Lixo, equipamentos abandonados e corpos congelados: os desafios que se acumulam nas encostas do Monte Everest
Com o passar do tempo, toneladas de lixo, equipamentos abandonados e até corpos de alpinistas passaram a compor a paisagem do Everest. Veja os desafios que se acumulam no monte mais famoso do mundo.
compartilhe
SIGA
Ao longo de mais de setenta anos de escaladas, o Monte Everest acumulou não apenas histórias de conquistas e tragédias, mas também um grave passivo ambiental. A popularização do turismo de alta montanha, especialmente a partir da década de 1990, fez crescer o fluxo de expedições comerciais rumo ao topo mais alto do planeta. Com isso, toneladas de lixo, equipamentos abandonados e até corpos de alpinistas passaram a compor a paisagem em diferentes trechos da rota tradicional. Assim, isso passou a gerar preocupação entre autoridades, cientistas e moradores locais.
O Everest, que está na fronteira entre Nepal e Região Autônoma do Tibete, na China, tornou-se símbolo máximo do montanhismo moderno. Agências oferecem pacotes para quem deseja tentar o cume, e a temporada de ascensão, entre abril e maio, atrai centenas de pessoas todos os anos. Por isso, esse movimento intenso, somado às dificuldades de recolher resíduos em um ambiente extremo, contribuiu para transformar partes da montanha em um grande depósito de detritos congelados, visível sobretudo nos acampamentos mais altos.
Impacto do lixo no Monte Everest e na região
A palavra-chave central desse problema é lixo no Monte Everest. Afinal, a cada temporada, milhares de cilindros de oxigênio, barracas danificadas, cordas, embalagens de alimentos desidratados, latas, baterias e outros itens descartáveis são deixados no gelo. Muitos desses objetos se acumulam em áreas como o Acampamento Base, o Acampamento 2 e a chamada zona da morte, acima de 8 mil metros de altitude. Estima-se que, ao longo das décadas, já tenham sido deixadas dezenas de toneladas de resíduos sólidos na montanha.
O impacto não é apenas visual. Afinal, materiais metálicos, plásticos e tecidos sintéticos se degradam muito lentamente nas baixíssimas temperaturas, liberando microplásticos e substâncias químicas que podem contaminar a neve, a água de degelo e o solo rochoso. Além disso, o aumento do número de sanitários improvisados e o descarte irregular de resíduos humanos em áreas de acampamento trazem riscos sanitários para guias, carregadores de alta altitude e comunidades que vivem nos vales próximos, que dependem de rios alimentados pelo gelo do Himalaia.
Quais são os principais tipos de resíduos deixados no Everest?
Os resíduos que se acumularam ao longo do tempo no Everest são variados, mas seguem um padrão ligado às necessidades básicas de sobrevivência em alta montanha. Entre os itens mais encontrados, especialistas citam cilindros de oxigênio vazios, barracas rasgadas, sacos de dormir danificados, restos de cordas fixas, escadas de alumínio, panelas e fogareiros quebrados. Embalagens de comida liofilizada, garrafas plásticas, latas de combustível e roupas inutilizadas também são comuns.
- Cilindros de oxigênio: essenciais acima de certos trechos, acabam abandonados por causa do peso e do cansaço extremo.
- Barracas e estruturas de acampamento: muitas vezes rasgadas pelo vento, são deixadas para trás quando o tempo fecha ou a equipe precisa descer às pressas.
- Resíduos humanos: fezes e urina, que em alguns setores não são recolhidas de forma adequada, criando pontos de contaminação.
- Equipamentos quebrados: bastões, crampons, cordas e mochilas danificadas são descartados em meio ao gelo ou em fendas.
Com o passar dos anos, tempestades de neve, avalanches e o movimento das geleiras enterram parte desse material, que pode reaparecer muito tempo depois em outras áreas da montanha. Em alguns setores, o degelo associado às mudanças climáticas vem trazendo à superfície objetos esquecidos desde as primeiras expedições da década de 1950.
Quais esforços têm sido feitos para limpar o Monte Everest?
