Comportamento

Síndrome do impostor: por que pessoas competentes se sentem fraudes e o que a psicologia revela sobre isso

Em escritórios modernos, hospitais, universidades e ambientes criativos, muitos profissionais altamente qualificados relatam uma sensação silenciosa de fraude.

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Em escritórios modernos, hospitais, universidades e ambientes criativos, muitos profissionais altamente qualificados relatam uma sensação silenciosa de fraude. Eles sentem uma impressão constante de que enganam os outros sobre sua competência e que, a qualquer momento, alguém irá desmascará-los. Especialistas chamam esse fenômeno de síndrome do impostor. Ele atinge pessoas de diferentes áreas, níveis de experiência e formações acadêmicas. Além disso, também afeta profissionais com trajetórias já consolidadas.

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No fim da década de 1970, as psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes descreveram o termo pela primeira vez. Elas investigaram mulheres com alta performance acadêmica e profissional. Durante essa investigação, perceberam um padrão. Mesmo diante de evidências de sucesso, essas pessoas interpretavam resultados positivos como sorte, esforço excessivo ou engano dos outros. Elas raramente viam o sucesso como reflexo de habilidade real. Décadas depois, estudos em diversos países confirmam esse padrão em diferentes gêneros e contextos culturais. Portanto, a síndrome do impostor não se limita a um grupo específico.

O que está por trás da sensação de ser uma fraude?

A síndrome do impostor funciona como uma espécie de máscara social. Por fora, a pessoa aparenta segurança, produtividade e domínio técnico. No entanto, por dentro, ela sente medo de falhar, vergonha antecipada e uma vigilância constante para não decepcionar os outros. Essa máscara não representa, necessariamente, uma mentira deliberada. Em vez disso, ela surge como defesa construída a partir de crenças rígidas sobre o próprio valor e sobre o que significa ser competente. Assim, a pessoa atua como se protegesse uma identidade frágil.

Três mecanismos psicológicos aparecem com frequência nesse processo. Em primeiro lugar, surge o viés de confirmação. Essa tendência leva a pessoa a selecionar, lembrar e valorizar apenas as informações que reforçam a ideia de que ela não é boa o bastante. Desse modo, um erro em uma apresentação ganha muito mais peso do que meses de entregas bem-sucedidas. Em segundo lugar, ocorre a atribuição externa do sucesso. A pessoa explica conquistas principalmente por fatores como sorte, timing, ajuda de colegas ou benevolência da chefia. Ao mesmo tempo, atribui falhas diretamente à própria incapacidade pessoal. Por fim, o terceiro mecanismo se liga ao perfeccionismo. Esse traço pode se mostrar adaptativo quando orienta para o aprimoramento. Contudo, torna-se desadaptativo quando estabelece padrões inalcançáveis e transforma qualquer resultado menos que ideal em sinal de incompetência.

Síndrome do impostor – depositphotos.com / HayDmitriy

Síndrome do impostor: quais são os tipos mais comuns?

Na literatura contemporânea, especialmente em materiais baseados no trabalho de Pauline Clance e em pesquisas posteriores, muitos autores descrevem a síndrome do impostor por meio de perfis ou tipos de impostores. Esses perfis não funcionam como diagnósticos clínicos. Ainda assim, eles ajudam a entender como o fenômeno se manifesta na prática, em diferentes estilos de personalidade e de trabalho. Além disso, esses tipos orientam intervenções mais precisas em psicoterapia e em programas de desenvolvimento profissional.

  • O perfeccionista: foca em mínimos detalhes e sente que nunca entrega o suficiente. Interpreta qualquer pequena falha como prova de incapacidade. Por isso, planeja e revisa em excesso, tem dificuldade em delegar e em reconhecer que resultados bons, ainda que imperfeitos, também possuem valor.
  • O gênio natural: acredita que pessoas realmente talentosas deveriam aprender com rapidez e sem esforço. Quando encontra algo difícil ou precisa estudar muito, conclui que não é inteligente de verdade. Esse perfil tende a evitar desafios em que exista risco de não dominar o conteúdo de imediato. Consequentemente, limita seu crescimento por medo de sentir frustração.
  • O especialista: sente que nunca sabe o bastante. Assim, coleciona cursos, certificações e leituras, mas sempre enxerga uma lacuna a preencher antes de se considerar apto. Em reuniões, pode evitar opinar por achar que ainda não domina todos os aspectos do tema. Com isso, perde oportunidades de visibilidade e reconhecimento genuíno.
  • O individualista: valoriza resolver tudo sozinho e associa pedir ajuda a fraqueza ou incompetência. Quando precisa de apoio, interpreta essa necessidade como confirmação de que não é tão bom quanto os outros pensam. Em consequência, assume cargas excessivas e se exaure com frequência.
  • O super-humano: tenta dar conta de múltiplos papéis ao mesmo tempo trabalho, família, estudos, projetos paralelos e entende que ser bom significa ser excelente em todas as frentes. Qualquer sinal de cansaço ou limite aparece, então, como falha pessoal. Esse perfil se aproxima muito de quadros de burnout em ambientes competitivos.

Como a máscara social se forma e se mantém?

A metáfora da máscara social ajuda a entender melhor o impacto da síndrome do impostor nas relações profissionais e acadêmicas. Ao longo da vida, a pessoa aprende que precisa se mostrar segura, disponível e sempre preparada. Ela faz isso mesmo quando, internamente, sente muitas dúvidas. Essa distância entre o que sente e o que exibe reforça, pouco a pouco, a ideia de fraude. Quanto mais reconhecimento vem de fora, maior se torna o medo de ser descoberta. Assim, o sucesso, em vez de aliviar a insegurança, acaba intensificando o conflito interno.

