Doação que salva vidas: após decisão da família da jornalista Alice Ribeiro, entenda como funciona o processo de transplante no Brasil
O caso da jornalista Alice Ribeiro, repórter da Band Minas, recolocou o tema da doação de órgãos em evidência no Brasil. Após morte encefálica da repórter, os familiares autorizaram a doação dos órgãos. Saiba como funciona esse processo no Brasil.
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O caso da jornalista Alice Ribeiro, repórter da Band Minas, recolocou o tema da doação de órgãos em evidência no Brasil. Após um grave acidente de trânsito em Belo Horizonte, no qual também morreu o cinegrafista Rodrigo Lapa, a repórte teve morte encefálica confirmada em 16 de abril de 2026, no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII. A família de Alice autorizou a doação de rins, pâncreas, fígado e córneas, gesto que mobiliza equipes médicas, o Sistema Nacional de Transplantes e diversas instituições de saúde.
O episódio traz novamente ao público como funciona, na prática, o caminho entre a confirmação da morte encefálica, a conversa com os familiares, a avaliação médica dos órgãos e a logística para que eles cheguem, em tempo hábil, a pacientes que aguardam na fila de transplante. Afinal, trata-se de um fluxo que tem regulação por normas técnicas e legais, que busca conciliar critérios de justiça, segurança e rapidez.
O que é morte encefálica e por que ela permite a doação de órgãos?
A morte encefálica, centro de todo o processo de doação de órgãos no Brasil, é a parada completa e irreversível das funções do cérebro. Ou seja, isso inclui o tronco encefálico, estrutura responsável por comandos vitais como respiração, batimentos cardíacos e reflexos. Afinal, mesmo que o coração ainda esteja batendo com ajuda de aparelhos, a pessoa é legalmente considerada morta. É essa condição que permite a manutenção artificial da circulação sanguínea por um período, preservando órgãos como coração, rins, fígado e pâncreas para possível transplante.
No Brasil, o diagnóstico de morte encefálica segue resolução do Conselho Federal de Medicina e legislação federal. Portanto, não depende da vontade da família nem da equipe que conduz o transplante. Ademais, é um protocolo rigoroso, que exige:
- Comprovação de causa conhecida e irreversível da lesão cerebral, como trauma grave, AVC ou falta de oxigênio prolongada;
- Ausência de fatores que possam confundir o quadro, por exemplo, sedação excessiva ou hipotermia importante;
- Realização de dois exames clínicos neurológicos completos, feitos por médicos diferentes, com intervalo definido por idade;
- Confirmação com exame complementar, como eletroencefalograma ou estudo de fluxo sanguíneo cerebral, demonstrando ausência de atividade.
Somente após o preenchimento de todos esses requisitos, o óbito por morte encefálica tem registro formal. Em seguida, entra em cena a etapa de entrevista com a família sobre a doação de órgãos, como ocorreu no caso de Alice Ribeiro.
Como funciona a doação de órgãos no Brasil a partir da autorização da família?
A legislação brasileira determina que a doação de órgãos post mortem depende da autorização familiar, mesmo que a pessoa tenha manifestado em vida o desejo de ser doadora. Em geral, profissionais de uma Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) fazem essa abordagem. Afinal, eles são treinados para lidar com situações de luto recente.
No contexto de um caso como o de Alice, alguns passos costumam ocorrer dentro do hospital:
- Confirmação formal da morte encefálica pela equipe assistente.
- Comunicação clara e cuidadosa da morte aos familiares, em local reservado.
- Somente depois, abordagem sobre a possibilidade de doação, explicando:
- quais órgãos e tecidos podem ser doados;
- como ocorre o procedimento cirúrgico;
- que não há custo para a família;
- que a integridade do corpo é preservada para o velório.
- Registro formal da autorização em documento específico, assinado por familiar responsável.
Essa autorização abre caminho para que equipes de captação entrem em ação. Em casos de grande repercussão, como o da repórter da Band Minas, a decisão da família simboliza um gesto de solidariedade, capaz de beneficiar diversos receptores em lista de espera.
