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Fundar um país do zero: o mito e a realidade por trás das terras sem dono e da soberania internacional

A ideia de encontrar uma faixa de terra esquecida no mapa, fincar uma bandeira e proclamar o nascimento de um novo país costuma despertar curiosidade em muitas pessoas.

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A ideia de encontrar uma faixa de terra esquecida no mapa, fincar uma bandeira e proclamar o nascimento de um novo país costuma despertar curiosidade em muitas pessoas. Esse fascínio se apoia, em parte, no antigo conceito jurídico de Terra Nullius, expressão em latim que significa terra de ninguém. Durante séculos, governos e impérios utilizaram essa noção como base para disputas coloniais e ocupações de territórios que o direito internacional da época considerava vazios.

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No cenário atual, porém, a realidade difere bastante da fantasia geopolítica. A ordem internacional moderna, moldada após as duas guerras mundiais e consolidada especialmente depois de 1945, transformou o surgimento de novos Estados em um processo rigidamente controlado. A Convenção de Montevidéu, de 1933, estabeleceu critérios formais para que uma entidade seja considerada um Estado. Na prática, porém, o reconhecimento político por outros países e por organismos internacionais, como a ONU, pesa muito mais do que a simples posse de um pedaço de terra. Além disso, a crescente interdependência econômica e a preocupação com estabilidade regional reforçam ainda mais essas barreiras e tornam o sistema bastante fechado a novos integrantes.

O que é Terra Nullius e por que quase não existe mais?

O termo Terra Nullius surgiu historicamente como justificativa para a ocupação de áreas que juristas europeus classificavam como sem soberania reconhecida. Governos coloniais alegavam que determinados territórios não pertenciam a nenhum Estado civilizado ou não possuíam organização política nos moldes europeus. Com esse argumento, abriram caminho para anexações unilaterais e expansão imperial em diferentes continentes.

Com o passar do tempo, porém, a comunidade internacional passou a criticar duramente esse uso do conceito. Ao longo do século XX, juristas, movimentos anticoloniais e decisões de tribunais internacionais enfraqueceram a legitimidade jurídica e moral da ideia de Terra Nullius. Hoje, o direito internacional tende a rejeitar a noção de que existam terras verdadeiramente sem dono em sentido amplo. Em muitos casos, áreas pouco habitadas ou com presença humana difusa integram o território de algum Estado, ainda que de forma contestada ou precária.

Além disso, decisões de tribunais internacionais e resoluções da ONU reforçaram o princípio da autodeterminação dos povos. Isso reduziu drasticamente o espaço para que um país simplesmente declare que determinado território é Terra Nullius e possa se apropriar dele livremente. Essa mudança conceitual também dialoga com a crescente valorização dos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, que antes muitos Estados ignoravam nas contagens oficiais de ocupação territorial. Casos como o da Austrália, que revisou a doutrina de Terra Nullius em relação aos aborígenes, exemplificam essa revisão histórica.

neve na Antártida- Reprodução/Twitter

Bir Tawil é realmente uma Terra Nullius pronta para virar país?

Um dos exemplos mais mencionados quando se fala em Terra Nullius é Bir Tawil, uma pequena região desértica situada entre Egito e Sudão. Trata-se de uma área de forma aproximadamente trapezoidal, sem acesso ao mar, sem grandes recursos naturais conhecidos e praticamente desabitada. O ponto central é que, devido a divergências históricas entre duas linhas de fronteira traçadas em épocas diferentes, nenhum dos dois países reivindica formalmente Bir Tawil da mesma forma que disputa a vizinha região do Triângulo de Halaib.

Esse detalhe jurídico levou muitas pessoas a supor que Bir Tawil seja um território livre pronto para se transformar em novo país. Na última década, diversos indivíduos viajaram à área, hastearam bandeiras, declararam reinos imaginários e divulgaram essas iniciativas nas redes sociais. Apesar do destaque midiático ocasional, nenhuma dessas tentativas produziu qualquer efeito jurídico reconhecido, nem abriu um processo diplomático sério.

Na prática, Egito e Sudão controlam as fronteiras ao redor da região, e a circulação ali depende de condições políticas e de segurança definidas por esses Estados. Qualquer iniciativa de criação de um Estado em Bir Tawil sem o aval dos países vizinhos funciona, no mínimo, como gesto simbólico sem valor legal. Além disso, a ausência quase total de água, infraestrutura e população torna a viabilidade de um projeto estatal ainda mais remota. O caso ilustra, assim, como a expressão Terra Nullius, embora atraente em teoria, esbarra no poder de fato que os Estados existentes exercem e na necessidade de reconhecimento internacional. Também mostra como o imaginário sobre terras vazias ignora os custos reais de manter um território habitável.

Antártida: por que não se pode fundar um país no gelo?

Outra área frequentemente associada à ideia de Terra Nullius é a Antártida. O continente gelado possui trechos que vários países reivindicam, além de parcelas onde as pretensões territoriais permanecem suspensas ou não recebem reconhecimento universal. À primeira vista, esse cenário poderia sugerir uma oportunidade para proclamar um novo Estado em alguma porção neutra de gelo.

O principal obstáculo, contudo, é o Tratado da Antártida, em vigor desde 1961 e atualizado por protocolos posteriores. Esse acordo internacional determina que o continente deve servir exclusivamente para fins pacíficos e de pesquisa científica. Na prática, o tratado congela novas reivindicações territoriais e restringe fortemente atividades de natureza militar ou de exploração econômica predatória.

