Geral

O livro que ninguém entende: como a IA tenta decifrar o misterioso Manuscrito Voynich do século XV

Mistério do Manuscrito Voynich: como a Inteligência Artificial tenta decifrar seu enigma medieval e o que a ciência já descobriu

Publicidade
Carregando...

Em uma biblioteca raramente visitada da Universidade Yale repousa um volume que intriga especialistas há mais de um século: o Manuscrito Voynich. Produzido provavelmente no início do século XV, o livro reúne cerca de 240 páginas cobertas por uma escrita desconhecida, acompanhada de ilustrações botânicas, astronômicas e anatômicas que não se encaixam em nenhum repertório iconográfico clássico. Cada página parece convidar à interpretação, mas recusa qualquer leitura direta, transformando o manuscrito em um laboratório permanente para linguistas históricos, criptógrafos e cientistas de dados.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

A estrutura física do livro é relativamente bem conhecida, graças a estudos de paleografia e análises de material. Testes de carbono realizados no pergaminho indicam uma datação entre 1404 e 1438, e o traçado das letras, estudado em detalhe, sugere a mão de um escriba treinado, familiarizado com técnicas formais de escrita medieval. Em contraste, o conteúdo permanece inacessível: o alfabeto não corresponde diretamente a nenhum sistema conhecido, e as plantas retratadas parecem híbridas ou inteiramente inventadas, enquanto diagramas astronômicos mostram constelações e zodíacos em arranjos pouco usuais para a Europa daquele período.

O que torna o Manuscrito Voynich tão difícil de decifrar?

Um dos pontos centrais que mantêm o Manuscrito Voynich como enigma é o seu aparente equilíbrio entre padrão e caos. Análises estatísticas apontam que a frequência das palavras e a distribuição dos símbolos lembram textos de línguas naturais, como latim ou italiano medieval, com repetições, variação de tamanho e estrutura sintática plausíveis. Ao mesmo tempo, a ausência de correspondência clara com qualquer idioma documentado, somada à inexistência de texto paralelo (como uma tradução ou glosa), cria um impasse para linguistas e criptógrafos tradicionais.

Do ponto de vista da paleografia, a caligrafia é consistente, sem sinais evidentes de correção extensiva ou hesitação, o que indica que o escriba dominava o sistema que utilizava. Isso levou pesquisadores a considerar hipóteses variadas: língua perdida, código complexo, escrita artificial ou até um elaborado artifício para enganar colecionadores renascentistas. Nenhuma dessas possibilidades foi confirmada de forma robusta, e o equilíbrio entre regularidade linguística e ausência de decifração verificável segue alimentando debates acadêmicos.

Botânica: Plantas fantásticas desenhadas com detalhes, mas não identificáveis em herbários históricos – Wikimedia Commons/Autor desconhecido

Como a Inteligência Artificial tenta decifrar o Manuscrito Voynich?

Com o avanço da Inteligência Artificial e do Processamento de Linguagem Natural (NLP), o Manuscrito Voynich passou a ser alvo de experimentos computacionais cada vez mais sofisticados. Em linhas gerais, os pesquisadores aplicam algoritmos de aprendizado de máquina para responder a duas questões principais: se o texto codifica uma língua real e, em caso afirmativo, qual seria sua família linguística, e se a escrita segue algum tipo de cifra, substituição ou codificação sistemática.

Entre as abordagens mais comuns estão:

  • Análise de frequência de caracteres: comparação da distribuição de símbolos do manuscrito com corpora de línguas históricas e modernas.
  • Modelagem estatística: uso de modelos de linguagem para avaliar se a sequência de palavras corresponde a padrões típicos de textos naturais.
  • Aprendizado supervisionado: treinamento de algoritmos em textos cifrados e decifrados conhecidos para identificar assinaturas típicas de certos tipos de cifra.
  • Clusterização e redução de dimensionalidade: tentativa de agrupar termos recorrentes e segmentos do texto que possam indicar tópicos ou seções temáticas.

