Ambidestria: como algumas pessoas usam as duas mãos, quem são os famosos ambidestros e saiba se essa habilidade pode ser aprendida
A ambidestria é a capacidade de executar tarefas com ambas as mãos com um nível de habilidade semelhante, seja escrever, arremessar, desenhar ou realizar movimentos finos. Saiba como algumas pessoas usam as duas mãos.
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A ambidestria é a capacidade de executar tarefas com ambas as mãos com um nível de habilidade semelhante, seja escrever, arremessar, desenhar ou realizar movimentos finos. Em geral, a maior parte das pessoas apresenta uma mão dominante bem definida, normalmente a direita. Já indivíduos ambidestros conseguem alternar de forma mais fluida entre as duas mãos em diferentes contextos do dia a dia, o que desperta interesse de pesquisadores, educadores e profissionais do esporte.
Essa característica está ligada a como o cérebro organiza funções motoras e sensoriais. Em pessoas destras ou canhotas, costuma existir uma lateralização mais clara, com um hemisfério cerebral assumindo o comando da maioria das ações motoras finas. Na ambidestria, essa divisão tende a ser menos rígida, permitindo que as duas mãos participem com mais equilíbrio. Ainda assim, mesmo entre ambidestros, quase sempre há uma leve preferência em determinadas tarefas.
Como a ambidestria se manifesta no cérebro humano?
No cérebro humano, os movimentos das mãos são controlados principalmente pelo córtex motor, localizado em ambos os hemisférios cerebrais. Em indivíduos destros, por exemplo, o hemisfério esquerdo costuma ser mais ativo no controle da mão direita, enquanto em canhotos há uma participação maior do hemisfério direito. Esse fenômeno, chamado de lateralização, não é absoluto, mas indica uma tendência predominante na organização cerebral.
Em casos de ambidestria, estudos de neuroimagem mostram uma distribuição mais equilibrada da atividade entre os dois hemisférios durante tarefas motoras. Em vez de um lado comandar a maior parte das ações finas, há uma colaboração mais simétrica. Além do córtex motor, regiões associadas à coordenação, como o cerebelo e áreas ligadas ao planejamento de movimentos, também exibem um padrão de participação menos assimétrico, o que favorece o uso funcional das duas mãos.
A chave para entender esse fenômeno está na neuroplasticidade, a capacidade do sistema nervoso de se adaptar e reorganizar conexões ao longo da vida. Quando uma pessoa pratica atividades com a mão menos habilidosa, o cérebro passa a reforçar circuitos neurais envolvidos nesses movimentos, fortalecendo sinapses e, em alguns casos, redistribuindo tarefas entre os hemisférios. Essa plasticidade explica tanto a ambidestria desenvolvida quanto a recuperação parcial de funções após lesões cerebrais.
O que é ambidestria natural e ambidestria adquirida?
A chamada ambidestria natural descreve indivíduos que, desde a infância, apresentam uso relativamente equilibrado das duas mãos em várias atividades. Nesses casos, a preferência manual é pouco marcada, e a criança pode alternar entre mão direita e esquerda para escrever, comer ou jogar. Pesquisas indicam que fatores genéticos e o ambiente, combinados, influenciam esse padrão, embora a base hereditária exata ainda esteja em estudo.
Já a ambidestria adquirida por treinamento acontece quando a pessoa treina deliberadamente a mão não dominante para melhorar o desempenho. Isso é comum em músicos, atletas, cirurgiões e profissionais que dependem de alta coordenação motora. A prática contínua leva o cérebro a criar e reforçar novas rotas neurais, ampliando o controle fino da mão menos usada. Nesse cenário, a neuroplasticidade atua como um mecanismo central de adaptação.
Há, porém, diferenças importantes entre esses dois tipos. Na ambidestria natural, o equilíbrio costuma surgir de forma espontânea e abranger diversos contextos. Na ambidestria desenvolvida, o domínio costuma ser maior em tarefas específicas, como arremessar com a mão oposta ou digitar com rapidez usando ambas as mãos, mas nem sempre se estende com a mesma eficiência para todas as atividades cotidianas.
