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Saúde única: por que o destino dos humanos, dos animais e do planeta está interligado

A ideia de que a saúde humana, a saúde dos animais e a saúde do meio ambiente formam um único sistema interligado vem ganhando espaço nas políticas públicas, em pesquisas científicas e até nas manchetes. Entenda o conceito de saúde única.

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A ideia de que a saúde humana, a saúde dos animais e a saúde do meio ambiente formam um único sistema interligado vem ganhando espaço nas políticas públicas, em pesquisas científicas e até nas manchetes. Esse conceito tem o nome de Saúde Única (ou One Health) e parte de um princípio simples: não existe saúde de pessoas em um planeta doente e com animais debilitados. Assim, em um cenário de mudanças climáticas, desmatamento acelerado e perda de biodiversidade, essa abordagem deixa de ser teórica e passa a ser uma necessidade prática.

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Na rotina, isso aparece em situações concretas: surtos de doenças que passam de animais para humanos, contaminações de alimentos por microrganismos resistentes a antibióticos e crises sanitárias que se ligam a enchentes ou secas extremas. Ademais, a pandemia de COVID-19 reforçou esse debate ao mostrar como alterações em ecossistemas, comércio de animais silvestres e mobilidade global podem favorecer o surgimento e a disseminação de novos patógenos. A Saúde Única busca justamente antecipar esses riscos, ao olhar o sistema como um todo e não cada setor isoladamente.

Desde 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA, antiga OIE), em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), estabeleceram uma coligação formal em torno do conceito de One Health – depositphotos.com / Skorzewiak

O que é Saúde Única e por que esse conceito importa?

A proposta de Saúde Única é integrar ações e informações de três campos. São eles: saúde humana, saúde animal e meio ambiente. Assim, em vez de tratar uma epidemia apenas em hospitais, por exemplo, essa abordagem incentiva o monitoramento de animais domésticos, de fauna silvestre e da qualidade do ar, da água e do solo na mesma região. Portanto, a meta é identificar pontos de desequilíbrio que possam favorecer a emergência de doenças infecciosas. Em especial, as zoonoses, que são enfermidades transmitidas entre animais e pessoas.

Desde 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA, antiga OIE), em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), estabeleceram uma coligação formal em torno do conceito de One Health. O grupo passou a ser conhecido como Quadripartite e publicou um Plano de Ação Conjunto com metas até 2030. Assim, elas incluem vigilância integrada de zoonoses, combate à resistência antimicrobiana e proteção dos ecossistemas como parte das estratégias de prevenção de crises sanitárias globais.

Como o desequilíbrio ambiental favorece zoonoses e novas doenças?

A perda de florestas, a fragmentação de habitats e a redução da biodiversidade criam condições para que vírus, bactérias e parasitas encontrem rotas inéditas até o ser humano. Assim, estudos em diferentes países associam o avanço do desmatamento ao aumento de doenças como malária, leishmaniose e febre amarela. Afinal, ao aproximar populações humanas de áreas antes ocupadas por espécies silvestres, o contato direto ou indireto com novos microrganismos torna-se mais frequente.

Pesquisas publicadas na última década apontam que regiões com maior diversidade de espécies tendem a diluir a circulação de determinados patógenos. No entanto, quando essa diversidade é perdida, algumas espécies que melhor se adaptam a ambientes alterados, como certos roedores e morcegos, podem se tornar mais abundantes. Esses animais frequentemente carregam vírus com potencial zoonótico. O desmatamento na Amazônia, por exemplo, vem sendo relacionado ao aumento de casos de malária e a episódios de febre amarela silvestre que, depois, alcançam áreas urbanas.

O conceito de Saúde Única também ajuda a explicar a ligação entre queimadas, mudanças climáticas e doenças respiratórias. Afinal, a fumaça de incêndios florestais piora a qualidade do ar, aumenta internações por problemas respiratórios e cardiovasculares e altera a dinâmica de vetores como mosquitos. Com o aquecimento global, espécies como o Aedes aegypti expandem sua distribuição geográfica. Assim, levam doenças como dengue, zika e chikungunya para novas áreas, incluindo regiões antes consideradas pouco propícias a esses vetores.

Como a perda de biodiversidade e o uso de antibióticos levam à resistência?

A resistência antimicrobiana é outro ponto central da abordagem de Saúde Única. Afinal, o uso intenso e, em muitos casos, inadequado de antibióticos em humanos, em animais de produção e até na aquicultura acelera a seleção de bactérias resistentes. Esses microrganismos conseguem circular entre pessoas, animais e o ambiente, ultrapassando fronteiras físicas e geográficas. Assim, esgoto sem tratamento adequado, por exemplo, pode carregar resíduos de antibióticos e bactérias resistentes para rios, solos agrícolas e zonas costeiras.

