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Valery Legasov: o cientista de Chernobyl que tentou explicar o inexplicável
Liderou a análise técnica do desastre e foi o responsável por apresentar ao mundo as causas do acidente
Júlio Moreira
25/04/2026 02:00 - atualizado 25/04/2026 07:08
Valery Legasov dedicou seus últimos anos a explicar um desastre que muitos ainda tentavam esconder. Entre a ciência e o silêncio, tornou-se a voz que revelou ao mundo que Chernobyl não foi apenas um erro, mas um sistema inteiro em falha - (crédito: fotos arquivo EM/Afp)
crédito: fotos arquivo EM/Afp
Quando a explosão do reator 4 da Usina Nuclear de Chernobyl ainda era tratada como um incidente sob controle, Valery Legasov foi convocado para integrar a comissão responsável por investigar o que havia ocorrido. Químico de formação e membro da Academia de Ciências da União Soviética, ele não estava na usina na noite do acidente. Sua função começaria depois, quando o desastre já havia ultrapassado os limites do que podia ser ocultado.
Ao chegar a Chernobyl, Legasov encontrou um cenário que desafiava qualquer tentativa de simplificação. O reator estava destruído, a radiação seguia ativa e as decisões tomadas nas primeiras horas haviam sido marcadas por desinformação e atraso. Mais do que compreender o que aconteceu, era preciso explicar e, ao mesmo tempo, conter. Ele participou diretamente das discussões que orientaram medidas emergenciais, incluindo o lançamento de materiais sobre o núcleo exposto e a organização da resposta técnica à crise.
Meses depois, em Viena, durante uma conferência da Agência Internacional de Energia Atômica, foi ele quem apresentou ao mundo a versão soviética do desastre. Sua fala marcou um ponto de inflexão. Ao relatar o acidente, reconheceu não apenas erros operacionais, mas falhas no próprio modelo do reator. Em um ambiente ainda marcado pelo controle político da informação, suas palavras romperam parte do silêncio. “Não há dúvida de que o acidente foi causado por uma combinação de fatores humanos e deficiências no projeto”, afirmou na ocasião.
Resistência e pressão
A posição de Legasov era delicada. Internamente, havia resistência em admitir falhas estruturais mais profundas. Externamente, a comunidade internacional exigia transparência. Ele passou a ocupar um espaço incômodo, entre o que podia ser dito e o que precisava ser reconhecido. Em registros gravados antes de sua morte, deixou reflexões que ampliam o entendimento sobre o desastre. “Chernobyl não foi apenas um acidente”, disse. “Foi uma consequência inevitável de um sistema que ignorou falhas por tempo demais.”
Em outro trecho, reforçou o caráter estrutural do problema. “O perigo estava ali há muito tempo”, afirmou. “Nós apenas não queríamos enxergar.” As declarações, registradas em áudio e divulgadas posteriormente, revelam não apenas a dimensão técnica do acidente, mas o ambiente institucional que contribuiu para sua ocorrência.
Apesar da relevância de sua atuação, Legasov enfrentou resistência dentro da própria estrutura soviética. Seu reconhecimento foi limitado, e suas críticas não foram plenamente incorporadas naquele momento. Em 1988, dois anos após o desastre, ele morreu, deixando um conjunto de registros que só ganhariam repercussão mais ampla depois. Neles, detalhava não apenas os erros técnicos, mas a cultura de silêncio que marcou a condução da crise.
Quarenta anos depois, Valery Legasov permanece como uma das vozes mais importantes na compreensão de Chernobyl. O cientista que tentou explicar o que havia acontecido, enfrentando não apenas a complexidade do desastre, mas também os limites impostos por um sistema que demorou a reconhecer suas próprias falhas. Em um cenário marcado por ocultação e demora, suas palavras ajudaram a transformar o acidente em referência global sobre transparência, risco e responsabilidade.
fotos arquivo EM/Afp
A tragédia em imagens
A roda-gigante de Pripyat
Entre prédios vazios e janelas sem voz, a famosa roda-gigante de Pripyat permanece imóvel, como se ainda aguardasse um dia que nunca voltou. No silêncio da cidade abandonada, o tempo não passou, apenas parou
Desastre ao longo dos anos
MONITORAMENTO (1996–2005) Pesquisas científicas avançam para entender os efeitos da radiação no meio ambiente e na saúde humana.
