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Ovelha do Mar: a lesma que rouba luz do sol para se alimentar como uma planta

A pequena lesma-do-mar Costasiella kuroshimae, popularmente apelidada de ovelha do mar, é um dos animais mais curiosos estudados pela biologia marinha. Saiba como ela é capaz de roubar luz do sol para se alimentar.

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A pequena lesma-do-mar Costasiella kuroshimae, popularmente apelidada de ovelha do mar, é um dos animais mais curiosos estudados pela biologia marinha nas últimas décadas. Com aparência que lembra um personagem de desenho animado e um comportamento que mistura características de animal e planta, esse molusco desafia classificações simples. Ao mesmo tempo em que se move como qualquer invertebrado marinho, ele é capaz de usar a luz do sol como fonte de energia, graças a um fenômeno biológico raro conhecido como cleptoplastia.

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Esse comportamento peculiar faz da ovelha do mar um dos símbolos da chamada junção improvável entre reino animal e mundo vegetal. Afinal, a espécie chama a atenção não apenas pela estética incomum, mas principalmente pela estratégia de sobrevivência que permite que o animal aproveite estruturas das algas que consome para prolongar sua própria autonomia energética. Para pesquisadores, a combinação de aparência carismática e processo celular complexo transformou a Costasiella kuroshimae em um modelo importante para estudos de evolução e simbiose.

Ao mesmo tempo em que se move como qualquer invertebrado marinho, a ovelha do mar é capaz de usar a luz do sol como fonte de energia, graças a um fenômeno biológico raro conhecido como cleptoplastia – depositphotos.com / fran.ricc@tutanota.com

Aparência da ovelha do mar: por que esse apelido pegou?

O apelido ovelha do mar não surgiu por acaso. A Costasiella kuroshimae apresenta um corpo pequeno e arredondado, com a parte frontal clara e pontuda, lembrando um focinho. Na cabeça, destacam-se dois tentáculos escuros e alongados, semelhantes a pequenas orelhas ou chifres. Na região dorsal, projeções em forma de folhas chamadas ceratas se distribuem como um manto espesso, criando um visual semelhante ao de um carneiro coberto por lã volumosa.

Essas ceratas são geralmente verdes fluorescentes, pontilhadas de manchas mais claras e, em alguns indivíduos, com bordas azuladas ou esbranquiçadas. Porém, a coloração intensa não é apenas estética. Afinal, ela está diretamente ligada à presença de cloroplastos dentro desses prolongamentos corporais, o que contribui para o efeito visual brilhante sob luz adequada. Ademais, em ambientes de recife com boa iluminação, a ovelha do mar pode parecer quase uma miniatura vegetal ambulante.

Cleptoplastia na Costasiella kuroshimae: como um animal rouba cloroplastos?

O termo cleptoplastia descreve a capacidade de certos organismos de capturar e manter cloroplastos ativos a partir do alimento que ingerem. No caso da ovelha do mar, o processo começa quando o animal se alimenta de algas verdes do gênero Avrainvillea e outras espécies similares. Durante a digestão, em vez de destruir completamente o material celular, a lesma retém os cloroplastos das algas e os incorpora às suas próprias células, principalmente nas ceratas.

Esses cloroplastos roubados continuam funcionando por um período significativo, permitindo que a Costasiella kuroshimae realize fotossíntese, de forma semelhante às plantas. Em condições favoráveis de luz, o animal pode sobreviver semanas com pouca ou nenhuma ingestão adicional de alimento, utilizando os açúcares e compostos energéticos produzidos a partir da luz solar. Estudos indicam que a eficiência dessa fotossíntese não é idêntica à de uma planta, mas suficiente para servir como espécie de reserva energética estratégica.

Pesquisas recentes investigam se a ovelha do mar consegue, em algum grau, integrar genes de algas ao próprio genoma, o que ajudaria a manter os cloroplastos ativos por mais tempo. Porém, ainda não há consenso científico definitivo sobre a extensão dessa integração genética, mas a espécie permanece como um dos principais exemplos de animais fotossintetizantes conhecidos na natureza.