Quão rara é a ambidestria verdadeira?
Estudos populacionais apontam que a ambidestria verdadeira é rara. Estimativas variam, mas a maioria das pesquisas sugere que apenas uma pequena fração da população, algo em torno de 1% ou menos, poderia ser classificada como realmente ambidestra em múltiplas tarefas. Mesmo assim, muitos desses indivíduos ainda revelam uma discreta preferência por uma das mãos em situações específicas, como escrita prolongada ou atividades que exigem muita precisão.
É comum que pessoas destras realizem algumas ações com a mão esquerda, como segurar objetos, abrir portas ou apoiar-se em exercícios físicos. Isso não caracteriza ambidestria plena, mas sim um uso funcional da mão não dominante. A verdadeira ambidestria implica desempenho semelhante, consistência e ausência de uma preferência forte em diversas tarefas, o que torna o fenômeno relativamente incomum.
Exemplos famosos e mitos sobre ambidestria
Ao longo da história, alguns nomes são frequentemente associados à ambidestria. Leonardo da Vinci, por exemplo, é citado em registros históricos como capaz de desenhar e escrever com as duas mãos, inclusive utilizando espelhamento da escrita. Outro nome histórico relevante é Benjamin Franklin, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, que escrevia com as duas mãos. Em tempos recentes, atletas de alto rendimento chamam atenção por utilizarem ambas as mãos em situações específicas, como jogadores de beisebol, como o arremessador Pat Venditte, conhecido por lançar tanto com o braço direito quanto com o esquerdo. que rebatem de ambos os lados, armadores no basquete, como o argentino Manu Ginóbili, que finalizam com direita e esquerda ou tenistas, como o espanhol Rafael Nadal, que treinam golpes importantes com a mão oposta.
Esses casos ajudam a alimentar uma série de mitos. Um dos mais comuns é a ideia de que pessoas ambidestras seriam necessariamente mais inteligentes ou teriam superpoderes cognitivos. As evidências científicas, porém, não indicam uma relação direta entre ambidestria e maior capacidade intelectual. Outro mito recorrente afirma que qualquer pessoa pode se tornar totalmente ambidestra em pouco tempo, o que não é sustentado por dados de pesquisa.
- A ambidestria não garante melhor desempenho acadêmico.
- Nem toda habilidade com a mão não dominante significa ser ambidestro.
- Treinamento intenso pode melhorar a coordenação, mas nem sempre leva à ambidestria completa.
É possível desenvolver ambidestria com exercícios motores?
Praticar atividades com a mão menos utilizada pode aumentar a coordenação e a precisão de movimentos, aproveitando a neuroplasticidade do cérebro. Em muitos casos, a pessoa consegue escrever de forma legível, segurar utensílios ou executar gestos esportivos básicos com a mão oposta após um período de treinamento sistemático. Esse processo costuma ser gradual, exigindo repetição e atenção ao movimento para consolidar novos padrões motores.
Para quem deseja fortalecer a mão não dominante, alguns exercícios são frequentemente adotados:
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- Escrita diária: copiar frases simples com a mão oposta, aumentando a complexidade com o tempo.
- Atividades de precisão: desenhar formas geométricas, contornar figuras ou colorir usando a mão menos habilidosa.
- Tarefas funcionais: escovar os dentes, usar o mouse, abrir embalagens ou manusear talheres com a outra mão.
- Exercícios esportivos: treinar passes, arremessos ou chutes com o lado menos dominante, sob orientação adequada.
Ainda assim, especialistas costumam destacar que desenvolver ambidestria completa é algo difícil e nem sempre desejável. Em muitos contextos, ter uma mão dominante bem treinada garante precisão e consistência. Dessa forma, o foco costuma ser o ganho de autonomia e coordenação com a mão não dominante, e não a eliminação total da preferência manual. Em resumo, a ambidestria natural segue sendo rara, mas a capacidade do cérebro de se adaptar permite ampliar, em algum grau, o uso funcional das duas mãos ao longo da vida.