Curiosidades

O frescor do passado: como tijolos porosos, cerâmica e a evaporação de água resfriavam casas antes da era da eletricidade

Tijolos de resfriamento tradicionais mostram como o resfriamento evaporativo ancestral reduz calor interno e inspira arquitetura bioclimática moderna

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Em diferentes civilizações ao longo da história, a busca por ambientes internos mais frescos em climas quentes levou ao uso de soluções simples e engenhosas, baseadas em água, barro e circulação de ar. Muito antes da popularização do ar-condicionado, comunidades inteiras já construíam casas, pátios e sistemas de ventilação que tiravam proveito da evaporação da água para reduzir a temperatura. Esse conjunto de técnicas, hoje frequentemente chamado de resfriamento evaporativo tradicional, volta a ganhar espaço em debates sobre arquitetura sustentável e combate às ilhas de calor nas cidades.

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A lógica central é direta: quando a água evapora em contato com superfícies porosas, como cerâmica ou barro, ela absorve calor do ambiente e o transforma em energia de mudança de fase, retirando calor sensível do ar e das paredes. Essa física elementar, estudada pela termodinâmica moderna, já era usada intuitivamente por povos da Antiguidade em regiões como Oriente Médio, Norte da África, Índia e Mediterrâneo. Tijolos de resfriamento, jarros dágua pendurados em janelas e torres de vento mostram como o conhecimento empírico foi transformado em soluções arquitetônicas duráveis.

Como funciona o resfriamento evaporativo em tijolos e jarros de barro?

A água precisa de energia para passar do estado líquido para o gasoso. No resfriamento evaporativo, essa energia é retirada do ar e das superfícies ao redor, em forma de calor. Materiais porosos, como tijolos de barro e cerâmica não vitrificada, têm uma rede de pequenos canais internos que ajudam a espalhar a água e aumentar a área de contato com o ar. Assim, a evaporação acontece em muitos pontos ao mesmo tempo, ampliando o efeito de resfriamento.

Quando esses blocos ou jarros úmidos são colocados em áreas ventiladas, a circulação de ar retira o vapor formado e traz ar mais seco para o contato com a superfície molhada. Esse ciclo contínuo reforça o efeito evaporativo. Em termos de termodinâmica, trata-se de uma conversão de calor sensível em calor latente: a temperatura do ar e das superfícies diminui, enquanto a água ganha energia para mudar de fase. O resultado é um microclima mais ameno ao redor do elemento de barro ou cerâmica.

Estruturas tradicionais conhecidas como Badgirs captavam vento e o resfriavam com água antes de levá-lo aos ambientes internos – depositphotos.com / nmessana

O que são tijolos de resfriamento tradicionais e Cool Bricks?

Em várias culturas, foram desenvolvidos tijolos de resfriamento feitos de barro cru, frequentemente não revestidos, justamente para manter a porosidade. Esses elementos podiam compor paredes externas, divisórias internas ou painéis em janelas, sempre associados à presença de água. Em climas áridos, bastava umedecer periodicamente a superfície para manter o sistema ativo durante o dia mais quente.

Projetos contemporâneos inspirados nessa lógica deram origem a módulos conhecidos internacionalmente como Cool Bricks. Em vez de simplesmente repetir formas antigas, esses blocos utilizam geometrias otimizadas para permitir a passagem de ar e a retenção de água em reservatórios internos. Algumas versões são produzidas em impressão 3D com cerâmica, organizando cavidades internas que funcionam como um labirinto de evaporação. Embora o termo seja recente, a ideia remete aos antigos tijolos de barro molhado, ajustados agora a demandas urbanas e a fachadas de edifícios que buscam reduzir o uso de climatização mecânica.

  • Barro cru ou cerâmica porosa para armazenar água;
  • Aberturas que permitem o fluxo de ar através do tijolo;
  • Superfícies internas ampliadas para favorecer a evaporação;
  • Possibilidade de irrigação manual ou por gotejamento.

Jarros de água em janelas: um ar-condicionado ancestral?