Onde vive a ovelha do mar e como é seu habitat?

A Costasiella kuroshimae foi registrada principalmente em recifes de coral e fundos arenosos com algas em regiões tropicais e subtropicais do Pacífico Ocidental. Registros frequentes vêm de áreas próximas ao Japão, principalmente na região de Okinawa, e de recifes nas Filipinas. Em geral, a espécie prefere ambientes rasos, onde a luz penetra com intensidade suficiente para favorecer a fotossíntese dos cloroplastos retidos.

Esses recifes oferecem uma combinação de fatores essenciais para a ovelha do mar. São eles: abundância de algas verdes adequadas à alimentação, água relativamente limpa e boa luminosidade. O animal costuma ser encontrado sobre tapetes de algas, quase camuflado em meio ao verde intenso. Seu tamanho reduzido geralmente inferior a 1 centímetro torna a observação direta um desafio, exigindo atenção cuidadosa de mergulhadores e fotógrafos submarinos.

  • Ambientes rasos com forte incidência de luz solar.
  • Recifes de coral com algas verdes abundantes.
  • Águas quentes de regiões como Japão e Filipinas.
  • Áreas protegidas de correntes muito intensas.

Quantos animais funcionam como plantas no oceano?

Animais capazes de usar cloroplastos para fotossíntese ainda são considerados raros no reino animal. Entre os exemplos conhecidos, as lesmas-do-mar do grupo das sacoglossas, ao qual pertence a Costasiella kuroshimae, estão entre os casos mais estudados. Outras espécies, como Elysia chlorotica, também apresentam cleptoplastia, mas cada uma com particularidades em relação ao tipo de alga utilizada, à duração da atividade fotossintética e à dependência de alimento externo.

Essa raridade desperta interesse porque mostra limites flexíveis entre categorias biológicas tradicionalmente bem demarcadas. Ao incorporar cloroplastos funcionais, a ovelha do mar passa a ocupar uma zona intermediária entre consumidor e quase produtor de energia. Para cientistas, esses exemplos ajudam a entender como relações simbióticas e trocas de material genético podem influenciar a evolução de diferentes grupos de organismos ao longo do tempo.

  1. Alimentação de algas verdes ricas em cloroplastos.
  2. Retenção dos cloroplastos em células do próprio corpo.
  3. Uso da luz solar para produzir energia adicional.
  4. Redução temporária da dependência de alimento externo.
A Costasiella kuroshimae foi registrada principalmente em recifes de coral e fundos arenosos com algas em regiões tropicais e subtropicais do Pacífico Ocidental – depositphotos.com / suwatsir

Por que a ovelha do mar chama tanta atenção na ciência e na cultura popular?

A combinação entre a aparência de miniatura fofinha e o mecanismo biológico sofisticado ajudou a transformar a Costasiella kuroshimae em personagem recorrente em reportagens, ilustrações científicas e redes sociais. Fotografias em macro, que evidenciam os detalhes dos ceratas verdes fluorescentes, circulam amplamente, despertando curiosidade de pessoas que, muitas vezes, não tinham contato prévio com o tema da biodiversidade marinha.

Na comunidade científica, a espécie funciona como porta de entrada para discussões sobre fotossíntese, simbiose, evolução e conservação de recifes de coral. Em um cenário de mudanças climáticas e pressão sobre ecossistemas costeiros, o estudo de organismos como a ovelha do mar também ajuda a reforçar a importância de preservar ambientes onde formas de vida tão específicas conseguem prosperar.

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Entre o encanto visual e a precisão biológica, a ovelha do mar permanece como exemplo marcante de como o oceano abriga soluções evolutivas pouco óbvias. Um pequeno molusco, com corpo de animal e estratégia de energia inspirada em plantas, continua a ampliar o entendimento sobre os limites e as possibilidades da vida no planeta.

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