Manguezais sob ameaça: como esses ecossistemas protegem contra enchentes, secas e mudanças climáticas
Zonas úmidas: berçários da vida e poderosos sequestradores de carbono em risco, vitais contra enchentes, secas extremas e poluição hídrica
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Em diferentes continentes, das várzeas amazônicas aos manguezais costeiros, as zonas úmidas emergem como um dos ecossistemas mais estratégicos para a estabilidade ambiental do planeta. Esses ambientes alagáveis, muitas vezes vistos apenas como áreas encharcadas, funcionam como peças centrais na regulação da água, na captura de carbono e na manutenção de uma biodiversidade difícil de encontrar em outros tipos de paisagem. Ao mesmo tempo, seguem entre os territórios mais pressionados por obras de infraestrutura, expansão agrícola e urbanização acelerada.
Definidas de forma ampla como áreas onde o solo permanece saturado de água por períodos significativos, as zonas úmidas incluem pântanos, banhados, manguezais, lagoas, turfeiras e até arrozais tradicionais. Em comum, apresentam solos ricos em matéria orgânica, vegetação adaptada ao excesso de umidade e uma dinâmica hídrica que oscila conforme as chuvas, marés e lençóis freáticos. Essa combinação garante serviços ambientais decisivos para a vida humana, ainda que muitas comunidades só percebam esse papel quando esses ambientes já estão degradados ou desaparecendo.
Como as zonas úmidas regulam a água e reduzem enchentes?
O funcionamento hidrológico das zonas úmidas é frequentemente comparado ao de uma esponja natural. Em períodos de chuva intensa ou cheias de rios, esses ambientes absorvem grandes volumes de água, retardando o escoamento e reduzindo picos de vazão que, em áreas urbanas impermeabilizadas, costumam resultar em enchentes graves. Quando o clima se torna mais seco, a água armazenada em solos e aquíferos é liberada gradualmente, sustentando vazões mínimas de rios e córregos que abastecem cidades e atividades produtivas.
Esse papel de amortecimento hidrológico não se limita às regiões rurais. Estudos em bacias urbanizadas na Europa, na América do Norte e em cidades latino-americanas apontam que a preservação de banhados e planícies de inundação reduz custos com obras de drenagem e contenção de cheias. Em vez de canais de concreto e diques caros, a manutenção de áreas alagáveis oferece um mecanismo natural de controle de riscos, com custos operacionais menores e maior flexibilidade diante de eventos extremos, que se tornaram mais frequentes com o aquecimento global.
Por que as zonas úmidas são super sequestradores de carbono?
Além do papel hidrológico, as zonas úmidas estão entre os ecossistemas mais eficientes do planeta em sequestro de carbono. Turfeiras, manguezais e marismas, por exemplo, acumulam enormes quantidades de matéria orgânica em solos permanentemente úmidos, onde a decomposição é lenta por falta de oxigênio. Isso faz com que carbono capturado pela fotossíntese permaneça estocado por séculos ou milênios, reduzindo sua presença na atmosfera.
Quando esses ambientes são drenados para agricultura intensiva, loteamentos ou obras viárias, o solo entra em contato com o ar, acelera-se a decomposição da matéria orgânica e o carbono armazenado é liberado sob a forma de dióxido de carbono e metano. Pesquisas recentes indicam que a degradação de turfeiras responde por uma parcela relevante das emissões globais de gases de efeito estufa ligadas ao uso da terra. Em sentido oposto, programas de restauração de manguezais e banhados têm sido avaliados em estratégias nacionais de clima como soluções baseadas na natureza para cumprir metas do Acordo de Paris.
Como esses ecossistemas filtram poluentes e recarregam aquíferos?
A capacidade de filtragem das zonas úmidas decorre da interação entre solo, água e vegetação. À medida que a água escoa lentamente por canais naturais, raízes e sedimentos, parte dos poluentes é retida ou transformada. Nutrientes em excesso, como nitrogênio e fósforo provenientes de fertilizantes agrícolas, podem ser absorvidos por plantas aquáticas ou convertidos por microrganismos em formas menos problemáticas. Sedimentos carregando metais pesados e pesticidas também tendem a se depositar, reduzindo a carga que chega a rios, lagos e zonas costeiras.
