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Falar sozinho ajuda a pensar melhor? Entenda o que dizem estudos sobre cognição, memória e autorregulação

A psicologia e a neurociência apontam que falar sozinho pode ligar-se a uma forma mais eficiente de organizar pensamentos. Saiba o que dizem estudos sobre cognição, memória e autorregulação.

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Em muitas cenas do cotidiano, é possível observar alguém murmurando frases enquanto cozinha, dirige ou trabalha diante do computador. À primeira vista, pode parecer distração ou excentricidade. Porém, a psicologia e a neurociência apontam que falar sozinho pode ligar-se a uma forma mais eficiente de organizar pensamentos. Afinal, esse hábito, que tem o nome em pesquisas como self-talk ou discurso interno em voz alta, é alvo de análises com atenção por especialistas que investigam como ele atua na autorregulação, na memória de trabalho e na resolução de problemas.

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Ao longo das últimas décadas, diferentes linhas de estudo passaram a olhar para esse fenômeno não apenas como curiosidade, mas como uma ferramenta cognitiva. Assim, pesquisas sugerem que transformar pensamentos em palavras audíveis ajuda o cérebro a selecionar informações, manter o foco e regular emoções. Em paralelo, cresce o interesse em diferenciar quando falar sozinho funciona como recurso saudável de organização mental e quando pode indicar sofrimento psíquico ou um transtorno subjacente.

Em muitas cenas do cotidiano, é possível observar alguém murmurando frases enquanto cozinha, dirige ou trabalha diante do computador – depositphotos.com / serezniy

O que a psicologia entende por falar sozinho?

Na literatura científica, descreve-se falar sozinho como uma forma de linguagem privada, conceito que remete a estudos do psicólogo russo Lev Vygotsky, no início do século XX. Para ele, o que começa como fala social que se dirige aos outros, na infância, vai sendo internalizado até se transformar em diálogo interno. Assim, em muitos adultos parte desse diálogo continua a aparecer em voz baixa ou sussurrada. Em especial, nas situações de esforço mental ou estresse.

Pesquisas mais recentes, como as que pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison e da Universidade de Nottingham conduziram, indicam que essa fala em voz alta pode funcionar como um andador cognitivo. Ou seja, ela oferece estrutura para a mente organizar etapas de uma tarefa, revisar informações e tomar decisões mais coerentes. Assim, em vez de ser ruído, esse tipo de fala opera como uma espécie de ferramenta de trabalho para o cérebro.

Falar sozinho ajuda mesmo a organizar pensamentos?

Do ponto de vista da autorregulação, o hábito de falar consigo próprio em voz alta associa-se a processos de monitoramento e controle do comportamento. Estudos de psicólogos como Charles Fernyhough, da Universidade de Durham, mostram que pessoas tendem a recorrer à fala privada para orientar ações (primeiro fazer isso, depois aquilo), corrigir rumos (isso não deu certo, tentar de outro jeito) e gerenciar emoções (calma, vai devagar).

A memória de trabalho, responsável por manter temporariamente informações em mente enquanto se realiza uma tarefa, também se beneficia desse recurso. Assim, pesquisas em neurociência cognitiva presentes em periódicos como Journal of Cognitive Neuroscience e Psychological Science, sugerem que verbalizar instruções ou objetivos auxilia o cérebro a manter o foco no que é relevante. Em especial, nas situações com muitas distrações. Ao ouvir a própria voz, o indivíduo reforça as informações que precisam ser mantidas ativas.

Na resolução de problemas, falar sozinho funciona como uma espécie de mapa sonoro. Assim, em estudos feitos com testes de lógica, quebra-cabeças e tarefas complexas, voluntários que podiam verbalizar seus passos mostraram melhor desempenho em organização e planejamento, segundo resultados divulgados por equipes ligadas a universidades como a de Toronto e a de Cambridge. Portanto, a fala ajuda a quebrar um problema em partes menores, a testar hipóteses e a revisar mentalmente alternativas possíveis.

Quais são os mecanismos cognitivos por trás desse hábito?