Diante da repercussão internacional sobre o problema, autoridades nepalesas, organizações ambientais e equipes especializadas iniciaram campanhas de limpeza em larga escala. O governo do Nepal, por exemplo, passou a exigir um depósito financeiro das expedições, devolvido apenas se cada grupo trouxer de volta uma quantidade mínima de resíduos. Além disso, campanhas anuais de limpeza, conduzidas muitas vezes por equipes de sherpas e militares, retiram toneladas de lixo dos acampamentos e de trechos críticos da rota.
- Regras mais rígidas: exigência de que cada alpinista traga de volta seus cilindros vazios e parte do lixo produzido durante a escalada.
- Campanhas de limpeza: expedições específicas, financiadas por governos, ONGs e patrocinadores privados, dedicadas apenas à remoção de resíduos.
- Monitoramento: fiscalização maior sobre empresas de expedição, com possibilidade de sanções para quem descumpre os regulamentos.
- Educação ambiental: ações de conscientização com montanhistas, guias e comunidades locais sobre o impacto dos resíduos.
Apesar dos avanços, as operações de limpeza encontram obstáculos significativos. O clima imprevisível, as altitudes extremas e a necessidade de priorizar a segurança das equipes fazem com que parte do lixo permaneça intocado em zonas muito elevadas. A logística para transportar esse material até vilarejos mais baixos também é complexa e cara, o que limita o alcance das iniciativas.
Por que tantos corpos permanecem no Monte Everest?
Outro aspecto sensível do Everest é a presença de dezenas de corpos de alpinistas que morreram durante tentativas de alcançar o cume. Muitos desses corpos permanecem na montanha por anos ou décadas, visíveis ao lado da rota principal ou parcialmente cobertos por neve e gelo. Em diversas situações, o local onde a pessoa morreu está em áreas de difícil acesso, em encostas íngremes, fendas ou trechos expostos ao vento e ao frio extremos.
A recuperação de corpos em altitude muito elevada envolve riscos extremos. Acima de 8 mil metros, na chamada zona da morte, a quantidade de oxigênio no ar é reduzida, o que compromete a capacidade física e mental dos resgatistas. As temperaturas podem cair a níveis capazes de causar congelamento em poucos minutos, e o terreno é composto por gelo duro, rochas soltas e fendas profundas. Qualquer esforço extra, como carregar pesos adicionais, aumenta as chances de exaustão, edema pulmonar ou cerebral e quedas.
Além disso, a remoção de um corpo congelado, muitas vezes preso ao gelo ou a cordas antigas, exige equipamentos específicos e equipes experientes. Em alguns casos, famílias e autoridades optam por deixar o corpo onde está, tratando a montanha como um local de descanso final, diante do perigo envolvido em uma operação de recuperação. Quando resgates são realizados, eles costumam ocorrer em altitudes mais baixas, onde o risco para os socorristas é relativamente menor, embora ainda significativo.
Desafios futuros para preservar o Everest
A combinação entre aumento do turismo de aventura, mudanças climáticas e fragilidade ambiental torna o futuro do Everest um tema de preocupação constante. Especialistas apontam que a redução do lixo no Monte Everest passa por políticas mais firmes de controle de acesso, limitação do número de permissões de escalada por temporada e exigência de planos detalhados de gestão de resíduos por parte das operadoras. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento econômico da região depende, em parte, desse fluxo de visitantes, o que exige equilíbrio nas decisões.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Também há discussões em curso sobre protocolos mais claros para lidar com corpos de alpinistas, incluindo acordos prévios com as famílias sobre eventuais resgates ou sobre a possibilidade de deixar os restos mortais na montanha. A combinação de tecnologia, treinamento especializado e regulamentação pode reduzir o número de acidentes e, consequentemente, a quantidade de corpos que permanecem no local. O Everest, ao mesmo tempo símbolo de desafio humano e ambiente frágil, continua a exigir atenção constante para que a exploração esportiva não se sobreponha à preservação ambiental e à segurança de quem se arrisca em suas encostas.