Animais

As aparências enganam: animais com fama de ‘feios’ que são fundamentais para a vida no planeta

Em boa parte das culturas, certos animais são rotulados como feios, nojentos ou assustadores. No entanto, estudos recentes em ecologia indicam que muitos desses organismos estão entre os mais importantes para a manutenção da vida nos ecossistemas. Veja os detalhes!

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Em boa parte das culturas, certos animais são rotulados como feios, nojentos ou assustadores. Urubus, morcegos, sapos, abutres, minhocas, lesmas e diversos insetos decompositores costumam ser encarados como ameaça ou incômodo. No entanto, estudos recentes em ecologia indicam que muitos desses organismos estão entre os mais importantes para a manutenção da vida nos ecossistemas. Afinal, atuam em processos discretos, mas indispensáveis para a saúde de florestas, campos, cidades e até da agricultura.

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A palavra-chave desse debate é importância ecológica. Ou seja, em vez de serem avaliados pela aparência, esses animais passam a ser observados pelo que fazem: reciclar nutrientes, controlar populações de pragas, polinizar plantas, dispersar sementes e limpar carcaças. Assim, pesquisas divulgadas por universidades brasileiras e estrangeiras até 2026 reforçam que a perda desses grupos tende a gerar efeitos em cadeia, com impactos ambientais e sanitários que podem atingir diretamente populações humanas.

Urubus, morcegos, sapos, abutres, minhocas, lesmas e diversos insetos decompositores costumam ser encarados como ameaça ou incômodo. No entanto, estudos recentes em ecologia indicam que muitos desses organismos estão entre os mais importantes para a manutenção da vida nos ecossistemas – depositphotos.com / Perreten

Importância ecológica dos animais considerados feios

Quando se fala em animais feios, a reação comum tende a ser o afastamento ou a tentativa de eliminação. Pelo ponto de vista da ecologia, porém, muitos deles funcionam como peças centrais em uma engrenagem complexa. Urubus e abutres, por exemplo, são especialistas em consumir carcaças. Assim, ao retirar rapidamente restos de animais mortos do ambiente, reduzem a proliferação de bactérias e de vetores de doenças, ajudando a controlar riscos de surtos que poderiam ganhar escala regional.

Em escala menor, mas igualmente relevante, minhocas, lesmas e insetos decompositores fragmentam folhas, galhos e matéria orgânica em decomposição. Esse trabalho facilita a ação de fungos e microrganismos, devolvendo nutrientes ao solo em forma aproveitável para as plantas. Em áreas agrícolas, solos ricos em minhocas costumam ter melhor estrutura, maior retenção de água e fertilidade mais estável, fatores que contribuem para lavouras mais resilientes a secas e chuvas intensas.

Os sapos, por sua vez, são predadores eficientes de insetos, incluindo mosquitos transmissores de doenças e pragas que atacam plantações. Já morcegos apresentam dupla função: espécies insetívoras consomem grandes quantidades de insetos a cada noite, enquanto morcegos frugívoros e nectarívoros atuam na dispersão de sementes e na polinização de árvores e plantas nativas, especialmente em florestas tropicais como a Mata Atlântica e a Amazônia.

Como esses animais ajudam a reciclar nutrientes e controlar pragas?

A reciclagem de nutrientes é um dos processos ecológicos mais relevantes ligados a animais desprestigiados pela estética. Afinal, em florestas, a matéria orgânica que cai no chão é rapidamente ocupada por formigas, besouros, larvas, minhocas e outros decompositores. Ao triturar esse material, esses organismos:

  • Aceleram a decomposição de folhas, frutos e galhos;
  • Aumentam a aeração do solo, facilitando a penetração de água e raízes;
  • Favorecem o ciclo de nitrogênio, fósforo e outros nutrientes essenciais;
  • Contribuem para o sequestro de carbono no solo, ajudando no equilíbrio do clima.

No controle de pragas, anfíbios e morcegos ganham destaque. Esforços de monitoramento em áreas rurais registram que uma única colônia de morcegos insetívoros pode consumir toneladas de insetos ao longo de um ano. Isso reduz a necessidade de pesticidas químicos, com reflexos na qualidade da água, do solo e da saúde humana. Em ambientes urbanos e periurbanos, sapos e pererecas também ajudam a limitar populações de mosquitos, incluindo espécies do gênero Aedes, associados a surtos virais.