Esse processo funciona como um sistema de tratamento natural, diminuindo custos para o abastecimento público e evitando a eutrofização de corpos dágua, que provoca mortandade de peixes e proliferação de algas. Ao mesmo tempo, a água que infiltra em solos de zonas úmidas alimenta lençóis freáticos, contribuindo para a recarga de aquíferos. Em regiões semiáridas e em áreas metropolitanas com forte demanda hídrica, essa função torna-se decisiva para garantir a segurança hídrica em períodos prolongados de seca.
Quais são as principais ameaças globais às zonas úmidas?
Relatórios internacionais, incluindo avaliações apoiadas pela Convenção de Ramsar tratado global em vigor desde 1975 dedicado à proteção de áreas úmidas apontam que esses ecossistemas estão entre os mais rapidamente perdidos ou degradados nas últimas décadas. A conversão para agricultura mecanizada, monocultivos de alta demanda hídrica e pastagens extensivas responde por uma fatia significativa dessa transformação, especialmente em planícies férteis e várzeas.
Em paralelo, a urbanização desordenada ocupa margens de rios, canais naturais e lagoas, substituindo solos permeáveis por asfalto e concreto. A construção de rodovias, portos e barragens fragmenta habitats, altera fluxos de água e dificulta a migração de espécies aquáticas. As mudanças climáticas acrescentam uma camada adicional de pressão: secas extremas e elevação do nível do mar afetam, por exemplo, a sobrevivência de manguezais e marismas, enquanto eventos de chuva intensa ampliam a vulnerabilidade de comunidades que já perderam suas áreas naturais de amortecimento.
Por que as zonas úmidas são chamadas de berçários da vida?
A expressão berçários da vida está associada à extraordinária biodiversidade desses ambientes. Muitas espécies de peixes usam áreas alagadas como locais de reprodução e alimentação de larvas e juvenis, aumentando suas chances de sobrevivência antes de retornarem a rios mais amplos ou ao mar. Aves migratórias dependem de banhados e lagoas para descanso e alimentação em rotas que conectam continentes, enquanto anfíbios, répteis, mamíferos e incontáveis invertebrados encontram nesses ecossistemas abrigo e alimento em abundância.
Comunidades humanas também mantêm relações históricas com as zonas úmidas. Pescadores artesanais, marisqueiras, agricultores familiares de áreas de várzea e populações tradicionais de manguezais dependem diretamente desses recursos para alimentação, renda e identidade cultural. A perda de um banhado ou de um manguezal não representa apenas um impacto ambiental; implica também o enfraquecimento de modos de vida, saberes locais e redes de segurança alimentar que sustentam milhões de pessoas em diferentes países.
Quais caminhos existem para proteger e restaurar as zonas úmidas?
Em resposta a esse cenário, instrumentos como a Convenção de Ramsar estimulam governos a identificar, designar e manejar áreas úmidas de importância internacional, criando compromissos formais de conservação. Em âmbito nacional e local, surgem políticas de proteção de manguezais, inclusão de banhados em unidades de conservação e exigência de faixas de proteção ao longo de rios e lagos em legislações de uso do solo.
Especialistas apontam que a restauração de zonas úmidas degradadas vem ganhando espaço em planos de adaptação climática e de segurança hídrica. Algumas medidas recorrentes incluem:
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- Reativação de áreas alagáveis, removendo diques e barreiras que impedem o fluxo natural da água.
- Reflorestamento com espécies típicas de manguezais, marismas e matas ciliares.
- Controle de drenagem agrícola e incentivo a práticas de produção menos intensivas em água.
- Criação de zonas de amortecimento em torno de áreas úmidas, limitando construções e atividades poluidoras.
- Integração de comunidades locais na gestão, com reconhecimento de direitos territoriais e de uso sustentável.
Ao combinar legislação, planejamento urbano e rural, ciência e participação social, as zonas úmidas deixam de ser vistas como terrenos a serem reclamados e passam a ser reconhecidas como infraestrutura ecológica essencial. Nessa perspectiva, a preservação desses ecossistemas se torna uma estratégia central para reduzir riscos de desastres, enfrentar a crise climática, garantir água em quantidade e qualidade adequadas e manter a diversidade biológica que sustenta cadeias alimentares inteiras. Em um cenário de mudanças rápidas, tratá-las como prioridade de políticas públicas deixa de ser um tema setorial e passa a integrar a agenda de desenvolvimento de longo prazo.