Quais são os critérios médicos e legais para a doação de órgãos?
Depois da autorização, o foco volta-se para a avaliação detalhada do potencial doador. Assim, a equipe médica identifica quais órgãos e tecidos poderão ser transplantados com segurança, levando em conta a condição clínica e exames laboratoriais. Afinal, a doação de órgãos segue critérios que envolvem tanto aspectos de saúde quanto exigências legais.
Entre os principais critérios médicos estão:
- Idade e histórico de doenças crônicas significativas, como alguns tipos de câncer ou infecções graves;
- Estabilidade hemodinâmica, ou seja, manutenção de pressão arterial e oxigenação adequadas até a captação;
- Resultados de exames de sangue, imagem e sorologias, para reduzir o risco de transmissão de doenças;
- Compatibilidade de tipo sanguíneo, tamanho e, em alguns casos, perfil imunológico com os possíveis receptores.
Do ponto de vista legal, além do diagnóstico de morte encefálica segundo a norma vigente e da autorização formal da família, o processo é comunicado ao Estado por meio das Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO). Todo o fluxo precisa ser registrado, garantindo rastreabilidade e transparência, inclusive para auditorias posteriores.
Como a logística de captação e o Sistema Nacional de Transplantes organizam a distribuição?
Uma vez confirmada a possibilidade de doação, inicia-se uma corrida contra o tempo. Órgãos têm janelas diferentes de viabilidade fora do corpo: o coração e os pulmões suportam poucas horas, enquanto rins e fígado resistem um pouco mais. A partir da notificação do hospital, a Central Estadual e o Sistema Nacional de Transplantes (SNT) cruzam informações entre o doador e a lista de receptores.
A distribuição dos órgãos segue critérios técnicos e normativos, que consideram sobretudo:
- Ordem na fila de espera, organizada por tipo de órgão;
- Urgência clínica, como casos de prioridade máxima em fígado e coração;
- Compatibilidade sanguínea e, quando necessário, imunológica;
- Distância entre o hospital do doador e o centro transplantador, para reduzir o tempo de isquemia.
Após definidos os receptores, equipes de diferentes hospitais são acionadas, muitas vezes simultaneamente. A logística envolve salas cirúrgicas, transporte em ambulâncias, aeronaves ou veículos especializados, acondicionamento em caixas térmicas próprias e comunicação constante entre centrais e hospitais. Em uma situação como a de Alice, com rins, pâncreas, fígado e córneas aptos à doação, múltiplas equipes podem trabalhar de forma coordenada, permitindo que pacientes em filas distintas sejam beneficiados.
Por que a conscientização sobre doação de órgãos é decisiva para quem está na fila?
No Brasil, milhares de pessoas aguardam por um transplante para tratar doenças renais, hepáticas, cardíacas e outras condições que não respondem mais a tratamentos convencionais. Assim, para quem está na fila, cada doador efetivo representa uma oportunidade concreta de prolongar e melhorar a qualidade de vida. Casos públicos de doação de órgãos, como o da jornalista da Band Minas, costumam ampliar o debate em famílias e comunidades sobre a importância de manifestar em vida a própria vontade.
Profissionais da área de transplantes ressaltam alguns pontos que tendem a reduzir recusas familiares:
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- Conversas prévias em casa sobre o desejo de doar, deixando a posição clara a parentes próximos;
- Informação precisa sobre o que é morte encefálica e sobre a segurança dos critérios médicos;
- Confiança nas instituições de saúde e no sistema público de transplantes;
- Entendimento de que um único doador pode ajudar várias pessoas, por meio de órgãos e tecidos diferentes.
A doação de órgãos no Brasil depende, em grande parte, dessa combinação entre protocolos técnicos, legislação específica e decisão familiar informada. Em situações de luto repentino, como um acidente de trânsito, a autorização para doar representa um movimento que ultrapassa a tragédia individual e alcança pacientes anônimos em diferentes pontos do país, que aguardam na fila do transplante uma chance de continuar seus projetos de vida.