Assim, mesmo que alguma área da Antártida não esteja claramente sob soberania exclusiva de um país, o regime jurídico do Tratado impede a criação de um novo Estado na região. Qualquer tentativa de declarar independência antártica enfrentaria oposição direta das potências signatárias e encontraria enormes dificuldades logísticas para funcionar. A Antártida funciona, nesse sentido, como exemplo de espaço global regulado por acordo multilateral, e não como Terra Nullius clássica. Além disso, a crescente preocupação internacional com mudanças climáticas e proteção de ecossistemas frágeis torna ainda menos provável qualquer flexibilização desse regime. Mesmo projetos científicos são rigidamente supervisionados para evitar danos ambientais duradouros.

Sealand e outras micronações: quando um país existe só no papel?

Entre as histórias mais citadas na discussão sobre novos países está o Principado de Sealand. Nos anos 1960, um radialista britânico ocupou uma antiga fortaleza marítima da Segunda Guerra Mundial no Mar do Norte, fora das águas territoriais do Reino Unido da época, e proclamou o local como Estado independente. Sealand passou a emitir passaportes, criar títulos de nobreza e manter uma narrativa própria de soberania, explorando a curiosidade pública e a mídia.

Apesar da criatividade, nenhum governo reconheceu Sealand como país. A pequena estrutura de aço se enquadra, para muitas análises jurídicas, mais como uma plataforma ou instalação do que como um território em sentido pleno. Além disso, mudanças nas regras de águas territoriais tornaram o status geográfico da fortaleza ainda mais complexo e aproximaram a construção da zona sob jurisdição britânica. O caso se tornou, assim, um símbolo das chamadas micronações, entidades que se autodeclaram países, mas existem sobretudo como projetos culturais, protestos políticos ou curiosidades.

Há inúmeros exemplos semelhantes, como reinos inventados em propriedades rurais, repúblicas em apartamentos urbanos ou Estados fictícios online. Embora alguns desses projetos mantenham comunidades ativas, moedas simbólicas e sistemas de leis internos, nenhum deles consegue cumprir, de maneira eficaz, os requisitos geopolíticos necessários para que outros Estados os vejam como soberanos. Ainda assim, essas experiências ajudam a popularizar discussões sobre fronteiras, identidade nacional e legitimidade do poder, funcionando muitas vezes como laboratórios sociais e narrativos. Em alguns casos, também servem como crítica bem-humorada ao excesso de burocracia estatal ou ao nacionalismo agressivo.

O que exige a Convenção de Montevidéu para um Estado ser reconhecido?

Convenção de Montevidéu sobre Direitos e Deveres dos Estados, de 1933, ainda aparece amplamente nas discussões jurídicas sobre a definição de Estado. O tratado estabelece quatro requisitos formais básicos:

  • População permanente: um grupo de pessoas que reside de forma estável no território;
  • Território determinado: espaço geográfico definido, ainda que com fronteiras não totalmente claras;
  • Governo: autoridade organizada que exerça poder efetivo sobre o território e a população;
  • Capacidade de se relacionar com outros Estados: possibilidade real de firmar tratados, negociar e participar do sistema internacional.

Em teoria, uma entidade que cumpra esses quatro critérios poderia ser considerada um Estado, mesmo sem reconhecimento amplo. Na prática contemporânea, porém, o reconhecimento diplomático por outros países e a inclusão em organizações internacionais se tornaram fatores decisivos. Muitos territórios com governo próprio, população estável e fronteira definida enfrentam barreiras políticas para ingressar na ONU ou estabelecer relações formais, como mostram os casos de Taiwan, Kosovo ou Palestina.

Dessa forma, a criação de um novo país em área considerada Terra Nullius esbarraria não apenas na posse física do território, mas principalmente na ausência de reconhecimento por vizinhos e grandes potências. Sem acordos de fronteira, sem relações diplomáticas e sem inserção em organismos multilaterais, o suposto Estado permaneceria isolado, com severas dificuldades para operar serviços básicos, comércio internacional e proteção jurídica de seus habitantes. Além disso, sem acesso a sistemas financeiros globais e a tratados de proteção ambiental ou de direitos humanos, essa nova entidade tenderia a enfrentar um cenário ainda mais frágil. Mesmo em situações de secessão, nas quais já existe população organizada, a transição costuma exigir anos de negociação.

Por que hoje é quase impossível criar uma nova soberania do zero?

No contexto geopolítico de 2026, o surgimento de novos países costuma ocorrer em situações específicas: descolonização tardia, fragmentação de Estados existentes, acordos de paz após conflitos civis ou negociações prolongadas mediadas por organismos internacionais. Mesmo nesses cenários, o processo se mostra complexo e demorado, como demonstram exemplos recentes no continente africano, na Europa Oriental e em outras regiões. Raramente um novo Estado surge sem uma longa história de disputa, conflito ou mobilização popular.

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A fundação de um Estado totalmente novo em suposta Terra Nullius enfrenta, no mínimo, três barreiras estruturais:

  1. Resistência dos Estados vizinhos: governos estabelecidos tendem a ver projetos de micronacionalidade como potenciais focos de instabilidade e, por isso, costumam adotar medidas diplomáticas, legais ou até militares para desestimular iniciativas desse tipo;
  2. Falta de reconhecimento internacional: sem relações diplomáticas e sem representação na ONU, a entidade tem capacidade limitada de agir no sistema global, firmar tratados, garantir defesa ou atrair investimentos;
  3. Viabilidade econômica e social: ausência de infraestrutura, recursos naturais exploráveis e população estável dificulta o funcionamento cotidiano de um país, desde a prestação de serviços públicos essenciais até a manutenção de um sistema de justiça minimamente eficaz.
depositphotos.com / Shnurochek13

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