Quando alguém fala consigo mesmo, diversas áreas cerebrais se coordenam, incluindo regiões que se associam à linguagem, à atenção e ao controle executivo, como o córtex pré-frontal. Pesquisas de neuroimagem conduzidas por grupos do National Institutes of Health (NIH), nos Estados Unidos, e por centros europeus como o Max Planck Institute, mostram aumento de ativação nessas regiões durante tarefas que envolvem instruções em voz alta em comparação com o simples pensamento silencioso.

Alguns mecanismos frequentemente apontados por psicólogos e neurocientistas são:

  • Focalização da atenção: a fala em voz alta ajuda a direcionar o foco para um objetivo específico, reduzindo interferências de pensamentos paralelos.
  • Codificação e recuperação de informações: ao ouvir o que acabou de dizer, o cérebro recebe um reforço adicional para armazenar e resgatar aquele conteúdo.
  • Planejamento de ações: listar verbalmente etapas de uma tarefa auxilia na criação de uma sequência lógica de ações.
  • Regulação emocional: frases de encorajamento, autocrítica moderada ou reestruturação de pensamentos podem atuar na gestão de ansiedade e tensão.

Estudos que instituições como a American Psychological Association (APA) e a Sociedade Brasileira de Psicologia conduzem destacam que esse tipo de self-talk pode ser treinado, por exemplo em intervenções cognitivas, para tornar o discurso interno mais funcional e menos autossabotador.

Quando falar sozinho é saudável e quando exige atenção?

De acordo com profissionais de saúde mental, falar sozinho é saudável quando:

  • ocorre em situações específicas de esforço mental, estresse ou tomada de decisão;
  • não impede a realização de tarefas nem prejudica o convívio social;
  • é reconhecido pela própria pessoa como algo que faz sentido naquele contexto;
  • tem conteúdo compreensível e vinculado à realidade imediata.

Por outro lado, o hábito pode exigir avaliação clínica quando:

  1. a fala é acompanhada de alucinações auditivas persistentes;
  2. há convicção de que existem vozes externas controlando pensamentos ou ações;
  3. o conteúdo é marcadamente persecutório, agressivo ou desligado do contexto;
  4. surgem prejuízos significativos no trabalho, nos estudos ou nas relações sociais.

Nesses casos, especialistas apontam a necessidade de investigação de transtornos como esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo ou episódios psicóticos, conforme diretrizes de manuais diagnósticos como o DSM-5 e a CID-11, que psiquiatras e psicólogos utilizam no mundo todo. A diferença central não está no ato de falar sozinho em si, mas no conjunto de sintomas e no impacto sobre a vida diária.

Quando alguém fala consigo mesmo, diversas áreas cerebrais se coordenam, incluindo regiões que se associam à linguagem, à atenção e ao controle executivo, como o córtex pré-frontal – depositphotos.com / katerynakon

Como a sociedade percebe esse comportamento ao longo do tempo?

Historicamente, o hábito de falar sozinho já associou-se a estigmas variados. Em muitos contextos, era interpretado como sinal automático de loucura ou descontrole. Com o avanço das pesquisas em psicologia cognitiva e neurociência, especialmente a partir dos anos 1990, essa visão vem mudando gradualmente. Instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e conselhos de psicologia destacam cada vez mais a importância de diferenciar comportamentos cotidianos de sinais efetivos de transtornos mentais.

No ambiente contemporâneo, em que a produtividade e a gestão do tempo são temas frequentes, falar sozinho aparece não apenas em situações íntimas, mas também em escritórios, academias e espaços públicos. Afinal, muitos profissionais relatam utilizar esse recurso para revisar mentalmente apresentações, planejar reuniões ou organizar rotinas. Em paralelo, a presença de fones de ouvido e assistentes virtuais torna mais difícil distinguir quem está em diálogo com um dispositivo e quem está apenas verbalizando pensamentos. Assim, isso tende a reduzir parte do constrangimento social em torno do hábito.

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Com o acúmulo de estudos de psicólogos, neurocientistas e instituições acadêmicas, falar sozinho passa a ser compreendido, em grande parte dos casos, como ferramenta de organização mental, autorregulação e apoio à memória de trabalho. Porém, a atenção maior se volta não para o simples ato de falar, mas para o contexto, o conteúdo e o impacto desse comportamento na vida da pessoa. Assim, são critérios que orientam tanto a prática clínica quanto a pesquisa científica mais recente.

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