A coalizão OMSFAOOMSA incluiu a resistência antimicrobiana como um dos eixos prioritários do Plano de Ação One Health. Entre as diretrizes estão o monitoramento integrado do uso de antibióticos em diferentes setores, a restrição de antibióticos de importância crítica para uso exclusivo na medicina humana e a promoção de boas práticas em fazendas, hospitais e clínicas veterinárias. A lógica é coordenar informações: se um determinado tipo de bactéria resistente surge primeiro em animais ou em ambientes aquáticos, isso pode sinalizar riscos futuros para hospitais e sistemas de saúde.

  • Em humanos: tratamentos inadequados, automedicação e interrupção precoce de terapias.
  • Em animais: uso de antibióticos como promotores de crescimento e tratamento coletivo sem diagnóstico individual.
  • No ambiente: resíduos de medicamentos em efluentes hospitalares, industriais e rurais.

De que maneira a saúde dos oceanos interfere na segurança alimentar?

Os oceanos também fazem parte do sistema de Saúde Única. Afinal, a poluição marinha, o aquecimento das águas e a pesca excessiva influenciam diretamente a oferta e a qualidade dos alimentos de origem aquática. Além disso, alterações na temperatura e na composição química dos mares favorecem florescimentos de algas nocivas e bactérias patogênicas. Assim, elas podem contaminar peixes e frutos do mar consumidos pela população.

Organismos internacionais vêm alertando que microplásticos, metais pesados e resíduos químicos despejados nos oceanos entram na cadeia alimentar marinha e, posteriormente, na alimentação humana. Ademais, isso não se restringe à saúde: comunidades que dependem da pesca artesanal podem enfrentar perda de renda e insegurança alimentar quando estoques de peixes diminuem ou ficam contaminados. Por isso, a abordagem One Health propõe integrar dados de vigilância de qualidade da água, saúde dos animais marinhos e indicadores de saúde pública para orientar políticas de pesca, saneamento e conservação costeira.

  1. Monitorar a qualidade da água em áreas de pesca e aquicultura.
  2. Controlar o lançamento de esgoto e resíduos industriais sem tratamento no mar.
  3. Proteger manguezais, recifes e zonas de reprodução de espécies de interesse alimentar.
  4. Integrar vigilância de doenças em animais aquáticos com sistemas de alerta em saúde humana.
Os oceanos também fazem parte do sistema de Saúde Única. Afinal, a poluição marinha, o aquecimento das águas e a pesca excessiva influenciam diretamente a oferta e a qualidade dos alimentos de origem aquática – depositphotos.com / alebloshka

Por que a cooperação entre médicos, veterinários e ambientalistas é decisiva?

A lógica da Saúde Única exige que diferentes profissionais compartilhem dados, construam protocolos conjuntos e planejem ações de forma coordenada. Assim, veterinários podem detectar precocemente surtos de doenças em animais de criação ou em fauna silvestre, oferecendo um sinal de alerta para serviços de saúde humana. Por sua vez, ambientalistas e especialistas em ecologia conseguem identificar áreas de risco ligadas a degradação ambiental ou perda de habitats. Por fim, médicos e equipes de atenção básica observam padrões de adoecimento que podem estar relacionados a mudanças no entorno.

Organismos internacionais estimulam a criação de comitês intersetoriais que reúnam representantes da saúde humana, da saúde animal e do meio ambiente. Em vários países, campanhas de vacinação de animais, ações de saneamento básico e vigilância de qualidade da água passaram a ser planejadas em conjunto. Ou seja, em vez de cada setor atuar de forma isolada. Portanto, esse tipo de articulação tende a tornar as respostas mais rápidas, a reduzir custos e a ampliar o alcance das estratégias de prevenção.

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A experiência recente com epidemias de gripe aviária, Ebola, MERS, COVID-19 e outras emergências sanitárias evidencia que riscos de origem animal ou ambiental podem se espalhar com rapidez em um mundo conectado. A abordagem de One Health não se limita a reagir a crises, mas busca antecipar cenários e reduzir a probabilidade de que novas ameaças se consolidem. Em um planeta em transformação, a articulação entre médicos, veterinários, biólogos, gestores ambientais e comunidades locais aparece como um caminho central para evitar futuras crises sanitárias e para manter condições mínimas de sustentabilidade da vida em todas as suas formas.

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