NOVO SARCÓFAGO (2009) O Novo Confinamento Seguro foi construído e instalado sobre o reator 4, garantindo isolamento por até 100 anos
Zona de exclusão (2021) A área permanece como zona de exclusão, mas com presença de turismo controlado, recuperação parcial da natureza e contínuo monitoramento
Ocupação russa aumenta os níves de radiação (2022-2026) Em 2022, durante a guerra na Ucrânia, a região de Chernobyl foi ocupada por tropas russas, gerando alerta internacional. A movimentação de veículos levantou poeira contaminada e aumentou temporariamente os níveis de radiação. Funcionários foram mantidos no local por dias, sob pressão. Após a retirada das tropas, o controle foi retomado e o monitoramento intensificado. Entre 2023 e 2026, estudos continuam, enquanto a área permanece restrita, símbolo de risco nuclear, memória histórica e resiliência ambiental.
Conhecidos como "Esquadrão Suicida", três trabalhadores, Valeri Bezpalov, Alexei Ananenko e Boris Baranov, foram enviados aos níveis inundados da usina de Chernobyl dias após a explosão. A missão era abrir válvulas sob o reator para drenar a água acumulada, evitando uma nova explosão, que poderia ampliar ainda mais o desastre. Equipados com lanternas e proteção limitada, avançaram em um ambiente escuro e altamente radioativo
arquivo EM/Afp
Alexei Ananenko, o engenheiro
Ele entrou em galerias alagadas da usina sabendo do alto risco e ajudou a evitar uma nova explosão
O homem que encarou um cenário extremo
Nos dias que se seguiram à explosão do reator 4 da Usina Nuclear de Chernobyl, quando o mundo ainda tentava compreender a dimensão do desastre, um risco ainda maior passou a preocupar os engenheiros envolvidos na contenção. Sob o reator destruído, acumulava-se uma grande quantidade de água, enquanto acima permanecia material nuclear em temperaturas extremas. A possibilidade de uma nova explosão, potencialmente mais devastadora, tornou-se real.
Era necessário agir com rapidez. A solução dependia de uma ação direta: entrar nas áreas inundadas sob o reator e abrir válvulas para escoar a água. Alexei Ananenko conhecia aquele sistema. Engenheiro da usina, ele fazia parte do grupo que entendia a estrutura interna do complexo e sabia exatamente onde estavam os mecanismos que precisavam ser acionados. Ao contrário de muitos que atuaram nas primeiras horas sem compreender o risco, Ananenko tinha plena consciência do que enfrentaria. “Nós entendíamos o risco”, afirmou anos depois. Não se tratava de um ambiente desconhecido, mas de um cenário extremo, onde cada decisão carregava consequências irreversíveis.
A operação foi organizada rapidamente. Equipamentos básicos foram distribuídos, lanternas preparadas e o trajeto definido. Não havia tempo para planejamento ideal. Havia apenas a necessidade de evitar algo ainda pior. “Alguém tinha que fazer isso”, disse, ao relembrar a decisão que o levou até ali.A entrada nas galerias inundadas exigia precisão. A água dificultava o deslocamento, a visibilidade era limitada e os níveis de radiação eram elevados. Cada passo precisava ser calculado. O tempo de exposição não podia se prolongar. Não havia margem para erro.
Ananenko avançou com a consciência de que aquela ação poderia comprometer sua própria vida. Ainda assim, a lógica era clara. “Se não fizéssemos, seria pior”, afirmou. A missão não era reverter o desastre, mas impedir que ele se ampliasse de forma ainda mais destrutiva.
As válvulas foram abertas. A água começou a escoar. O risco imediato de uma nova explosão foi reduzido. Durante anos, a operação foi envolta em silêncio e, em muitos relatos, tratada como uma missão sem retorno. Com o tempo, tornou-se claro que os engenheiros sobreviveram à ação, contrariando versões iniciais que reforçavam a ideia de sacrifício imediato. Ainda assim, o episódio permaneceu como um dos momentos mais críticos da contenção do acidente.
Quarenta anos depois, a trajetória de Alexei Ananenko representa uma dimensão singular de Chernobyl. Não a do desconhecimento, nem a da reação impulsiva, mas a da decisão consciente. Em um cenário onde muitos foram expostos sem saber, ele avançou sabendo. Em meio ao caos, sua escolha foi guiada pelo entendimento técnico e pela responsabilidade coletiva.