Em paisagens abertas, como pastagens e cerrados, urubus e carcarás cumprem o papel de limpeza. Ao remover carcaças de animais de grande porte, diminuem a atração de cães ferais e outros vetores que poderiam espalhar patógenos. Pesquisadores de ecologia de doenças apontam que a redução de populações de abutres em algumas regiões da Ásia, registrada nas últimas décadas, esteve associada ao aumento de cães de rua e, como efeito indireto, a mais casos de raiva em seres humanos.

Por que a ciência defende esses animais apesar da aparência?

A distância entre a percepção estética e o valor ecológico é tema recorrente em entrevistas com biólogos e ecólogos. Especialistas em conservação costumam enfatizar que a ideia de beleza na natureza é um constructo cultural. Em muitas sociedades, figuras como o urubu, o sapo ou o morcego foram associadas a mau agouro, bruxaria ou sujeira. Essas narrativas, repetidas em histórias, filmes e lendas, consolidaram uma visão negativa que pouco dialoga com as funções ecológicas desses organismos.

Pesquisadores da área de conservação argumentam que essa visão estética pode atrapalhar políticas públicas. Espécies carismáticas, como grandes mamíferos e aves coloridas, tendem a receber mais atenção em campanhas, enquanto grupos considerados feios permanecem invisíveis, mesmo quando têm impacto direto em processos como polinização, fertilidade do solo e controle biológico. Por isso, projetos recentes de educação ambiental passaram a destacar o conceito de serviços ecossistêmicos, apresentando de forma didática o que cada espécie oferece ao equilíbrio ambiental.

Entre os exemplos citados por especialistas estão:

  1. Morcegos polinizadores de cactos e árvores nativas, essenciais para a regeneração de áreas degradadas;
  2. Sapos e pererecas como indicadores de qualidade da água e do ar, já que são sensíveis à poluição;
  3. Minhocas como engenheiras do solo, criando galerias que facilitam a infiltração de água e reduzem erosão;
  4. Urubus e abutres atuando como barreira sanitária natural, contendo doenças ligadas a carcaças em decomposição.
Urubus e abutres são especialistas em consumir carcaças. Assim, ao retirar rapidamente restos de animais mortos do ambiente, reduzem a proliferação de bactérias e de vetores de doenças, ajudando a controlar riscos de surtos que poderiam ganhar escala regional – depositphotos.com / Víctor Suárez

Curiosidades, adaptações evolutivas e saúde dos ecossistemas

As características que costumam causar repulsa são, em muitos casos, adaptações evolutivas altamente eficientes. O bico forte e a ausência de penas na cabeça dos abutres, por exemplo, facilitam a alimentação em carcaças sem acumular tanta sujeira, reduzindo riscos de infecção. As asas membranosas dos morcegos permitem manobras precisas no ar, o que ajuda na captura de insetos durante voos noturnos. Já a pele úmida dos sapos auxilia nas trocas gasosas e no equilíbrio hídrico, embora os torne sensíveis a poluição e desmatamento.

Insetos decompositores e minhocas apresentam sistemas digestivos adaptados para processar matéria orgânica rica em microrganismos. Ao atravessarem o solo, deixam para trás fezes ricas em nutrientes, conhecidas em estudos de agronomia como húmus de minhoca. Esse material melhora a estrutura física do solo, contribuindo para a produtividade agrícola sem depender apenas de fertilizantes sintéticos. Em paralelo, certas lesmas e caracóis ajudam a eliminar restos vegetais, atuando na limpeza de jardins e áreas naturais.

Em termos de conservação, especialistas chamam atenção para a necessidade de proteção desses grupos pouco carismáticos. A destruição de habitats, o uso intensivo de agrotóxicos, a poluição luminosa e sonora e a perseguição direta por medo ou preconceito vêm reduzindo populações de sapos e morcegos em vários biomas. A perda desses animais tende a afetar a saúde dos ecossistemas, com possíveis aumentos de pragas agrícolas, desequilíbrios nas cadeias alimentares e acúmulo de matéria orgânica e carcaças.

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Projetos de educação ambiental e divulgação científica têm buscado aproximar o público dessa realidade, mostrando que a natureza não opera segundo critérios humanos de beleza. Em vez disso, funciona como uma rede de interdependências, na qual animais muitas vezes vistos como feios ou indesejados desempenham tarefas essenciais. Ao reconhecer a importância ecológica de urubus, morcegos, sapos, abutres, minhocas, lesmas e insetos decompositores, amplia-se a compreensão de que a conservação da biodiversidade passa também por valorizar o que, à primeira vista, pode não parecer atraente, mas mantém o planeta em funcionamento.

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