Outro recurso bastante difundido historicamente é o uso de jarros de barro cheios de água posicionados em janelas ou portas. Em diversas regiões quentes, recipientes cerâmicos eram colocados próximos a aberturas para que o vento passasse por eles, resfriando o ar que entrava nos cômodos. Em alguns casos, tecidos úmidos eram estendidos sobre as janelas, funcionando como uma cortina evaporativa.

Nesse arranjo, o jarro de barro atua como um pequeno reservatório poroso. A água migra da parte interna do recipiente para a superfície externa, onde evapora lentamente. O ar que cruza essa superfície perde calor para o processo de evaporação e entra no ambiente com temperatura reduzida e umidade um pouco mais alta. Em residências simples, esse sistema reforçava o conforto principalmente em períodos de baixa umidade relativa, quando a evaporação é mais eficiente.

  1. O jarro de barro é preenchido com água;
  2. A porosidade permite a lenta passagem de água para a superfície externa;
  3. O vento que entra pela janela acelera a evaporação;
  4. O ar que atravessa a região ao redor do jarro chega mais fresco ao interior.
Muito antes da eletricidade, civilizações do Oriente Médio, Norte da África e Índia já usavam barro, água e circulação de ar para reduzir o calor dentro de casas e pátios – depositphotos.com / pitrs10

Como funcionam as torres de vento (Badgirs) do Oriente Médio?

Nas cidades históricas do Irã, do Egito e de outras regiões do Oriente Médio, surgiram as torres de vento, conhecidas como Badgirs. Essas estruturas verticais, acopladas ao topo das construções, captam o vento em diferentes direções e o conduzem para o interior dos edifícios. Em muitos casos, o ar que desce pela torre encontrava canais de água, tanques rasos ou paredes úmidas, combinando ventilação forçada natural com resfriamento evaporativo.

O princípio físico envolve diferenças de pressão e temperatura. A torre é dividida em canais voltados para os pontos cardeais. O lado exposto ao vento dominante capta o ar mais fresco e o direciona para o interior. Ao encontrar superfícies úmidas, parte da energia térmica do ar é usada na evaporação da água, reduzindo ainda mais a temperatura. O ar mais frio, sendo mais denso, tende a descer para os ambientes ocupados, enquanto o ar quente é expulso por outras aberturas ou por uma segunda torre, criando um circuito natural de ventilação.

  • Captação de vento em diferentes alturas;
  • Contatos sucessivos com reservatórios ou paredes molhadas;
  • Uso da gravidade e da diferença de densidade entre ar quente e frio;
  • Renovação constante do ar interno sem uso de energia elétrica.

De que forma o conhecimento ancestral inspira a arquitetura bioclimática atual?

Tijolos de resfriamento, jarros em janelas e torres de vento mostram que, ao combinar materiais porosos, água e boa orientação das aberturas, é possível atingir quedas significativas de temperatura interna com baixo custo e consumo energético nulo.

Em centros urbanos marcados por ilhas de calor, esses conceitos vêm sendo revisitados por arquitetos e engenheiros. Fachadas ventiladas com blocos cerâmicos irrigados, coberturas verdes associadas a superfícies evaporativas e pátios internos com espelhos dágua retomam elementos antigos sob novas formas. Além do ganho térmico, essas estratégias podem contribuir para a melhoria da qualidade do ar e para a redução da carga nos sistemas elétricos nos períodos mais quentes do ano.

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Ao observar essas soluções ancestrais, a discussão sobre conforto térmico se amplia além da tecnologia mecânica e entra no campo do desenho cuidadoso dos espaços. A combinação entre física básica da evaporação, conhecimento de materiais como barro e cerâmica e leitura atenta dos ventos locais oferece um repertório sólido para projetos contemporâneos. Nesse sentido, os tijolos de resfriamento tradicionais e as técnicas de resfriamento evaporativo da Antiguidade se apresentam como referências práticas para enfrentar desafios atuais de clima urbano e de consumo energético.

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