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Entenda a Doutrina Monroe e o papel dos EUA nas Américas

A Doutrina Monroe costuma ser lembrada pela frase "A América para os Americanos", anunciada em 1823 pelo presidente norte-americano James Monroe. No entanto, ela se desdobrou com o passar do tempo e voltou a ser tema com Donald Trump. Saiba mais!

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A Doutrina Monroe costuma ser lembrada pela frase “A América para os Americanos”, anunciada em 1823 pelo presidente norte-americano James Monroe. De forma geral, tratava-se de um aviso às potências europeias de que o hemisfério ocidental não deveria mais ser alvo de novas colonizações ou intervenções externas. Porém, com o passar do tempo o que começou como um posicionamento defensivo contra a influência europeia transformouse em instrumento de projeção de poder dos Estados Unidos sobre a América Latina.

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Ao longo de quase dois séculos, esse princípio passou por diferentes interpretações, teve ampliação por outros presidentes e ganhou novas funções. Entre elas, contenção de impérios europeus ao combate ao comunismo e à regulação de disputas comerciais e de segurança. Na atualidade, o termo volta a aparecer em discursos de líderes políticos, entre eles Donald Trump, em debates sobre soberania nacional, política externa e segurança regional. Assim, isso reabre discussões sobre seu peso geopolítico no século XXI.

Um dos marcos mais relevantes na evolução da Doutrina Monroe foi o que se denominou Corolário Roosevelt, anunciado pelo presidente Theodore Roosevelt em 1904 – depositphotos.com / Vizulis German

Como surgiu a Doutrina Monroe em 1823?

A origem da Doutrina Monroe liga-se ao contexto pósGuerras Napoleônicas, quando diversas colônias na América espanhola lutavam por independência. Em 2 de dezembro de 1823, durante o discurso anual ao Congresso, o presidente James Monroe declarou que o continente americano deveria ser visto como uma esfera de influência distinta da Europa. Portanto, o recado direcionava-se principalmente às monarquias europeias e à Santa Aliança, que cogitavam ajudar a Espanha a reconquistar seus antigos territórios.

Na formulação original, a doutrina tinha dois eixos centrais: rejeitar qualquer nova tentativa de colonização europeia nas Américas e, em contrapartida, comprometer os Estados Unidos a não interferirem em assuntos internos de países europeus. Assim, o lema “A América para os Americanos” sintetizava esse objetivo de proteção do hemisfério ocidental contra a restauração colonial. Na prática, a posição norteamericana também dialogava com interesses econômicos e estratégicos,. Afinal, um continente composto por nações independentes abria espaço para novas relações comerciais com Washington.

Doutrina Monroe: de escudo defensivo a instrumento de influência?

Com o fortalecimento dos Estados Unidos ao longo do século XIX, a Doutrina Monroe passou a servir não apenas como barreira contra a presença europeia, mas também como base para a expansão da influência norteamericana. Assim, episódios como a guerra contra o México (18461848) e a guerra hispanoamericana de 1898, que resultou na presença dos EUA em Cuba e Porto Rico, mostram como a ideia de proteger o hemisfério se combinou com políticas de expansão territorial e econômica.

O termo também foi alvo de reinterpretação em diferentes momentos, sempre a partir do interesse estratégico de Washington. Ao mesmo tempo em que era apresentada como defesa da autodeterminação dos povos americanos, a doutrina passou a justificar intervenções políticas, militares e econômicas em países vizinhos. Assim, a expressão A América para os Americanos ganhou um duplo sentido. Além limitação à Europa, ao mesmo tempo a afirmação da liderança dos Estados Unidos sobre o continente.

O que foi o Corolário Roosevelt e por que ele mudou o sentido da doutrina?

Um dos marcos mais relevantes na evolução da Doutrina Monroe foi o que se denominou Corolário Roosevelt, anunciado pelo presidente Theodore Roosevelt em 1904. A partir de problemas de endividamento externo de países caribenhos e centroamericanos com credores europeus, Roosevelt argumentou que os Estados Unidos poderiam exercer um poder de polícia internacional no hemisfério para evitar intervenções europeias.

