego para recolher moedas no chapéu. Gago na infância, poucos imaginavam que aquele menino tímido se transformaria em um intérprete de potência vocal rara.
A carreira começou em 1937, na Rádio São Paulo. Vieram depois centenas de gravações, milhões de discos vendidos e clássicos como “A volta do boêmio”, “Normalista”, “Naquela mesa” e “Deusa do asfalto”. Em 1954, recebeu da Rádio Nacional o título de Rei do Rádio.
Nos anos 1960, mergulhou no vício em cocaína e acabou preso em 1966, episódio que resultaria na carta enviada ao jornalista David Nasser, citada nas páginas anteriores.
“A droga não foi motivo de discriminação, até porque virou moda. O que me tocou muito foi essa coisa de ser artista, que sempre foi coisa de vagabundo”, afirmou anos depois.
Mesmo atravessando momentos complicados, Nelson nunca perdeu relevância. Influenciou gerações e voltou a dialogar com o público jovem nos anos 1990 ao gravar músicas de Cazuza, Renato Russo e Lulu Santos.
Nunca se soube se era real a história de que Frank Sinatra teria entrado em seu camarim após um show em Nova York para elogiá-lo: “Que grande voz a sua, Nelson!” Verdade ou lenda, pouco importa. O Brasil jamais teve outra voz igual.
Seu Vício Era Cantar
Filho de imigrantes portugueses, nascido em 1919, Nelson Gonçalves tornou-se uma das maiores vozes da história da música brasileira. Ainda criança, ganhou o apelido de “Metralha” por causa da forte gagueira que o fazia falar de maneira rápida e entrecortada, dificuldade que sumia completamente quando começava a cantar
79 milhões
de discos vendidos até 1998 transformaram Nelson Gonçalves em um dos maiores fenômenos comerciais da música brasileira
1 milhão
de cópias vendidas transformaram “A Volta do Boêmio”, lançada em 1957, no maior sucesso da carreira
59 anos
tempo vinculado com exclusividade à RCA Victor, um recorde absoluto na história da música brasileira.
Para comparar: Elvis Presley, outro artista que recebeu o Prêmio Nipper da gravadora pela fidelidade,
ficou pouco mais de 20 anos. Nelson permaneceu quase três vezes mais. Entrou jovem, saiu lenda.
38
discos de ouro
20
discos de platina
2 mil
canções gravadas
Cronologia
1919 Nasce em Santana do Livramento (RS), em 21 de junho
1935 Torna-se boxeador profissional na categoria peso-médio
1941 Grava seu primeiro disco pela RCA Victor
1952 Inicia a parceria com o compositor Adelino Moreira
1957 Lança “A volta do boêmio”, que vende mais de 1 milhão de cópias
1966 É preso por porte de cocaína. Fase mais difícil de sua vida
1973 Abandona definitivamente as drogas e retoma sua carreira
1997 Lança seu último álbum, “Ainda é cedo”
1988 Morre no Rio de Janeiro, em 18 de abril, aos 78 anos
SUCESSOS
Renúncia
Amor, dor e abandono em tom dramático
Escultura
A beleza feminina transformada em canção
Normalista
Romance juvenil embalado pelo rádio brasileiro
Carlos Gardel
Homenagem brasileira ao mito do tango
Fica Comigo Esta Noite
Solidão e despedida numa madrugada triste
A Volta do Boêmio
O retorno triunfal às noites e aos bares
Naquela mesa
Saudade transformada em clássico emocionado