Música no Brasil: como sertanejo, samba, funk e axé conquistaram o país
Sertanejo: descubra por que é o gênero musical mais popular do Brasil, sua evolução do raiz ao universitário e a força de outros ritmos
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O sertanejo ocupa hoje um espaço central no cenário musical brasileiro e se consolidou como o gênero de maior alcance nacional. Essa posição é resultado de um longo processo que começa no campo, passa pelo rádio, pela TV e chega às plataformas de streaming, sempre acompanhando mudanças sociais, econômicas e tecnológicas do país. Ao mesmo tempo, esse sucesso convive com outros ritmos fortes, como funk carioca, pagode, samba, forró e axé, que ajudam a desenhar um retrato amplo da cultura musical brasileira.
A história do sertanejo revela um diálogo constante entre tradição e inovação. Das primeiras modas de viola à sofisticação das grandes produções atuais, o gênero se adaptou a diferentes públicos sem perder por completo a ligação com o imaginário do interior. Essa capacidade de se reinventar, somada a estratégias de mercado bem organizadas, fez do sertanejo uma presença constante em rádios, festas, festas de peão, grandes festivais e plataformas digitais em todo o território nacional.
Como surgiu o sertanejo raiz e qual sua ligação com o interior do Brasil?
O chamado sertanejo raiz nasce das canções caipiras que circulavam em áreas rurais, especialmente em São Paulo, Minas Gerais, Goiás e interior do Paraná, ainda na primeira metade do século XX. Eram músicas simples, centradas na viola caipira, com letras que retratavam a vida no campo, a relação com a natureza, a religiosidade e o cotidiano de trabalhadores rurais. As duplas, muitas vezes formadas por irmãos ou parentes, tornaram-se a principal forma de apresentação desse estilo.
O rádio foi um dos grandes responsáveis por levar a música sertaneja para além das fazendas e pequenas cidades. A partir dos anos 1940 e 1950, programas dedicados ao mundo caipira deram visibilidade a artistas que, até então, se apresentavam apenas em festas de comunidade. Nessa fase, consolidaram-se estruturas características: segunda voz mais grave, afinações específicas de viola, e narrativas que frequentemente misturavam romance, humor e elementos da cultura rural. O sertanejo raiz, assim, ajudou a fixar um imaginário de Brasil interiorano que ainda hoje influencia o gênero.
De que forma o sertanejo universitário mudou o gênero e ampliou seu público?
A transição do sertanejo tradicional para o sertanejo universitário aconteceu de forma gradual, especialmente a partir dos anos 1990 e 2000. Primeiro, surgiu o chamado sertanejo romântico, mais próximo da música pop e influenciado pela balada internacional. Em seguida, artistas mais jovens, ligados a centros urbanos e a ambientes de faculdades, passaram a adotar uma linguagem mais coloquial, temas ligados à vida noturna, relacionamentos e festas, além de arranjos com guitarra, bateria, teclado e elementos eletrônicos.
O termo universitário surgiu porque muitas dessas duplas circulavam em festas de faculdades e cidades com forte presença estudantil. O sertanejo moderno ganhou refrões fáceis, letras diretas e produção visual pensada para grandes shows e transmissões ao vivo. A presença constante em programas de TV, rádios populares e, mais recentemente, o uso intenso de redes sociais e plataformas de streaming consolidaram o sertanejo universitário como trilha sonora de festas, bares e eventos em diferentes regiões do país.
Entre os fatores que contribuíram para que o sertanejo se tornasse o gênero musical mais popular do Brasil, destacam-se:
- Identificação temática ampla: letras sobre amor, desilusões, diversão e consumo dialogam com diferentes faixas etárias.
- Estrutura profissional: escritórios de artistas, gravadoras e agências de shows criaram uma cadeia de negócios sólida.
- Capilaridade regional: eventos sertanejos movimentam cidades pequenas, médias e grandes, além de festas de rodeio.
- Adaptação tecnológica: forte presença em clipes, DVDs, lives e redes sociais ampliou o alcance em todo o país.
Quais são outros gêneros musicais muito populares no Brasil hoje?
Apesar do protagonismo do sertanejo, a cena musical brasileira é marcada por outros estilos com forte presença popular. Entre eles, funk carioca, pagode/samba e forró/axé ocupam lugar de destaque, cada um com uma trajetória própria e importante papel cultural nas regiões onde surgiram e se desenvolveram.
Funk carioca: das favelas às plataformas digitais
O funk carioca surgiu no Rio de Janeiro, influenciado pelo hip-hop e pelo miami bass, e ganhou força a partir dos anos 1980 e 1990 nos bailes de comunidades periféricas. Com batidas marcadas, graves intensos e letras que tratam do cotidiano das favelas, da dança, da sociabilidade e também de conflitos urbanos, o funk se tornou um dos principais símbolos da cultura periférica brasileira.
Ao longo dos anos, o gênero incorporou variações como funk melody, funk consciente e batidas mais próximas da música eletrônica. Hoje, o funk carioca ocupa espaços em grandes festivais, programas de televisão e paradas de streaming. Além de movimentar a economia criativa em bailes, festas e redes sociais, o estilo projeta dançarinos, produtores e DJs, influenciando moda, linguagem e comportamento juvenil em todo o país.
Pagode, samba, forró e axé: tradição, festa e regionalismo
O samba, com raízes afro-brasileiras e presença marcante desde o início do século XX, segue como um dos pilares da identidade cultural do Brasil. Em diálogo com ele, o pagode ganhou força a partir dos anos 1980 e 1990, com grupos que levaram um clima de roda de amigos para rádios e TV. Instrumentos como tantã, repique de mão e banjo adaptado marcam o estilo, que se consolidou como trilha sonora de encontros, bares e eventos urbanos.
O forró, ligado ao Nordeste e a nomes históricos da sanfona, se transformou ao longo das décadas. Do forró pé de serra ao forró eletrônico, o gênero acompanha festas juninas, vaquejadas e grandes eventos na região, mas também atrai público em outras partes do país. Ritmos como xote, baião e xaxado mantêm vivas referências ao sertão, às festas comunitárias e às migrações internas.
Já o axé surgiu com força na Bahia, especialmente em Salvador, nos anos 1980 e 1990, associado ao carnaval de trios elétricos. Misturando elementos de samba-reggae, frevo e pop, o axé levou para o restante do Brasil uma estética de rua, blocos carnavalescos e coreografias marcantes. Mesmo com períodos de maior ou menor presença na mídia nacional, o gênero segue como componente central da música de carnaval e da indústria do entretenimento baiano.
Como a diversidade musical brasileira expressa tradição, modernidade e regionalismo?
A convivência entre sertanejo, funk carioca, pagode, samba, forró e axé mostra como o Brasil articula, ao mesmo tempo, tradições antigas, tendências contemporâneas e fortes marcas regionais. Enquanto o sertanejo universitário revela a modernização de um estilo ligado ao campo, o funk expõe vivências urbanas e periféricas, e o samba, o pagode, o forró e o axé mantêm vivas memórias culturais ligadas a festas, religiões de matriz africana, migrações e celebrações coletivas.
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Essa multiplicidade de ritmos cria um cenário em que diferentes grupos sociais encontram espaço para se reconhecer. A popularidade do sertanejo, somada à força de funk, pagode, samba, forró e axé, ilustra como a indústria musical brasileira se organiza em torno de sons que transitam entre tradição e inovação, campo e cidade, local e global. O resultado é um mosaico sonoro que acompanha transformações do país e ajuda a narrar, em diferentes batidas e melodias, a história de sua população.