Experiências familiares e escolares contribuem diretamente para essa construção. Infâncias muito centradas em desempenho, com elogios condicionados a resultados perfeitos ou comparações constantes com irmãos e colegas, tendem a alimentar crenças rígidas sobre valor pessoal. Além disso, professores que humilham erros ou ridicularizam dúvidas podem reforçar a ideia de que falhar nunca se permite. Em ambientes corporativos competitivos, metas agressivas e avaliações frequentes intensificam essa sensação, sobretudo quando líderes punem falhas com dureza e tratam acertos apenas como mera obrigação. Dessa forma, o contexto valida e fortalece a máscara.

Outra peça importante desse quebra-cabeça envolve o contexto atual de redes sociais. Perfis profissionais e acadêmicos exibem trajetórias aparentemente lineares, prêmios e promoções, quase sempre sem mostrar bastidores de tentativas frustradas ou processos de aprendizagem. Esse contraste entre a vida real, cheia de erros, e a vitrine digital alimenta a sensação de estar sempre aquém. Esse efeito aparece com ainda mais força em áreas de alta performance, como tecnologia, pesquisa e criação de conteúdo. Além disso, o consumo constante de comparações online reduz a percepção de avanço pessoal, mesmo quando a pessoa progride de forma consistente.

Que papel a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ter nesse processo?

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) se destaca entre as abordagens mais estudadas para lidar com padrões de pensamento ligados à síndrome do impostor. Em linhas gerais, a TCC parte da ideia de que pensamentos, emoções e comportamentos se influenciam mutuamente. Ao identificar e questionar crenças distorcidas, a pessoa começa a agir de maneira diferente. Isso gera novas experiências e, pouco a pouco, modifica a forma como ela se enxerga.

Entre as estratégias práticas mais utilizadas, destacam-se:

  1. Mapeamento de pensamentos automáticos: a pessoa registra situações em que surge a sensação de fraude, como ao receber um elogio ou um convite para liderar um projeto. Em seguida, ela anota os pensamentos que aparecem, por exemplo: não mereço, me escolheram por engano ou qualquer um faria melhor. Com o tempo, esse registro revela padrões repetitivos e gatilhos específicos.
  2. Questionamento socrático: depois de identificar os pensamentos, a pessoa analisa essas ideias com perguntas específicas. Por exemplo: qual é a evidência a favor e contra essa ideia?. Ou ainda: se outra pessoa com o mesmo histórico estivesse nessa situação, a interpretação seria a mesma?.
  3. Reatribuição de sucesso: a pessoa treina a inclusão de fatores internos ao explicar conquistas, reconhecendo esforço, estudo, organização e habilidades interpessoais. Ela faz isso sem excluir completamente elementos externos, como contexto e oportunidade.
  4. Ajuste de padrões perfeccionistas: a TCC ajuda a diferenciar perfeccionismo adaptativo e perfeccionismo desadaptativo. No primeiro, a pessoa busca qualidade, mas aceita erros e aprendizado. No segundo, ela adota uma lógica de tudo ou nada, sente medo intenso de falhar e muitas vezes procrastina por receio de não fazer perfeito. Terapeutas costumam propor metas graduais de bom o bastante, em vez de metas irreais.
  5. Exposição gradual a desafios: em vez de evitar situações desafiadoras, a pessoa aceita convites, responsabilidades ou tarefas que geram medo de não corresponder, mas em níveis de risco calculados. Cada experiência bem-sucedida se torna um dado concreto contra a ideia de fraude. Mesmo quando algo não sai exatamente como esperado, o terapeuta trabalha a interpretação do resultado.

É possível normalizar o sentimento em ambientes competitivos?

Diversas pesquisas recentes indicam que muitas pessoas se sentem impostoras em algum momento da carreira, especialmente em transições importantes. Entre essas transições, aparecem promoções, mudanças de área ou ingresso em instituições de prestígio. Em vez de sinal de fraqueza, esses sentimentos podem apenas indicar que a pessoa está saindo de zonas de conforto e enfrentando novas demandas. Assim, o desconforto também aponta crescimento e não apenas inadequação.

Quando líderes e equipes discutem o tema de forma aberta, sem exposição constrangedora, criam espaço para tratar dúvidas e inseguranças com seriedade, e não como motivo de vergonha. Políticas de feedback mais claras, reconhecimento de erros como parte do processo de aprendizagem e valorização de trajetórias diversas ajudam a reduzir a sensação de isolamento. Além disso, programas formais de mentoria e grupos de apoio profissional podem oferecer modelos mais realistas de carreira, com avanços, recuos e ajustes contínuos.

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Ao entender a síndrome do impostor como um padrão psicológico estudado, e não como um defeito individual, muitos profissionais conseguem olhar a própria história com mais objetividade. Em contextos competitivos, essa mudança de perspectiva não elimina responsabilidade ou busca por excelência. Porém, ela permite que competência e humanidade coexistam, sem que a máscara social precise se tornar o único recurso para seguir adiante. Dessa forma, as pessoas passam a construir trajetórias mais sustentáveis, com espaço para aprendizado, limites e também para orgulho genuíno de suas conquistas.

Síndrome do impostor_depositphotos.com / AndrewLozovyi

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