Na prática, o Corolário Roosevelt ampliou o alcance da doutrina. Afinal, ela deixou de ser apenas uma mensagem defensiva e passou ter uso para legitimar ações diretas dos EUA em nações consideradas instáveis financeiramente ou politicamente. Dessa forma, o raciocínio embasou ocupações e intervenções em países como República Dominicana, Haiti, Nicarágua e Cuba, entre o início do século XX e a década de 1930.

Mais adiante, durante a Guerra Fria, a lógica da Doutrina Monroe somouse ao combate à influência soviética. Golpes de Estado, apoio a governos alinhados e ações secretas em vários países latinoamericanos foram justificados como medidas para impedir que potências extrahemisféricas ganhassem espaço político na região. Assim, a doutrina e o Corolário Roosevelt passaram a integrar um repertório mais amplo de contenção ideológica e geopolítica.

Quais foram as principais fases da Doutrina Monroe ao longo dos séculos?

A trajetória da Doutrina Monroe costuma ter uma divisão em fases, marcadas por mudanças do cenário internacional e pela posição dos Estados Unidos no sistema global. De modo geral, identificam-se alguns períodos principais, cada um com características próprias:

  • Fase fundadora (1823final do século XIX): ênfase na proteção contra novas colonizações e na afirmação da independência das novas repúblicas latinoamericanas, com capacidade limitada de intervenção direta.
  • Fase imperial e Corolário Roosevelt (início do século XX): crescimento econômico e militar dos EUA, uso da doutrina para justificar intervenções e ocupações, especialmente no Caribe e na América Central.
  • Fase da boa vizinhança e Guerra Fria (décadas de 19301980): alternância entre cooperação diplomática, política de boa vizinhança e ações de contenção ao comunismo, combinações de acordos multilaterais e intervenções discretas ou abertas.
  • Fase pósGuerra Fria (19902020): redirecionamento da atenção estratégica para outras regiões, mas manutenção da percepção de que o hemisfério ocidental representa área prioritária de segurança, comércio e energia.

Em todas essas etapas, o núcleo da doutrina a ideia de que o hemisfério ocidental forma uma zona de interesse especial para Washington permaneceu. O que variou foram os métodos: da diplomacia à intervenção militar, passando por pressão econômica, tratados regionais e cooperação em temas como combate ao narcotráfico e ao terrorismo.

No governo de Donald Trump, membros de sua equipe e o próprio presidente retomaram a expressão ao falar de países como Venezuela, Cuba e Nicarágua – depositphotos.com / thenews2.com

Por que a Doutrina Monroe volta aos discursos de líderes atuais?

No século XXI, referências à Doutrina Monroe reaparecem em debates sobre soberania nacional, segurança fronteiriça e disputas comerciais. No governo de Donald Trump, membros de sua equipe e o próprio presidente retomaram a expressão ao falar de países como Venezuela, Cuba e Nicarágua. Ademais, ao criticar a presença de potências como China e Rússia em projetos de infraestrutura, energia e telecomunicações na região.

Essa reatualização tem relação com três frentes principais:

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  1. Disputa geopolítica: preocupação com investimentos e presença militar de outras potências no hemisfério ocidental, vista como possível desafio à influência histórica dos Estados Unidos.
  2. Questões de segurança regional: uso da retórica monroísta em discussões sobre migrações, tráfico de drogas, terrorismo e cooperação em defesa de fronteiras e mares.
  3. Temas comerciais e tecnológicos: debates sobre redes 5G, controle de portos, rotas marítimas e fornecimento de matériasprimas estratégicas, em que a doutrina é mencionada como argumento para priorizar fornecedores e parceiros do próprio hemisfério.

Ao ser objeto do discurso e ações de líderes contemporâneos, a Doutrina Monroe funciona como um símbolo histórico que sustenta a ideia de que o hemisfério ocidental ainda é uma área de interesse central para Washington. Entretanto, o uso dessa referência também reacende discussões em países latinoamericanos sobre autonomia, equilíbrio nas relações internacionais e os limites entre segurança regional e projeção de poder. Dessa forma, o debate em torno da doutrina permanece relevante para entender como se constroem, até hoje, as relações entre Estados Unidos, América Latina e demais potências globais.

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