Chernobyl foi marcado por erros, silêncio e atraso. Mas também por decisões que evitaram consequências ainda maiores. Entre elas, a de um engenheiro que entrou no coração do risco não por falta de informação, mas justamente porque a tinha.
arquivo EM/Afp
A tragédia em imagens
Infância Interrompida
Entre restos de infância e silêncio, o tempo parece ter parado. A máscara e a boneca, esquecidas no jardim de infância de Pripyat, contam uma história que não precisou de palavras: a de uma partida repentina, marcada pelo invisível. Décadas depois, ainda são testemunhas de um dia em que a rotina foi interrompida e nunca retomada.
Meses após a explosão, quando as chamas já não eram visíveis, Sergei Belyakov foi enviado à zona de exclusão para enfrentar o que permanecia ativo e invisível. Entre ruínas, silêncio e radiação, o químico integrou o grupo dos liquidadores, submetido a limites extremos de tempo e proteção
fotos arquivo EM/Afp
Sergei Belyakov, o liquidador
Integrou o grupo enviado para remover materiais radioativos e conter a contaminação nos meses seguintes
O homem que lutou contra o que não se via
Meses após a explosão do reator 4 da Usina Nuclear de Chernobyl, quando o incêndio já havia sido controlado e a evacuação consolidada, uma nova etapa do desastre começava a se desenhar. Não se tratava mais de apagar chamas, mas de conter o que permanecia ativo e invisível. Foi nesse cenário que milhares de homens foram enviados à região para atuar na limpeza e na contenção da radiação. Entre eles estava Sergei Belyakov.
Professor de química, ele foi convocado para integrar o grupo que passaria a ser conhecido como liquidadores. Ao chegar à zona de exclusão, encontrou um ambiente silencioso, marcado pela ausência humana e pela presença constante de um risco que não podia ser percebido diretamente. Prédios vazios, objetos abandonados e áreas contaminadas compunham uma paisagem que exigia ação imediata, mesmo sem garantia de segurança.
Belyakov participou de operações que incluíam a remoção de materiais radioativos, descontaminação de áreas e apoio à construção de estruturas de contenção. O trabalho era feito sob limites rígidos de tempo, definidos pela quantidade de radiação a que cada trabalhador podia ser exposto. Em muitos casos, a permanência em determinadas áreas não ultrapassava alguns minutos. Ainda assim, era necessário avançar.
Dever e exposição
O cotidiano dos liquidadores era marcado por uma lógica de urgência. Cada tarefa precisava ser executada rapidamente, reduzindo ao máximo o tempo de exposição. Equipamentos de proteção eram limitados, e a compreensão sobre os efeitos da radiação ainda era incompleta. Mesmo assim, as operações seguiam, sustentadas pela necessidade de evitar que o desastre se expandisse.
Anos depois, ao relembrar o que viu, Belyakov descreveu uma imagem que se tornaria uma das mais simbólicas daquele período. “Parecia tudo amarelo”, afirmou em entrevista. “No começo, achei que fosse a luz. Depois percebi que o chão estava coberto. Eram borboletas mortas.” A cena relatada sintetiza o impacto silencioso da radiação sobre o ambiente.
A experiência deixou marcas permanentes. Muitos liquidadores desenvolveram problemas de saúde ao longo dos anos, consequência direta da exposição a níveis elevados de radiação. No caso de Belyakov, as lembranças permaneceram como um registro contínuo do que foi vivido. “Você não via o perigo”, disse. “Mas sabia que ele estava ali.”
Quarenta anos depois, a trajetória de Sergei Belyakov representa uma das dimensões menos visíveis de Chernobyl. A dos que chegaram depois, quando o mundo já conhecia o desastre, mas ainda precisava enfrentá-lo. Homens que não combateram o fogo inicial, mas lidaram com suas consequências diretas, atuando em um território onde o risco não desapareceu, apenas mudou de forma.
Entre ruínas e silêncio, o trabalho dos liquidadores ajudou a conter o avanço da contaminação. Mas também revelou o custo humano de uma operação em condições extremas, onde cada decisão era tomada sob a pressão do tempo e da exposição. Em Chernobyl, o desastre não terminou com a explosão. Para muitos, como Belyakov, ele apenas começou ali.
Arquivo EM/Afp
A tragédia em imagens
A “pata de elefante’’
Nos níveis mais profundos da usina, onde a luz não chega, a “Pata de Elefante” permanece como um vestígio endurecido da explosão. A massa nascida da fusão entre combustível nuclear, concreto e metal, guarda em silêncio a memória de uma reação que não se encerrou naquele abril