Como o intestino influencia o humor e a energia: entenda a conexão entre microbioma, cérebro e bem-estar mental
Nos últimos anos, a ciência mostrou que o intestino faz bem mais do que apenas digerir alimentos.
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Nos últimos anos, a ciência mostrou que o intestino faz bem mais do que apenas digerir alimentos. Pesquisas em neurogastroenterologia indicam que o chamado eixo intestino-cérebro funciona como uma via de mão dupla. Assim, o que acontece no intestino afeta o cérebro, e o estado emocional também repercute na saúde intestinal. Nesse cenário, a expressão segundo cérebro ganhou espaço e destaca a força dessa relação.
O ponto central dessa conexão é o microbioma intestinal, o conjunto de trilhões de micro-organismos que vivem no intestino. Esses micróbios, em especial as bactérias benéficas, participam de processos que influenciam diretamente o humor, a energia e o foco. Quando esse ecossistema mantém o equilíbrio, o organismo tende a funcionar de forma mais estável. Por outro lado, quando ocorre desequilíbrio, sintomas como cansaço persistente, irritabilidade e dificuldade de concentração tornam-se mais comuns.
O que é o eixo intestino-cérebro e por que ele importa para o bem-estar mental?
O eixo intestino-cérebro forma a rede de comunicação que conecta o sistema digestivo ao sistema nervoso central. Essa conversa ocorre por meio de sinais elétricos do nervo vago, de hormônios, do sistema imune e de substâncias químicas produzidas no intestino. Em 2026, diferentes centros de pesquisa continuaram a documentar alterações nesse diálogo. Essas mudanças se associam a quadros de estresse crônico, alterações de sono e variações de humor.
Um elemento fundamental nessa comunicação envolve a barreira intestinal, espécie de filtro que controla o que pode ou não passar da luz do intestino para a corrente sanguínea. Quando essa barreira se mantém íntegra, ela impede a passagem excessiva de toxinas e fragmentos de bactérias que poderiam acionar o sistema de defesa do corpo. Já quando essa barreira se fragiliza, o organismo entra em um cenário de inflamação de baixa intensidade. Estudos ligam esse processo a maior risco de fadiga crônica e queda de disposição.
Outro aspecto relevante é que o intestino possui seu próprio sistema nervoso, o sistema nervoso entérico. Ele se comunica com o cérebro e ajusta o ritmo intestinal, a produção de substâncias químicas e até o modo como o corpo reage ao estresse. Dessa forma, o estado do intestino influencia se a pessoa se sente mais calma, agitada, sonolenta ou alerta ao longo do dia.
Microbioma e humor: como as bactérias intestinais produzem serotonina e dopamina?
A palavra-chave nessa discussão é o microbioma intestinal. Estudos mostram que uma parte importante da serotonina, conhecida popularmente como hormônio do bem-estar, se forma no intestino com a ajuda da microbiota. Pesquisadores estimam que mais de 90% da serotonina do corpo se relacione ao sistema digestivo. Embora a maior parte dessa serotonina não atravesse diretamente a barreira entre sangue e cérebro, ela influencia caminhos nervosos e hormonais. Assim, essa produção regula o humor, o sono e o apetite.
Além disso, determinadas bactérias produzem substâncias chamadas ácidos graxos de cadeia curta. Essas moléculas ajudam a reduzir processos inflamatórios e fortalecem a barreira intestinal. Outras espécies contribuem para a formação de dopamina e de precursores de GABA. Essas substâncias participam da sensação de motivação, prazer, foco e calma. Pesquisas publicadas na última década indicam que pessoas com microbioma mais diverso apresentam melhor resposta ao estresse. Em geral, essas pessoas também mostram menor risco de oscilações intensas de humor.
Quando ocorre a chamada disbiose, o equilíbrio entre bactérias benéficas e micro-organismos potencialmente prejudiciais se rompe. Nesse contexto, a produção de neurotransmissores e de seus precursores se altera. Como consequência direta, o eixo intestino-cérebro passa a receber sinais desorganizados. Essa desregulação favorece sintomas como irritabilidade, maior sensibilidade a situações do dia a dia, cansaço mental e sensação de mente nebulosa.
Como a inflamação intestinal pode causar cansaço e irritabilidade?
Em situação de disbiose, algumas bactérias liberam substâncias que irritam a mucosa do intestino e fragilizam o microbioma intestinal. Esse quadro facilita a passagem de moléculas pró-inflamatórias para a circulação. O sistema de defesa identifica essas partículas e reage de forma contínua, o que gera uma inflamação de baixo grau. Esse processo, descrito em estudos de neurogastroenterologia e psiquiatria, se relaciona à piora da qualidade do sono, à sensação de esgotamento e a variações de humor.
Esse quadro não surge de um dia para o outro. Em muitos casos, hábitos como alimentação ultraprocessada, consumo frequente de bebidas alcoólicas, noites maldormidas e estresse prolongado contribuem aos poucos para o desequilíbrio da microbiota. Com o passar do tempo, a pessoa costuma notar episódios de inchaço, desconforto abdominal e alteração do ritmo intestinal. Além disso, a disposição para atividades rotineiras tende a diminuir.
Embora esses sinais não definam, por si só, um diagnóstico específico, a literatura científica sugere uma estratégia complementar. Cuidar da saúde intestinal pode integrar uma abordagem mais ampla de cuidado em saúde mental. Essa medida não substitui acompanhamento médico ou psicológico. No entanto, ela atua como um dos pilares para recuperar energia, foco e estabilidade emocional.
Como alimentar as bactérias do bem para melhorar o foco e a disposição?
Algumas estratégias, frequentemente citadas em pesquisas e diretrizes de nutrição, incluem ações simples e eficazes:
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- Aumentar o consumo de fibras: frutas, legumes, verduras, grãos integrais e leguminosas servem de combustível para as bactérias benéficas e ainda ajudam no controle da glicemia.
- Incluir alimentos fermentados: itens como iogurte com culturas vivas, kefir e chucrute introduzem micro-organismos favoráveis ao intestino e ampliam a diversidade da microbiota.
- Reduzir ultraprocessados: produtos ricos em açúcar, gorduras refinadas e aditivos elevam a inflamação intestinal e prejudicam a composição do microbioma.
- Cuidar da hidratação: beber água ao longo do dia auxilia o funcionamento intestinal, a formação do bolo fecal e a eliminação de resíduos metabólicos.
- Valorizar o sono: noites curtas ou irregulares interferem na microbiota e no equilíbrio hormonal ligado ao humor, como o cortisol e a melatonina.
- Praticar atividade física regular: exercícios moderados, principalmente os aeróbicos, costumam favorecer a diversidade de bactérias intestinais e reduzem o estresse.
Para quem busca um caminho mais prático, vale organizar pequenos passos e aplicá-los de forma constante:
- Incluir pelo menos um alimento fermentado por dia na rotina, como um copo de kefir ou iogurte natural.
- Garantir metade do prato com vegetais em pelo menos duas refeições, variando cores e tipos de fibras.
- Substituir parte dos ultraprocessados por opções caseiras ou minimamente processadas, como frutas e castanhas.
- Estabelecer um horário relativamente fixo para dormir e acordar, inclusive aos fins de semana.