O mistério da dor abdominal no exercício: o que acontece entre o movimento, o peritônio e a respiração
A chamada dor de lado surge de forma súbita durante caminhadas rápidas, corridas leves ou treinos mais intensos, interrompendo o ritmo de quem se exercita.
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A chamada dor de lado surge de forma súbita durante caminhadas rápidas, corridas leves ou treinos mais intensos, interrompendo o ritmo de quem se exercita. Essa sensação aguda, localizada geralmente abaixo das costelas, recebe na medicina o nome de Dor Abdominal Transitória Relacionada ao Exercício (ETAP). Apesar de ocorrer com muita frequência, o fenômeno ainda intriga pesquisadores e gera diferentes explicações entre profissionais da saúde e da área esportiva.
Ao longo dos últimos anos, estudos em biomecânica e fisiologia humana afastaram explicações simplistas, como a ideia popular de que se trata apenas de uma cãibra no baço. Em vez disso, pesquisas recentes apontam para um conjunto de fatores que atuam ao mesmo tempo. Entre eles, destacam-se o impacto do movimento, a tensão sobre estruturas internas, a alimentação prévia e a forma de respirar. Desse modo, em vez de um único culpado, a ETAP passa a representar o resultado de uma interação complexa entre órgãos, ligamentos e membranas que revestem a cavidade abdominal.
O que é a dor de lado (ETAP) e por que ela não é cãibra no baço?
A ETAP corresponde a uma dor aguda, em pontada ou em queimação, que aparece sobretudo na região lateral do abdômen, mais frequentemente abaixo das costelas direitas ou esquerdas. Esse quadro ocorre durante atividades com movimento repetitivo do tronco, como corrida, natação e ciclismo em terrenos irregulares. Em geral, o desconforto diminui ou desaparece poucos minutos após a redução da intensidade do esforço ou após uma breve pausa.
A explicação popular de que a dor corresponde a uma cãibra no baço não encontra sustentação em investigações científicas. A ETAP pode surgir em ambos os lados do corpo, em pessoas sem qualquer alteração no baço e também em esportes com impacto relativamente menor. Além disso, exames de imagem realizados durante episódios não mostram sinais de contração anormal desse órgão. Por isso, pesquisadores direcionam a atenção para outras estruturas, em especial o peritônio e os ligamentos que sustentam os órgãos abdominais. Esses elementos explicam o quadro de forma mais completa e coerente.
Como o peritônio entra na história da dor abdominal no exercício?
O peritônio consiste em uma membrana fina e lisa que reveste a cavidade abdominal, chamada de peritônio parietal, e também envolve muitos órgãos internos, formando o peritônio visceral. Essas duas camadas deslizam uma sobre a outra, separadas por uma pequena quantidade de líquido lubrificante. Esse mecanismo permite que o conteúdo abdominal se mova com pouco atrito. Uma das principais teorias para a ETAP afirma que, durante o exercício, aumenta o atrito entre essas camadas, o que gera irritação local e dor.
Dois fatores se destacam nesse processo. O primeiro fator envolve o impacto repetitivo do corpo contra o solo, especialmente em corridas. Cada passo provoca um leve deslocamento dos órgãos, que balançam dentro da cavidade abdominal. O segundo fator relaciona-se à forma como o ar entra e sai dos pulmões. Respiração curta e superficial altera a movimentação do diafragma e modifica a tensão sobre o peritônio, o que favorece o contato mais intenso entre as duas camadas. Em combinação, essas alterações aumentam a sensibilidade das terminações nervosas presentes no peritônio parietal, que apresenta rica inervação.
Qual o papel dos ligamentos e da distensão gástrica na dor de lado?
Além do peritônio, outro foco importante de atenção envolve os ligamentos que conectam o estômago, o fígado, o diafragma e outras estruturas. Essas alças de tecido conjuntivo funcionam como pontos de sustentação dos órgãos, ajudando a mantê-los em posição. Em atividades com impacto ou movimentos repetidos, esses ligamentos sofrem tração constante. Assim, pesquisadores sugerem que essa tensão, somada ao peso adicional causado por estômago cheio ou excesso de líquidos, contribui para o aparecimento da ETAP.
A distensão gástrica após a alimentação figura entre os fatores mais citados por atletas amadores e profissionais. Grandes volumes de comida ou bebida pouco tempo antes do exercício aumentam o peso e o volume do estômago. Esse órgão, mais pesado, exerce maior tração sobre os ligamentos e sobre o peritônio próximo, o que intensifica o desconforto. Além disso, alimentos muito gordurosos, concentrados em açúcar ou com alto teor de fibras permanecem mais tempo no estômago. Esse processo prolonga a sensação de peso e eleva a chance de a dor de lado surgir, principalmente em esforços de média ou alta intensidade.
A respiração curta realmente piora a ETAP?
A respiração exerce papel central na ETAP, segundo diferentes trabalhos na área de fisiologia do exercício. Durante o esforço, o diafragma desce e sobe de forma ritmada, acompanhando a entrada e saída de ar dos pulmões. Quando a pessoa adota um padrão de respiração rápida e superficial, o movimento do diafragma torna-se menos eficiente e mais desorganizado. Esse padrão aumenta a tração sobre os pontos de fixação diafragmáticos e ligamentosos.
Esse tipo de respiração também modifica a pressão dentro da cavidade abdominal. Ao inspirar de maneira curta, a pessoa não aproveita completamente o ar, e o controle da musculatura abdominal perde coordenação. Essa combinação favorece um deslizamento menos suave entre as camadas do peritônio, o que amplia o atrito e, consequentemente, o risco de dor. Trabalhos com corredores mostram que, quando a respiração se torna mais profunda e cadenciada, muitos relatam redução da intensidade da ETAP mesmo sem interromper totalmente a atividade. Além disso, treinadores observam que atletas com melhor técnica respiratória tendem a apresentar menos episódios recorrentes.
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Como prevenir e aliviar a dor de lado com base na medicina esportiva?
- Planejamento da alimentação: evitar grandes refeições nas 2 a 3 horas que antecedem treinos e provas; priorizar lanches leves, com baixa gordura e baixo teor de fibras nesse período.
- Hidratação fracionada: ingerir líquidos em pequenos goles e em intervalos regulares, em vez de grandes volumes de uma só vez antes ou durante o exercício.
- Aquecimento progressivo: iniciar a atividade com ritmo mais lento, permitindo adaptação gradual do diafragma, dos ligamentos e das estruturas abdominais ao movimento.
- Trabalho respiratório: treinar respiração diafragmática, buscando inspirações mais profundas e expirações completas, sincronizadas com o ritmo da passada ou do gesto esportivo.
- Fortalecimento do core: realizar exercícios específicos para musculatura abdominal, lombar e do quadril contribui para estabilizar o tronco e reduzir movimentos excessivos dos órgãos internos.
Quando a dor já se instala, algumas ações simples costumam ajudar na prática esportiva:
- Reduzir o ritmo ou caminhar por alguns minutos para diminuir o impacto.
- Pressionar levemente a região dolorida com a mão, especialmente na fase de expiração.
- Alongar o lado acometido, elevando o braço correspondente e inclinando o tronco para o lado oposto.
- Adotar respiração mais lenta e profunda, tentando prolongar a expiração.