Essas estratégias recorrem a técnicas de NLP contemporâneas, como n-gramas, redes neurais e métodos bayesianos, adaptadas ao desafio de lidar com um corpus extremamente pequeno e sem rótulos, características que fogem ao cenário ideal dos grandes conjuntos de dados que impulsionaram a IA nos últimos anos.

O estudo da Universidade de Alberta foi um avanço definitivo?

Um dos casos mais citados no debate recente é o trabalho de pesquisadores da Universidade de Alberta, no Canadá, divulgado a partir de 2018. A equipe utilizou algoritmos de aprendizado de máquina para comparar o padrão de distribuição das palavras do Manuscrito Voynich com textos de diversas línguas, focando especialmente em idiomas semíticos. O sistema sugeriu que algumas estruturas poderiam ser compatíveis com o hebraico, levando à hipótese de um texto cifrado ou abreviado nessa língua.

O método adotado envolveu etapas como:

  1. Construção de um corpus de referência com textos em múltiplas línguas, inclusive versões cifradas.
  2. Aplicação de algoritmos de classificação para avaliar a proximidade estatística entre o manuscrito e cada língua do conjunto.
  3. Testes de substituição e reordenação de caracteres para buscar correspondências plausíveis com vocabulário conhecido.

Apesar do impacto inicial, a comunidade acadêmica recebeu os resultados com cautela. Especialistas em hebraico medieval e criptografia ressaltaram que a correspondência proposta dependia de interpretações flexíveis, em que múltiplas leituras possíveis eram selecionadas de forma retrospectiva. Até 2026, não há consenso de que esse estudo tenha produzido uma tradução consistente ou verificável, e o trabalho é frequentemente citado como exemplo das possibilidades e dos limites da IA aplicada a textos históricos obscuros.

Dialeto ou idioma histórico ainda não identificado – Wikimedia Commons/Autor desconhecido

Por que o enigma persiste mesmo com tanto poder computacional?

A permanência do Manuscrito Voynich como mistério, mesmo após décadas de avanços em ciência de dados, expõe fragilidades importantes dos modelos atuais de Inteligência Artificial. Em primeiro lugar, os algoritmos de NLP dependem de grandes quantidades de dados rotulados para aprender padrões robustos; no caso do manuscrito, o corpus é único, pequeno e sem chave de referência. Isso dificulta tanto o treinamento quanto a validação de qualquer hipótese de leitura.

Outro obstáculo é de natureza histórica e cultural. A IA pode detectar padrões formais, mas não substitui o conhecimento contextual de paleógrafos, historiadores da ciência e linguistas especializados em línguas medievais. Sem compreensão do ambiente intelectual do século XV, das tradições esotéricas, médicas e astrológicas e das convenções gráficas da época, mesmo o melhor modelo computacional tende a propor soluções que não se sustentam diante da crítica filológica.

Além disso, permanece aberta a possibilidade de que o texto represente uma língua artificial, um código privado ou mesmo um produto deliberadamente não semântico. Se o sistema de sinais não tiver correspondência estável com significados ou com uma língua natural, métodos de NLP e aprendizado de máquina podem identificar regularidades internas, mas não chegarão a uma tradução tradicional. Dessa forma, o livro continua a funcionar como um ponto de encontro entre tecnologia, história e linguística, estimulando novas investigações sem entregar respostas definitivas.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Assim, o Manuscrito Voynich segue ocupando um lugar singular: objeto de estudo rigoroso para paleógrafos, desafio permanente para criptógrafos e campo de teste para técnicas de Inteligência Artificial. Longe de encerrar o debate, o uso de algoritmos e modelos estatísticos reforça a percepção de que ciência de dados e humanidades precisam caminhar juntas para enfrentar enigmas desse tipo, em que o código, se existir, está entranhado tanto nos sinais escritos quanto na cultura que os produziu.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay